7 de out de 2018

A mídia viúva

Pela primeira vez, desde o fim da ditadura, o candidato preferido dos meios de comunicação não é competitivo

Desta feita,o ungido não emplaca
Até 1º de outubro, a cobertura política e eleitoral da mídia mostrava sinais de continuidade e de excepcionalidade. Onde residia a continuidade? Desde o advento da Nova República até a disputa de 2014, os meios de comunicação do País têm sistematicamente apoiado candidatos de direita ou centro-direita.

Se descontarmos a eleição de 1989, quando promoveram Fernando Collor, do nanico PRN, o apoio tem sido emprestado ao PSDB contra o representante da vez do PT. Esse apoio se manifesta, na prática, em cobertura extremamente enviesada, na qual o candidato petista é alvejado com todo tipo de notícia negativa, geralmente associada a escândalos, enquanto o tucano é poupado ou mesmo promovido.

No site do Manchetômetro, essa atuação está documentada nas eleições de 1998, 2010 e 2014. Comparamos 1998 com 2014 – duas campanhas por reeleição, envolvendo os mesmos partidos (PSDB e PT) e em contextos de crise econômica, bem mais forte em 1998 do que em 2014.

Fernando Henrique recebeu, em 1998, cobertura altamente positiva, a despeito da crise e do “escândalo” da compra de votos de deputados para a emenda da reeleição, noticiada pontualmente, mas não explorada pelos meios. Enquanto Lula, que nunca tinha ocupado um cargo majoritário, recebeu cobertura bem mais negativa do que aquela do presidente tucano.

Quando a candidata à reeleição era do PT, em 2014, a situação recebeu tratamento bastante contrário por parte da mídia. Dilma Rousseff foi alvo de todos os tipos de citações negativas, enquanto Aécio Neves, seu contendor, foi poupado, apesar de seu nome já estar ligado a escândalos de corrupção, entre eles o uso privado do aeroporto de Cláudio, no interior de Minas Gerais, e a construção da Cidade Administrativa em Belo Horizonte.

Em 2010 tivemos também uma campanha massacrante contra Dilma e o PT, a partir da fabricação midiática de vários escândalos, como o vazamento dos dados fiscais da filha de José Serra, que rendeu seguidas manchetes dos principais jornais durante a campanha, e aquele que foi a epítome: o escândalo da bolinha de papel atirada na cabeça de Serra.

Para além das análises do Manchetômetro, uma extensa literatura acadêmica dos estudos de mídia documenta, por meio de variadas metodologias, esse comportamento bastante previsível dos meios de comunicação eleição após eleição.

Mas a presente disputa começou a se configurar de maneira diversa. Além da troca da candidatura do PT, tivemos um fator bastante novo. Com Lula fora do páreo, as pesquisas de intenção de voto passaram a mostrar a liderança de um candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro, do PSL.

O candidato do PT, Fernando Haddad, consolidou-se em segundo lugar, com viés de crescimento. Geraldo Alckmin, do PSDB, não conseguiu passar da barreira do dígito único das intenções de voto até uma semana antes do pleito.
Observemos o gráfico da cobertura recebida por Haddad ao longo do ano de 2018 exibido nestas páginas. Ele era praticamente ignorado antes de se tornar candidato. A partir do momento em que seu nome passou a ser aventado para substituir Lula, sua cobertura se intensificou, atingindo uma proporção de quase 1 para 1 de neutros e negativos no último mês.

Agora vejamos os números da cobertura de Alckmin, o candidato do partido adversário histórico do PT. O tratamento recebido pelo tucano confirma em parte a tese da continuidade do comportamento tradicional de viés da mídia.

O número de notícias contrárias é bastante alto, em média, para um candidato do PSDB em ano de campanha. Aécio e Serra tiveram tratamento bem mais benevolente. Ademais, Alckmin foi objeto de cobertura bastante negativa em abril, devido a escândalos de corrupção associados à sua gestão, aos quais a mídia deu alguma atenção.

A despeito dessas anomalias, ao entrarmos no período oficial de campanha, sua razão entre neutras e contrárias é de 2 para 1, ou seja, duas vezes maior que aquela de Haddad. Tal resultado é confirmado pela comparação do número absoluto de contrárias recebidas pelos candidatos no mês de setembro: Haddad teve 80, enquanto Alckmin não chega a 40.

Enquanto isso, analisemos o gráfico referente ao tratamento dispensado a Bolsonaro. Se, por um lado, foi noticiado mais do que qualquer outro candidato, o que é melhor do que não ser noticiado, o ex-militar recebeu uma cobertura com perfil ligeiramente mais negativo do que aquela recebida por Haddad.

Caso as tendências reveladas pelas pesquisas se confirmarem e Bolsonaro e Haddad passarem para o segundo turno, contudo, entraremos em terreno não explorado. A mídia nunca enfrentou na Nova República um segundo turno sem um candidato de sua preferência. A questão que se coloca é: como se comportarão os meios perante esse cenário?

Alguns sinais recentes parecem apontar para uma última tentativa de apoiar o candidato do PSDB por meio do discurso de demonização da polarização política entre Bolsonaro e o PT. Em editorais, O Globo, Estadão e Folha de S.Paulo defenderam a tese de que tanto Bolsonaro quanto o Partido dos Trabalhadores representam uma ameaça à democracia, embora o último tenha governado o País por 13 anos seguidos em clima de plena normalidade.

A delação de Antonio Palocci, vazada por Sergio Moro seis dias antes do pleito, e denúncias recauchutadas contra Lula e Haddad aproximam agora o padrão atual de cobertura daquele utilizado em eleições anteriores.

Estaríamos testemunhando um último esforço desesperado para mudar o resultado do primeiro turno, ou uma mudança mais profunda de apoio ao candidato da extrema-direita? Saberemos em breve.

João Feres Júnior, Professor de Ciência Política do IESP-UERJ, o antigo Iuperj. Coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), que abriga o site Manchetômetro (http://www.manchetometro.com.br) e o boletim semanal Congresso em Notas (http://congressoemnotas.tumblr.com)

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