30 de set de 2018

Por que #Elenão?


Quando a Alemanha foi derrotada, em 1945, após uma guerra de extermínio bestial que deslanchou contra seus vizinhos, a maioria da população alemã pretendeu não ter nada a ver com isso. Envergonhada, escondeu-se no silêncio por mais de duas décadas. Precisou de os filhos dos partícipes darem o basta à hipocrisia e exigirem esclarecimento sobre o que ocorreu, para as instituições se depurarem do mofo do passado fascista e se renovarem democraticamente. Fazer a passagem da assunção da verdade e da promoção da autocrítica foi um pressuposto civilizatório para a Alemanha se restabelecer altiva e livre no seio das nações.

O Brasil não passou por uma guerra das proporções daquela que arrasou a Europa e cobrou seu tributo com a vida de dezenas de milhões de inocentes. Mas passa por um conflito secular não menos brutal, entre os que se autoproclamam donos do poder e os excluídos de todas conquistas econômicas e sociais resultantes de seu trabalho suado e não reconhecido. Também essa injustiça tem nos apresentado uma alta conta. Somos um país atrasado pela educação de baixíssima qualidade, pelo estado mórbido crônico de sua população sujeita a um sistema de saúde pública em frangalhos, pelo déficit habitacional que impõe substancial parte de brasileiras e brasileiros viverem em barracos sujos, sem saneamento e rodeados de violência criminosa.

O pior de tudo isso que ocorre no Brasil é a incapacidade de nossos autoproclamados donos do poder de exercer um mínimo de autocrítica. São autossuficientes, arrogantes e se creem generosos e bondosos. Veem como virtude o que não passa de obrigação. Restituir a liberdade aos escravos no século XIX, por exemplo: ainda que tenha o Brasil sido o último país do chamado mundo ocidental a abandonar tal vergonhosa prática, a elite brasileira acha que foi muito virtuosa na promulgação da lei áurea. Foi nada. Despejou milhões de afrodescendentes na mais profunda miséria e nunca cogitou de lhe pedir perdão pelos séculos de tratamento cruel e muito menos de indenizar sua diáspora forçada, seu trabalho e seu sofrimento. Até hoje, nossos habitantes da redoma escandinaviforme de bem-estar social olham para afrodescendentes com desdém, naturalizando, banalizando seu estado de despossuimento crônico. Alguns ainda abraçam cínicas explicações espíritas, a qualificarem o destino desgraçado desses pobres como resultado da evolução espiritual... e se acham ainda muito gente boa por isso.

Dá asco o descompromisso com a miséria alheia. Dá vergonha de ser brasileiro e ver uma senhora com sua filha clamando por ajuda na porta do supermercado, pedindo apenas um saco de feijão, e ser vista pela maioria dos transeuntes como estorvo, indiferentes com a injustiça estampada em sua frente. Temos um déficit enorme de empatia, o que chega a ser doentio, psicótico. E, quando damos alguma esmola, o fazemos no mais das vezes para cultivar virtudes inexistentes, para nos assegurarmos de nossa autoimagem de bonomia, proclamada narcisisticamente aos quatro ventos das redes sociais.

Mas, índios são preguiçosos, quilombolas gordos e incapazes de procriar de tão indolentes, negros são violentos e abusados, homoafetivos são desnaturados e mulheres que lutam por seus direitos não passam de histéricas que não conhecem o seu lugar. – Esse é o senso comum, assumido por muitos e enrustido por outros, sobre o lugar do próximo em nossa sociedade. Somos uns trogloditas muito distantes do estágio civilizatório mínimo da contemporaneidade. O preconceito aqui viceja numa estupidez prepotente não encontrada alhures.

O ódio político disseminado contra a esquerda partidária, em especial contra o Partido dos Trabalhadores e suas lideranças, por intensa campanha de desacreditamento da solidariedade social, se espalhou nesse ambiente como uma epidemia. O alvo da ira ousara, quando no governo, colocar em cheque essa soberba autoimagem de brandura e magnanimidade de brasileiras e brasileiros afortunados. Tirou-os de seu delírio para obrigá-los a ver a realidade e a arregaçar as mangas para transformá-la ou ser expulsa de seu berço esplêndido. Treze anos de governo petista sacudiram os fundamentos dessa maya elitista.

A resposta não tardou de vir na forma de militância política da bronca. Bolsonaro e sua direita fascista, pseudomoralista são o chorume dos dejetos da discriminação social, do desprezo da miséria alheia e da recusa de empatia. Usam sentimento falso de brasilidade nacionalista para criar um estado de espírito de agnação entre idiotas autossuficientes e um sentimento coletivo de potência a desarmar os mecanismos de autocontrole e de autocontenção de instintos mais violentos. Propagam fobias, ilusões e mentiras em redes sociais e pelo discurso da propaganda política. Vivem num mundo artificial de conspirações contra si, estimulando a paranoia coletiva. E tudo isso para deixar o Brasil podre do jeito que gostam.

É nesse momento que se encontra o Brasil, numa encruzilhada entre a retomada do caminho da autocrítica e da superação histórica e a rota da estagnação viciada na sociedade escravocrata que ainda não deixamos de ser. De um lado, Lula, o preso, refém do deterioração institucional, do golpe raivoso contra o progresso social; de outro, Bolsonaro e seu exército de zumbis desmiolados a serviço do atraso, crias involuntárias, filhos ilegítimos desse golpismo de nossa elite, que não respeita voto e nem soberania popular.

A deterioração institucional que mantém Lula encarcerado corresponde à profunda contaminação de carreiras de estado pelo corporativismo e o sequestro da soberania popular pela burocracia sem voto. “Yes, we can” parece ser o grito de guerra de agentes de estado mobilizados pela mídia oligopolizada e tomados por um populismo fascista. Expressão disso é a ousadia indiferente de juízes, membros do ministério público e funcionários da polícia no seu confronto com a lei. Em nome de um tal “combate à corrupção”, que há muito já se converteu num combate à política, tudo é permitido, até desacatar ordens de instâncias superiores que, na avaliação pessoal desse ou daquele agente, não se acha conforme com os fins do combate. O episódio que levou ao arranca-rabo entre o Sérgio Moro de sempre e o desembargador Favreto oferece um bom exemplo disso.

Depois que destituíram a presidenta da república eleita através de um procedimento parlamentar fraudulento de impedimento não há mais limites para a ousadia. O judiciário em peso aderiu à iniciativa, não só cruzando o braço na tarefa de garantir os estado democrático de direito, mas ativamente admoestando o grupo político em torno da destituída, mormente o PT, para que, com reputação abalada, nunca mais tivesse uma chance de governar. A prisão de Lula foi a cerejinha desse bolo golpista. E tudo que permitisse Lula reaparecer tem sido furiosamente bloqueado, a começar por sua candidatura. Dane-se a legislação eleitoral, danem-se os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil na defesa dos direitos humanos e particularmente do devido processo legal. A palavra de moderação dos órgãos de monitoramento de tratados de direitos humanos não valem nada.

Na outra ponta, os golpistas, dentro e fora do judiciário, assustam-se e fazem carinha de nojo para o bolsonarismo. Criaram-no ao tentarem destruir a imagem do governo democrático inclusivo liderado pelo PT. Estimularam o ódio e o desrespeito ao resultado de eleições. E agora veem o incêndio que provocaram atingir os telhados de suas casas de conforto e abundância. Burgueses e seus asseclas na burocracia não gostam de se identificar com esses brucutus que expressam sem pejo seus preconceitos misóginos, homofóbicos e racistas. Não que eles não sejam tudo isso, mas o estilo da Casa Grande é mais hipócrita. É assim que sobreviveu por mais de quinhentos anos neste Brasil atrasado. Adoram se exibir de um lado liberal nos costumes, pelo glamour desse falso liberalismo que não adentra a essência de uma sociedade dividida entre os que tudo têm e os que nada merecem. A aparência de liberal, gentil e tolerante é seu principal ardil para enganar trouxas explorados que se orgulham desse país “cristão e livre, graças a Deus”.

Mas os trouxas resolveram exagerar na dose e achar que cultivar abertamente o preconceito faz parte da gramática do Brasil cristão e livre. Que negros, feministas, homoafetivos, índios e esquerdistas vão para o inferno! A liberdade, para esses imbecis, é poder ser politicamente incorreto e rir de quem se choca com sua incorreção. A cretinice solta nas redes sociais parece confirmar as suposições desses beócios. Sentem-se livres para se comportarem feito nazistas.

Parte da elite teme que sua cara de bom-moço sofra trincas irreparáveis com a ação do exército desses fascistas idiotas. Afinal, sua aceitação nos salões financeiros internacionais sempre foi suportada por um certo flair de gente boa que brasileiros disseminaram mundo afora. Mas é tarde. Nem Henrique Meirelles e nem Geraldo Alckmin, os representantes dessa elite, conseguem alçar voos mais altos nesta eleição. Cederam seu lugar para a cria de seu ódio de classe.

O cenário é muito parecido com o da Alemanha de Weimar no início da década de trinta. A burguesia não gostava dos nazistas baixo-nível em torno de Adolf Hitler e sua SA barulhenta, mas não tinha mais gás para enfrentar a massa de descontentes com sua política de negação de direitos e de socialização da miséria: ou era Hitler, ou era a esquerda política. E, por mais nojo que tinha dos nazistas, acabou embarcando na aventura de lhes entregar o governo, achando que os colocaria nos trilhos da institucionalidade, por bem ou por mal. Ledo engano. Os nazistas os atropelaram e levaram a Alemanha e o mundo para a maior tragédia da modernidade com sua doutrina de ódio e de intolerância.

A encruzilhada está aí. Ainda é tempo para pensar. Que nossa elitezinha hipócrita não caia na mesma esparrela. Está na hora da autocrítica e é melhor fazê-la antes que a tragédia nos engula a todos. Por isso, #Elenão.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça

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