7 de out de 2018

2018, déjà-vu de 1989

Bolsonaro é um Collor mais raivoso. Haddad reencarna o trabalhismo. Salvo mudanças de última hora, este será o confronto

“Será um segundo turno altamente radicalizado. É preciso sangue-frio", projeta o petista Ricardo Berzoini
Um em cada quatro brasileiros aptos a votar agora em outubro nasceu de 1989 em diante, o ano em que o povo escolheu o presidente após mais de duas décadas de ditadura. Esses, vá lá, jovens poderão testemunhar o que talvez tenham ouvido em casa ou aprendido na escola sobre a histórica eleição do jingle Lula-lá.

Um duelo final movido, de um lado, pelo anticomunismo, fantasmas de que os valores morais, cristãos e da família estão ameaçados por gays e ateus, de que a propriedade corre riscos, com o reacionário Jair Bolsonaro a cumprir de modo ainda mais raivoso o papel de Fernando Collor há 29 anos.

Na outra trincheira, de novo o velho partido da estrela vermelha, com uma campanha com ares de luta de classes, pelos pobres e trabalhadores, disposto a revidar à altura os ataques bolsonaristas, acusá-lo de reencarnação da ditadura que tratava pobre a cassetete e rico a pão de ló.

Seu boxeador será Fernando Haddad, a contar, porém, com a onipresença do Sapo Barbudo de 1989, ainda que Lula esteja preso e silenciado pela toga. “Será um segundo turno altamente radicalizado. Vai exigir sangue-frio”, diz Ricardo Berzoini, integrante do QG petista.

Um segundo turno Bolsonaro vs. Haddad é o cenário apontado nas últimas pesquisas. Em um Ibope da véspera, o deputado tinha 36% e o ex-ministro, 22%. O Datafolha mediu o mesmo índice para os líderes. Em relação aos votos válidos, que excluem brancos e nulos, Bolsonaro varia entre 40% e 41%, ainda distante dos 50% necessários para vencer no primeiro turno. 

O terceiro colocado, Ciro Gomes, do PDT, registra entre 11% e 13%. Na quarta-feira 3, o pedetista fez um último lance para tentar romper a polarização, ao acenar em público a Geraldo Alckmin, do PSDB, e Marina Silva, da Rede, para que os três se unissem – com ele à frente, claro.

A dupla não topou, mas havia entre muitos eleitores inclinados a Haddad, sobretudo jovens, quem se perguntasse se não seria melhor optar por Ciro, dado que as pesquisas o indicavam como mais habilitado a vencer Bolsonaro (45% a 41% no Ibope, 47% a 43% no Datafolha) do que Haddad (41% a 45% no Ibope, 43% a 45% no Datafolha).

Embora remoto, há outro risco ao duelo final, o de uma vitória do deputado do PSL no primeiro turno, um objetivo de sua campanha, devido à rejeição recorde do candidato (de 43% a 44%, a depender do levantamento).

Após decolar nas pesquisas dias depois de substituir Lula como presidenciável do PT, Haddad viu a sua própria rejeição galopar nos derradeiros dias do primeiro turno. Para a campanha petista, havia duas explicações.

Uma foi a propaganda de Alckmin na tevê, a mais longa. Para tentar tirar votos de Bolsonaro, o tucano apostou na pregação de que o candidato da extrema-direita perderia para o petista no segundo turno, o que transmitiu ao eleitorado a ideia de que o PT era o mal maior.

A outra explicação foi uma ação aparentemente bolsonarista nos subterrâneos direcionada aos evangélicos. Haddad convocou uma entrevista na quarta-feira 3 para contar que seus aliados tinham identificado o envio de milhões de mensagens via WhatsApp com “acusações muito vulgares” contra ele e sua família.

As mensagens faziam alusão ao chamado kit gay, cartilha educacional de combate à homofobia que, entre os conservadores, é sinônimo de apologia da homossexualidade, uma polêmica surgida em 2011, quando Haddad ocupava o Ministério da Educação.

A campanha bolsonarista aposta todas as fichas na comunicação via internet. O deputado tem a maior tropa cibernética e seu eleitor é quem mais usa as redes sociais para se informar, conforme o Datafolha.

Uma operação facilitada porque, segundo uma recente pesquisa global do instituto Ipsos, o brasileiro é, no planeta, o que mais acredita em fake news, anglicismo para definir a velha mentira. A propósito, em um segundo turno, os dois candidatos terão o mesmo tempo de propaganda na tevê e no rádio.

Entre os evangélicos, Bolsonaro tinha 40% contra 15% de Haddad no primeiro turno e 50% a 35% no segundo, conforme o Datafolha, enquanto entre católicos havia certo equilíbrio, 29% a 25% para o deputado do PSL no duelo inicial e 44% a 39% para Haddad, no final.

As principais lideranças evangélicas estão com o deputado. No sábado 29, o “bispo” Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus e da TV Record, declarou seu apoio. Dias antes, tinha sido o “bispo” Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra e presidente da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil. Para Rodovalho, Bolsonaro é “o único que empunhou a bandeira da vida, da família, da igreja, da livre economia, da escola sem partido e contra a ideologia de gênero”.

O líder da bancada evangélica no Congresso, o deputado Hidekazi Takayama, do PSC do Paraná, bolsonarizou com o argumento de que esquerda é sinônimo de ateísmo.

Devido a “valores morais”, é possível que as manifestações #EleNao de 29 de setembro, lideradas por feministas, tenha produzido efeito reverso. Na véspera, Bolsonaro atingia 27% no Ibope e 28% no Datafolha. A rejeição ao petista ia de 27% a 32%. Imediatamente após os atos, o capitão reformado subiu para 32% e a rejeição a Haddad, a 40%.

Aquilo que para a, digamos, parcela civilizada do País foi o máximo, o Brasil profundo viu de modo contrário.

Ainda na cama de hospital, Bolsonaro comentara na Band que o #EleNão do dia seguinte era uma tentativa de artistas de cooptar as “mulheres e mães conservadoras” do Brasil.

No domingo 30, um de seus filhos, Eduardo, disse em São Paulo, em um ato pró-pai, que as mulheres de direita são mais bonitas que as da esquerda. "Elas não mostram os peitos nas ruas e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene.” Um absurdo para a parcela civilizada, música para certos ouvidos.

Em março, o arquiteto da vitória de Donald Trump, Steve Bannon, foi a um encontro da extrema-direita francesa e recomendou: “Deixem que nos chamem de racistas e xenófobos, encarem isso como uma medalha. A cada dia ficaremos mais fortes e eles, mais fracos”.

Para alguns pensadores norte-americanos, Trump triunfou graças a questões comportamentais e identitárias marcantes na campanha de Hillary Clinton.

Mark Lilla, cientista político da Universidade Colúmbia que estará em novembro no Brasil paea palestras em São Paulo e Porto Alegre, escreveu um artigo dias depois da eleição dos EUA, em novembro de 2016, no qual teoriza que Hillary não atingiu o coração de eleitores suficientes, pois preferia se dirigir a grupos específicos, como mulheres, latinos, negros e gays.

Celebrar a diversidade, escreveu Lilla, “é um princípio esplêndido da pedagogia moral -  mas desastroso como base para a política democrática em nossa era ideológica”. Alcançar mais eleitores exigiria dar mais importância às condições econômicas de vida, à classe social.

Talvez por isso o senador Bernie Sanders, autodeclarado socialista, tivesse mais chances do que Hillary, segundo pesquisas, de bater Trump naquela eleição.

Diante do novo cenário na eleição brasileira, o QG petista reuniu-se na terça-feira 2, em São Paulo, e decidiu antecipar para a última semana de campanha a disputa que havia reservado para a última etapa. Em resumo, priorizar a via econômica, a luta de classes.

Naquele dia, Haddad foi ao Rio de Janeiro e discursou: “Eu sou trabalhista, eu acho que o trabalhismo deu muito certo no Brasil. O fascismo não vai dar”. Um dia depois, em São Paulo, repetiu a dose: “Nós somos um partido com 2 milhões de filiados e queremos honrar a tradição trabalhista que no meu entendimento é o que vai tirar o País da crise. Apoiar o trabalhador, aumentar o poder de compra do salário, ampliar os empregos, é isso o que vai tirar o País da crise”.

A primeira reforma prometida pelo petista, se eleito, é a tributária. “Os muito ricos no Brasil não pagam impostos, quem paga imposto é pobre. Os pobres precisam pagar menos para voltar ao mercado de consumo e reativar a economia. E compensar isso com os muito ricos pagando um pouco, que hoje eles não pagam nada.”

A intenção é acabar com a isenção de Imposto de Renda nos lucros e dividendos recebidos por acionistas de empresas. Essa mamata existe aqui, na Estônia e só, obra de Fernando Henrique Cardoso em seu primeiro ano no poder, 1995.

O Brasil tem 28 milhões de contribuintes, dos quais cerca de 70 mil recebem lucros sem pagar IR como cidadãos, segundo dados da Receita Federal. Um pessoal que embolsa 100 mil, 200 mil, 300 mil reais mensais. Nas contas do PT, a taxação dos dividendos poderia gerar 80 bilhões de reais por ano, suficiente para investir em obras e em projetos sociais.
De quebra, haveria espaço para reduzir o imposto de assalariados que ganham até uns 5 mil reais, isenção que hoje equivale a 1,9 mil reais. Com mais dinheiro no bolso, esses trabalhadores teriam uma folga para consumir e estimular a retomada do crescimento.

A proposta soma-se às promessas de retomada da geração de empregos no ritmo do lulismo que deu certo, até o fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff, cerca de 20 milhões de vagas. Hoje, o País tem 12,7 milhões de desocupados, 1,3 milhão a mais do que quando Michel Temer assumiu.

Além disso, 4,8 milhões desistiram de buscar vaga por considerar inútil a tentativa, 1,8 milhão a mais do que na época do afastamento de Dilma.

“Se a gente acha ruim o governo Temer, não pode imaginar o que é o Paulo Guedes no comando da economia do País. É um cara que não tem limites para cortar direitos da população, do trabalhador, da mulher, não tem limites”, disse Haddad a uma plateia de metalúrgicos da Força Sindical em Curitiba. “É um neoliberal de um radicalismo que chega às raias da crueldade.”

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O petista empunha a bandeira da lutade classes. O ex-capitão e Guedes, o “PostoIpiranga”, encarnam o ultraliberalismo

Guedes é o guru econômico de Bolsonaro, apontado como futuro superministro da Economia em um governo do capitão reformado. Um Chicago Boy cujas ideias fazem com que todas as principais centrais sindicais tenham se unido contra o deputado do PSL no fim de setembro.

“O horizonte que ele (Bolsonaro) nos apresenta é de um país marcado pela exploração do trabalhador, pela violência, pelo racismo, pela discriminação, pela repressão, pela dilapidação do patrimônio nacional, pelo desrespeito aos direitos humanos e pelo desrespeito aos direitos democráticos, garantidos na Constituição, e ameaça de retorno da ditadura militar”, descreve uma nota conjunta das centrais.

Autor de um livro sobre corrupção no regime dos generais (1964-1985), Estranhas Catedrais, o historiador Pedro Henrique Campos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, diz que a “tática do ‘Posto Ipiranga’ do candidato Bolsonaro, de afirmar que não entende nada de economia” e de delegar tudo na área a Guedes “muito se assemelha de certa forma ao exercício de poder na ditadura”.

Naquela época, os generais também delegaram o comando da economia a civis afinados com o capital, enquanto eles próprios, os fardados, estabeleciam relações promíscuas com multinacionais estrangeiras, uma das principais razões para a corrupção daquele tempo.

Às vésperas do golpe de 1964, ou melhor “do movimento de 1964”, nas vergonhosas palavras do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, o 1% mais rico do Brasil mordia de 17% e 19% do PIB. Aí vieram os generais e o naco subiu a 26% em 1971, segundo um estudo de 2015, “A Desigualdade Vista do Topo: A Concentração de Renda Entre os Ricos no Brasil, 1926-2013”, de Pedro Herculano Guimarães Ferreira de Souza, pesquisador do Ipea.

A explicação foi a política econômica daquele tempo: redução de impostos dos ricos, arrocho salarial nos trabalhadores.

É um modelo parecido com aquele defendido por Paulo Guedes e pelo vice de Bolsonaro, o general da reserva Antonio Hamilton Mourão. O reservista diz e repete que o 13º é um problema, “uma mochila nas costas de todo empresário”, apesar de o candidato ter implorado por seu silêncio, pois “ele não tem malícia”, conforme Bolsonaro disse à Band em 28 de setembro.

Guedes é outro que sumiu de cena por ordem do chefe. Não se dizem certas verdades em uma campanha. Até o pito, o economista adiantara várias de suas pretensões, basicamente “propor coisas duras”, como afirmou em 23 de agosto à GloboNews. Para ele, a reforma trabalhista de Temer foi pouco profunda, é preciso cortar encargos, ou seja, direitos. É o objetivo da carteira de trabalho verde-amarela, parte do plano de governo de Bolsonaro.

Em uma conversa reservada com alguns milionários em setembro, Guedes adiantou que quer unificar as alíquotas do IR em uma só, de 20%, segundo a Folha, o que é o oposto da proposta de Haddad, pois aliviaria os mais ricos e puniria a base da pirâmide.

Diante dos planos bolsonaristas, a maioria dos empresários está com ele, e de forma ativa, a satanizar o PT. Em um recente manifesto pró-Bolsonaro, a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, que diz reunir cerca de 2 milhões de patrões, afirmou: “Não podemos permitir que o Brasil dê um passo para trás e que condenados pela Justiça e envolvidos com comprovados esquemas de corrupção voltem a governar o nosso País”.

O texto é assinado pelo presidente da entidade, George Teixeira Pinheiro, empresário do setor hoteleiro no Acre, aquele estado onde Bolsonaro prometeu “fuzilar a petralhada”, enquanto simulava, com um tripé de câmera, ter uma metralhadora nas mãos.

Pinheiro é, ou ao menos foi, um entusiasta de Temer, com quem confraternizou alegremente em um evento no Palácio do Planalto nos primeiros dias do emedebista no poder, após o impeachment.

Em Santa Catarina, dois empresários divulgaram sermões bolsonaristas e anti-esquerda dirigidos aos funcionários. Um foi Denisson Moura de Freitas, dono da fabricante de ar-condicionado Kameco, fornecedora de equipamentos na Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro.

Em um áudio gravado e transmitido via celular, Freitas pediu aos empregados que usassem camisetas e adesivos pró-Bolsonaro durante uma semana de trabalho, a “semana Bolsonaro”. O PT recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral contra o deputado do PSL, com a alegação de abuso de poder econômico. Neste ano, está proibida a doação empresarial de campanha, e a colaboração da Kameco seria doação disfarçada.

O outro catarinense bolsonarista é Luciano Hang, dono da loja de departamentos Havan. Em um vídeo a seus 15 mil empregados, quando faltavam seis dias para a eleição, Hang apontou uma disputa do “bem contra o mal”, sendo este último representado pelo PT e o comunismo. Se o PT ganhar, disse, “talvez a Havan não vá abrir mais lojas, e aí se eu não abrir mais lojas, ou se nós voltarmos para trás, você está preparado para sair da Havan? Você está preparado para ganhar a conta da Havan?”

O Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina recebeu mais de 20 queixas, entre elas relatos de que o empresário reuniu fisicamente parte dos empregados, obrigou-os a cantar o Hino Nacional e ouvir uma catequização política por meia hora.

Os procuradores acionaram Hang na Justiça por tentativa de intimidação dos funcionários. Pediram a fixação de informes em todas as lojas da retirada em defesa da liberdade de votos dos cidadãos e pesadas multas em caso de reincidência do empresário. O juiz do Trabalho Carlos Alberto Pereira de Castro concordou. “Voto de cabresto”, afirma o magistrado no despacho.

No Paraná, o dono da maior rede de supermercados local, a Condor, agiu de forma bem parecida no mesmo dia 1º. Mas por escrito. Em mensagem aos cerca de 11 mil funcionários, Pedro Joanir Zonta pediu que não votassem na esquerda, para evitar “o fim da família”, o “agravamento da crise econômica” e a “transformação do Brasil em uma Venezuela”.

Também teve de se haver com o Ministério Público, que ficou particularmente preocupado com o trecho da mensagem com uma ameaça dissimulada de não pagar o 13º e as férias. Zonta aceitou um acordo, sob pena de uma multa de 100 mil reais por dia.

A fúria patronal antipetista deixou desacorçoado um empresário, Ricardo Semler, que na Fiesp foi vice-presidente de Mario Amato, aquele que na eleição de 1989 dizia que 800 mil empresários fugiriam do Brasil se Lula ganhasse. Bolsonaro diz coisa idêntica agora: “Se o PT ganhar a eleição, os empresários vão rever seus planos estratégicos e muitos vão deixar o Brasil”, afirmou em 28 de setembro, na Band.

“Este é um País que precisa de governo para quem tem pouco, a quase totalidade dos cidadãos. Nós, da elite, aliás, sabemos nos defender”, escreveu Semler. Vivemos “atrás de muros, cercados de arames farpados e vidros blindados”, não sabemos “o que é comprar na C&A e ser seguido por um segurança para ver se estamos para roubar, por sermos de outra cor de pele”.

E mais: “As elites deste País sempre foram atrasadas, desde antes da ditadura, e nada fizeram de estrutural para evitar o sistema de castas que se instalou”.

No setor rural, campeão de atraso, o bolsonarismo é uma festa. No dito “mercado”, também. Segundo um analista de São Paulo que trabalha para investidores estrangeiros, a visão no setor é que contra o PT vale tudo.

E Bolsonaro tem seu um guru banqueiro ultraliberal, Paulo Guedes, o homem com planos de privatizar todas as estatais, inclusive a Petrobras e o Banco do Brasil, de manter Ilan Goldfajn, do Itaú, no comando do Banco Central, de contar com certos quadros do atual Ministério da Fazenda, como o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida.

Há, porém, movimentos curiosos no “mercado”. Em setembro, a revista britânica The Economist, bíblia das finanças, estampou Bolsonaro na capa e assim o definiu: “A última ameaça latino-americana”. E repetiu a dose na terça-feira 2, com um vídeo na web.

Um dia antes, a S&P, uma dessas agências internacionais que dão nota aos países pelo bom mocismo perante o rentismo, deu sua alfinetada. “O candidato do PT não é um outsider, mas Bolsonaro é, o que aumenta o risco de incoerência ou de atrasos em ter as coisas feitas depois das eleições”, disse em um seminário Joydeep Mukherji, um dos analistas da S&P.

Outro analista político de uma corretora de valores paulista esteve no Rio de Janeiro nos últimos dias e conta ter sentido certo interesse de seus clientes em relação a Haddad e o PT. “Eles não vão fazer maluquice, né?”, foi uma das perguntas. Segundo esse analista, há certa boa vontade em um  investidor aqui, outro ali, gente disposta a ver Haddad como um moderado.

O petista fez um ou outro gesto na direção do “mercado”. Tomou café da manhã, por exemplo, com o economista-chefe de uma corretora paulista, André Perfeito, da Spinelli. É amigo do neoliberal Marcos Lisboa, visto às vezes como um possível nome para a Fazenda. Lisboa, consta, anda aborrecido com o amigo, por não receber um telefonema com pedidos de conselhos.

Haddad, conforme relatos, não vai anunciar nenhum nome para a Fazenda na eleição. E tem andado no fio da navalha: o PT não aceita tomar a iniciativa de gestos favoráveis ao “mercado” nem mexer no plano de governo registrado no TSE.

O ar de luta de classes na eleição será acentuado no provável duelo final entre PT e Bolsonaro, mas esa luta já é uma realidade nas pesquisas. Em uma simulação de segundo turno no Ibope, Haddad vence o rival por 53% a 28% entre quem ganha até um salário mínimo e perde por 39% a 29% entre que embolsam acima de cinco.

Na escolaridade, dá 49% a 29% para o petista entre os que cursaram no máximo o ensino fundamental e 52% a 32% para Bolsonaro entre quem faz ou tem faculdade. Entre negros, 46% a 36% para Haddad. Entre brancos, 51% a 33% para o deputado. No Nordeste, 58% a 27% para o primeiro, no Sul, 51% a 31% para Bolsonaro.

Surpreende, portanto, que o juiz branco sulista diplomado Sergio Moro, contracheque de 34,5 mil reais em setembro, tenha liberado, na última semana da eleição, uma parte da delação de Antonio Palocci fulminante para o PT, apesar de o material não ter serventia judicial alguma neste momento e de a força-tarefa da Operação Lava Jato ter rejeitado um acordo com Palocci por falta de provas?

O retorno do denuncismo em meio à campanha é mais uma arma de um confronto que radicaliza a polarização experimentada pelo Brasil na última década e meia.

André Barrocal
No CartaCapital

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