1 de out de 2018

A polarização embaralhada

Uma coisa é certa: Bolsonaro embaralhou a polarização à qual estávamos acostumados. O cenário de 2016 já parece vintage. Já não se briga pelas mesmas razões, nem com as mesmas pessoas. Dá certa alegria brigar com pessoas diferentes.

Com a morte e o enterro do tucanato, sobreveio uma nova polarização — que dividirá, imagino, o tucanistão (ou o que sobrou dele) no segundo turno. Não creio que vão abraçar (como Doria já se apronta em fazer) um sujeito que pregou que “tinha que matar uns 30 mil começando por FHC”. Espero que FHC, ao menos, não abrace.

Graças a Bolsonaro, pessoas que até dois anos trocavam de calçada quando se encontravam foram às ruas juntas no mesmo dia. O Brasil continua dividido, mas a divisão atual parece mais apropriada, porque uniu de um lado só o famigerado campo democrático.

As eleições estão parecendo cada vez mais um referendo sobre a própria democracia. O que se pergunta nas urnas, dia 7, é se a democracia finalmente fez bem ou mal ao Brasil. Ironicamente, o candidato que diz que não acredita no voto nem na urna eletrônica está pedindo seu voto na urna eletrônica.

Os dois lados da nova polarização, claro, têm semelhanças. Não no flerte com a ditadura, mas no saudosismo. “O Brasil feliz de novo”, diz o slogan de Haddad. Poderia ser o slogan de Bolsonaro, se ele tivesse marqueteiros melhores. Traduziram o slogan de Trump, adaptando-o. Make Ursal Great Again.

De qual Brasil você tem saudade?, perguntarão as urnas no segundo turno. Particularmente, não escondo: tenho saudade do Brasil fora do mapa da fome, e sem ameaça de fuzilamento.

Editorial de domingo deste jornal (fAlha) iguala o silêncio do PT sobre uma ditadura vizinha à apologia de Bolsonaro à ditadura brasileira. O pessoal do andar de cima continua fraquejando quando o assunto é ditabranda.

Gregório Duvivier
No fAlha

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