10 de out de 2018

A barbárie chegou


A 19 dias do segundo turno, portanto, sem qualquer definição do que acontecerá e de quem presidirá o país nos próximos quatro anos, os adeptos da candidatura do capitão já se sentem donos do país. Respaldados apenas no bom resultado do primeiro turno, demonstram a quem ainda não conseguiu enxergar como pretendem comandá-lo. Não é nada agradável. Ao que parece, sentiram-se livre para demonstrar do que são capazes: impor medo e terror.

O quadro ao lado, recebido pelas redes e ampliado, demonstra apenas alguns acontecimentos ocorridos nos últimos dias nos mais diversos cantos do país. São fatos reais, em cidades diversas, sempre com a mesma marca: foram protagonizados por adeptos da candidatura de Jair Bolsonaro e mostram a violência. O desprezo pela vida. O desrespeito ao diferente ou a quem não pensa igual.

Não é demais lembrar que no dia 6 de setembro, o gesto tresloucado de Adélio Bispo de Oliveira, um mineiro com suspeitas de problemas psíquicos, atingiu o presidenciável Jair Bolsonaro em plena campanha, em Juiz de Fora (MG). Mesmo conscientes de estarem em uma disputa eleitoral acirrada, os demais candidatos se solidarizaram ao deputado federal do PSL, condenaram o gesto e até reduziram, na época, os ataques políticos. Manifestaram repúdio à violência com a qual não tinham qualquer envolvimento.

Nos últimos dias, porém, cenas de violência se repetem com uma frequência grande. Em comum o fato de serem protagonizadas por eleitores ou militantes da campanha do capitão do Exército. Muitas delas gravadas em vídeos. A maioria com registros na polícia. Demonstram que os militantes da candidatura militar – que acabam se confundindo com verdadeiros milicianos – diante dos resultados do primeiro turno, sentiram-se autorizados para, à luz do dia, e mesmo na presença de testemunhas, mostrar a violência que defendem e são capazes de realizar.

O mais impressionante é o silêncio obsequioso – autorizador? – de Bolsonaro. Ele próprio ainda se recuperando de um tresloucado ato de violência. Violência que, há muito, defende e propaga.

Se ele não pode responder pelos gestos de seus seguidores, apesar de muitos deles terem sido incentivados pelo discurso de ódio que sempre pregou, pode sim ser cobrado pelo silêncio diante de tamanha violência.

Silêncio que não se resume ao candidato à presidência. É compartilhado também pelo candidato ao governo do Rio de Janeiro, Wilson Witzen. Este, mesmo se vangloriando de ser ex-tenente dos Fuzileiros Navais – “onde aprendemos a hierarquia e a disciplina” – e ex-juiz federal, assiste impassível – e aplaude –  discursos de ódio dos candidatos coligados, como se fosse algo natural.

Tal como ocorreu em Petrópolis, cidade serrana fluminense, dias antes do primeiro turno. Ali, em momento lembrou-se de defender a lei e, principalmente, a civilidade. Tal como deveria ter aprendido ao pertencer às Forças Armadas e à magistratura. Em compensação, no debate político com o adversário, tenta se mostrar forte ao prometer dar-lhe voz de prisão diante de possível crime de injúria.

Dom Zanoni, um dos primeiros a se solidarizar 
com o mestre capoerista assassinado

Ao que parece, a turma que apoia o candidato militar não deseja conquistar voto com argumentos e teses políticas, mas implantando o terror e o medo. Literalmente agredindo quem não comunga das mesmas ideias. Não apenas agredindo, matando.

Como ocorreu com o mestre de capoeira e compositor Romualdo Rosário da Costa, 63 anos, conhecido como Moa do Katendê, assassinado a facadas, na noite de domingo (7/10), no Bar do João, na comunidade do Dique Pequeno, no Engenho Velho de Brotas, em Salvador.

Morreu, esfaqueado 12 vezes covardemente pelas costas, após admitir ao agressor que tinha votado diferente dele. Motivo suficiente para que Paulo Sérgio Ferreira de Santana, de 36 anos, fosse até sua casa apanhar a faca com que retirou a vida de um símbolo da cultura baiana.

Provavelmente Bolsonaro nem conheça o agressor, seu eleitor. Mas calou-se. Sequer se manifestou por uma vida ceifada a troco de nada.

Partiu de um bispo católico, Zanoni Demettino Castro, da diocese de Feira de Santana (BA), um dos primeiros protestos contra este crime. Trata-se do Bispo referencial da Pastoral Afro Brasileira que através do Facebook fez seu brado: “Chega de violência”. Porém, ainda soa muito brando. É preciso mais.

Se o silêncio do candidato apoiado pelos militantes/milicianos que tentam impor um clima de terror no país já incomoda, a omissão das autoridades é algo muito mais grave.

Desde domingo (07/10), por exemplo, circula pela rede o vídeo de um eleitor de Bolsonaro apertando com o cano de um revólver os números da urna eletrônica na seção 0249, da 88ª Zona Eleitoral do Rio (na Escola Estadual Maurício Brum, em São João de Meriti – Baixada Fluminense).

O vídeo revela ao menos duas cenas inusitadas: o eleitor entrar armado em uma seção eleitoral e ainda por cima com celular, que lhe permitiu filmar a provocação e vangloriar-se dela.

Nenhuma autoridade, porém, ao que se saiba, manifestou-se a respeito. Nada as motivou vir a público explicar como isso ocorreu e que consequências teve. Tal e qual uma terra sem lei. Sem autoridade.


O mesmo silêncio se repete diante de cenas de brutalidade que surgem a todo instante, contra minorias, pessoas diferentes, sem respeito algum ao ser humano ou mesmo animal, pois até cachorro foi morto a troco de nada.

Violência que ocorreu no Piauí, quando uma transexual foi brutalmente atacada. Cena que se repetiu na terça-feira em Queimados, na Baixada Fluminense, ao agredirem a dançarina funkeira “Mulher Banana”, como denunciou no Facebook o MC Carol. Ela estava em um ponto de ônibus junto com seu companheiro, quando um grupo de brutamontes os viram e começaram a gritar “Bolsonaro vai acabar com vocês“. Foi agredida quase a morte por eles. Tal como outra transexual do Piauí, cujo rosto ficou totalmente ferido.

Ou como aconteceu na noite de terça-feira, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), quando um aluno foi violentamente espancado simplesmente por utilizar um boné do MST. Ou a analista de operações de 24 anos que na manhã de terça-feira (09/10) foi agredida no bairro São Luiz, Região da Pampulha, em Belo Horizonte, ao afirmar que não votará em Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno destas eleições.

Não é tudo. No domingo, em plena eleição, uma jornalista, prestadora de serviço do portal NE10, do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, foi atacada em Recife (PE). De acordo com ela, de 40 anos, dois homens a agrediram e a ameaçaram de estupro no momento em que saía do local de votação, no bairro de Campo Grande, Zona Norte da cidade. Segundo relatou à Polícia, um deles vestia camisa do candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL). O motivo da agressão, ainda pelo seu relato, foi o fato de ela ser jornalista.

Anielle Franco: Tive medo!

Já Anielle Franco foi agredida por ser irmã de Marielle, a vereadora assassinada no Rio cujo crime está impune até hoje.

A impunidade do crime, bem como o apoio que tiveram dois brutamontes candidatos a deputado – hoje eleitos – ao se vangloriarem de retirar uma placa de rua que apenas simbolizava homenagem à política assassinada, simplesmente estimula novas ameaças e agressões.

Agressões que como descreveu Anielle, segunda-feira (08/10), no Facebook, ocorrem a troco de nada. Apenas para atemorizar e aterrorizar:
Hoje, com minha filha de dois anos no colo, andando na rua, próximo a um shopping, sem nenhum adesivo, nenhum broche, nenhuma camisa, nenhuma bandeira (era só eu e Mariah, ela com roupa de creche e eu com roupa de trabalho) recebi gritos na minha cara.. Repito: Gritos na minha cara – e consequentemente na dela (que ficou assustada claro). Gritos de que eu era “da esquerda de merda” “Sai daí feminista”. “Bolso%$€%#$… Piranhaaa” de homens devidamente uniformizados com a camisa do tal candidato. Hoje eu tive medo! Medo mesmo. Não deveria, mas tive. Foi assustador. Ainda mais com minha filha no colo. Eu sozinha teria sido outra história (quem me conhece sabe)!”
Desrespeitando as leis, Frota posa com crianças portando armas.
Reprodução das redes sociais

Tudo transcorrendo diante, repita-se, do silêncio do candidato a presidente – que garantiu, no Jornal Nacional de segunda-feira (08/10), que respeitará a Constituição. Silêncio também do ex-tenente Fuzileiro Naval e ex-juiz federal – cargos dos quais se vangloria ao concorrer ao governo do Rio com um discurso moralista – que nada fala sobre tais atitudes que denotam a violência dos seus seguidores.

Violência e crime, como a do ator pornô Alexandre Frota – recém-eleito deputado federal – ao posar para fotos com crianças portando armas (veja ao lado).

Ao eleger-se deputado, o ator pornô deveria saber que pelas leis aprovadas no Congresso Nacional ao qual pertencerá, é crime entregar armas às crianças. Está no Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 – a partir da redação dada pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003. Lá define como crime:

Art. 242. Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de qualquer forma, a criança ou adolescente arma, munição ou explosivo:

Pena – detenção de seis meses a dois anos, e multa.

Pena – reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos. (grifamos)

Nem vale alegar que se trata de arma de brinquedo pois também isto é proibido legalmente. Proibido pelo famoso Estatuto do Desarmamento que Bolsonaro e sua turma quer modificar. Mas que continua valendo antes dele conseguir fazê-lo. Logo deveria ser cumprido. Ali, no artigo 26, consta que “são vedadas a fabricação, a venda, a comercialização e a importação de brinquedos, réplicas e simulacros de armas de fogo, que com estas se possam confundir”.

Tudo isso, junto e misturado, demonstra que, mal começou o segundo turno das eleições e a barbárie já se instalou entre nós. Mais grave, diante do silêncio cúmplice das autoridades. Sem falar no silêncio (consentimento?) do candidato que quer governar o país, mas não consegue sequer deter os seus.

O alerta está aí, para quem quiser enxergar. A barbárie já se instalou. Conseguiremos detê-la?

Exemplos variados das agressões que ocorreram provocadas por simpatizantes e eleitores de Bolsonaro













Marcelo Auler

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