19 de set de 2018

Quem lhe criou, general?


Em artigo anterior, perguntei ao general Mourão da onde ele herdou seu racismo. Foi uma reação às declarações do candidato à vice-presidente sobre o povo brasileiro, quando ele afirmou que teríamos herdado a “malandragem” do africano e a “indolência” do índio.

Pouco mais de um mês após aquelas declarações, ressurge o general, agora encabeçando as atividades da campanha enquanto o titular da chapa convalesce do grave ferimento sofrido no atentado de alguns dias atrás.

Durante debate no SECOVI-SP (Sindicato do Mercado Imobiliário) nesta segunda-feira, dia 17 de setembro, o general soltou a seguinte declaração: “A partir do momento em que a família é dissociada, surgem os problemas sociais. Atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai e avô, é mãe e avó. E, por isso, tornam-se realmente uma fábrica de elementos desajustados que tendem a ingressar nessas narco-quadrilhas”[1].

Pois bem, não sei como o general foi criado. Desconheço, por completo, se teve a figura paterna presente. Se sua mãe e avós estiveram sempre ao seu lado. Qual o tipo de educação que recebeu, ou o tanto de amor que lhe foi direcionado. Não sei absolutamente nada sobre ele, e por isso a pergunta que dá nome ao presente texto: quem te criou, general?

E pergunto mais: como suas declarações serão recebidas por aquela mulher valente, endurecida pela vida, que teve seus dois filhos com um homem violento e covarde, a qual logo se viu abandonada por ele, com tantas bocas para alimentar? Ela, sozinha, trabalhando como diarista em várias casas durante a semana. Ajudando a criar os filhos de patrões e patroas, mas longe de seus próprios. Meninos e meninas, vítimas do aborto paterno, e vistos como potenciais “desajustados” por alguém que almeja um dos mais altos cargos da República. O que ela pensará de suas declarações?

Em quase dez anos de carreira na Defensoria Pública, por milhares de vezes me deparei com mães desesperadas e angustiadas. Mulheres corajosas, e quase sempre sozinhas. Vagando de porta em porta pelo aparato burocrático estatal à caça de algum direito básico que o Poder Público (aquele que só funciona para encarcerar ou matar seus filhos) cruelmente negara a suas crianças.

Certa vez visitei um projeto capitaneado por um médico que, voluntariamente, atendia crianças com paralisia cerebral, ministrando-lhes alimentação e medicação adequadas, com o fim de amenizar os sintomas das mais variadas deficiências que apresentavam. Duas coisas me impressionaram: 1) o fato de a quase a totalidade das crianças estar acompanhada apenas pelas mães; 2) a esperança e a vivacidade daquelas mulheres, a despeito de todas as adversidades. Descobri que a maioria delas não podia trabalhar por se dedicar integralmente ao cuidado dos filhos. E, por isso, vivem unicamente do benefício assistencial de um salário mínimo por eles recebido. Os pais? Alguns ainda viviam com elas, outros não. Muitos tinham simplesmente desaparecido.

Mulheres sozinhas, franzinas, com o rosto marcado pelo sofrimento, empurrando pesadas camas com filhos adolescentes, ou cadeiras de rodas já inapropriadas para o tamanho das crianças. Mas altivas e esperançosas. Sorridentes. A força encarnada na forma de mulher, capaz de me fazer sentir vergonha de meus medos, dúvidas, e de minha própria existência. O que essas mulheres pensarão de sua declaração, general?

Também vi muitos meninos que se desviaram. Jovens que acabaram caindo nas garras do Estado Penal logo cedo, geralmente por tráfico de drogas. Perdi as contas do número de mães que atendi, desesperadas. Lacrimejando diante da mesa, buscando algum auxílio para seus filhos. Solitárias em grande parte dos casos, lamentando o fato de não terem conseguido dar maior atenção à família. Afinal, precisavam trabalhar em dois ou três empregos para manter a casa e sustentar as crianças, que desde cedo tinham dificuldades para chegar à escola, distante do bairro, e que mais tarde não teriam qualquer vontade de estudar no colégio de instalações precárias, com professores desmotivados.

E quantas vezes não senti arrepios ao ouvir atores do Sistema de Justiça dando lições de moral em mães humildes, cujos filhos se encontravam acolhidos institucionalmente, internados ou presos? Mulheres cujos parcos ganhos mensais não chegavam a 2 ou 3% da renda daqueles que estavam a lhes julgar junto com seus filhos.

Onde está o desajuste, general? Nessas famílias destroçadas pela negação dos mais básicos direitos fundamentais? Nessas mães solitárias e corajosas, desdobrando-se para garantir a sobrevivência de suas famílias? Nesses meninos e meninas expostos a toda sorte de infortúnios e abusos?

Não, general. Desajustada é essa sociedade doentia que alimenta o ódio e discrimina. Desajustado é o Estado que não cumpre a sua parte na implementação de direitos sociais básicos (habitação, saúde, educação, etc..), sendo contumaz violador da lei e da Constituição, mas que, hipocritamente, usa todo o poderio da violência oficial (os “profissionais da violência”, como alguém já disse, certo?) para oprimir nossos jovens por violações à… lei penal!

Deixo este pequeno texto como desagravo às mães e avós que, sozinhas, enfrentam o mundo por seus filhos e netos, à mercê do preconceito, da violência e da intolerância. Mulheres corajosas, muito mais fortes do que eu e você, general.

E antes que eu me esqueça: ele não. Ele nunca.

Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado de São Paulo.
No Justificando

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