24 de set de 2018

Plano das elites brasileiras de destruir o PT fracassou

Foto: Francisco Proner Ramos
O plano era o seguinte: negar a legitimidade da vitória eleitoral de Dilma Rousseff em 2014. Impulsionar o impeachment por uma acusação forjada (contabilidade criativa para disfarçar um déficit orçamentário). Organizar protestos em massa contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e apoiar os promotores da operação de combate à corrupção Lava Jato, que pretendiam processar Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente popular do Brasil e antigo líder petista, por corrupção e lavagem de dinheiro. Incentiva os grandes meios de comunicação, animados pela poderosa rede Globo, a identificar o PT como a causa básica da corrupção institucional no Brasil. Conseguir apoio internacional à medida que os prêmios se acumulavam sobre os líderes da Lava Jato, com formação em Harvard, e como The Economist resumiu no título: "Dilma, hora de ir".

Então, uma vez que Rousseff foi removida, implementar um plano de choque neoliberal - eufemisticamente rotulado pelo novo presidente Michel Temer como a "ponte para o futuro" - com privatizações aceleradas, liquidação de ativos brasileiros para investidores internacionais, austeridade draconiana e desregulamentação do mercado de trabalho. Os mercados responderiam e a confiança voltaria. Uma recuperação econômica liderada pelo setor privado lançaria as bases para uma bem-sucedida campanha presidencial do Partido Social-Democrata Brasileiro (PSDB), de centro-direita, apoiado por todos os analistas sensatos de São Paulo, Wall Street e Washington. Lula, sempre uma ameaça devido àquele maldito carisma, seria levado para a prisão. Um governo do PSDB, liderado pelo governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, colocaria o Brasil de volta no caminho neoliberal na medida em que a maré rosa da América Latina da década anterior recuasse. Em 2014, isso soou como um plano.

Na semana passada, quando um novo conjunto de pesquisas de opinião apontava para um segundo turno entre o direitista Jair Bolsonaro e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, candidato do presumido-falecido PT, o plano estava definitivamente em frangalhos. (O primeiro turno das eleições será realizado em 7 de outubro; se nenhum candidato receber mais de 50%, um segundo turno está marcado para 28 de outubro. Os eleitores elegerão não apenas um novo presidente e vice-presidente, mas também governadores e legisladores.) Alckmin está comendo poeira nas pesquisas. Ele está pelo menos 10 pontos atrás de de Bolsonaro e, em um eleitorado que ainda se divide entre direita e esquerda, é altamente improvável que ambos possam progredir para o segundo turno. O senador do PSDB Tasso Jereissati anunciou publicamente em 12 de setembro: “Cometemos alguns erros monumentais: não aceitar o resultado das eleições de 2014 foi um deles (sempre fomos um partido que defende instituições e respeita a democracia); apoiar o impeachment [de Dilma] foi outro e entrar no governo de Temer, um terceiro”.

Uma rápida pesquisa sobre o panorama da campanha eleitoral a menos de três semanas antes do primeiro turno mostra quão fidedigna pode ser a admissão de culpa de Jereissati. A estratégia das elites tornou-se um tiro pela culatra. O apoio a Lula cresceu de 15% para 40% desde 2016 e parece ter sido impulsionado por seus cinco meses de prisão. A taxa de rejeição do juiz Sérgio Moro, um super-herói no retrato da mídia, é agora maior do que a de Lula, o homem que ele colocou na prisão. O impeachment de Dilma agora é considerado retrospectivamente por uma grande parte do eleitorado como um golpe de Estado. O golpe  também impulsionou a ascensão de Bolsonaro, iniciada por grandes comícios de direita, coreografados pela mídia da Globo e pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), cujo gigante pato inflável liderou as marchas na Avenida Paulista.

No que diz respeito ao apoio internacional, Lula acumulou muitos recentemente, ajudado por seu editorial no The New York Times e um apelo do Comitê de Direitos Humanos da ONU para que ele possa concorrer como candidato. O plano de direita para a recuperação econômica está morto. Enquanto os mercados receberam bem o fim de Dilma, a lua de mel foi seguida por estagnação, com o desemprego agora em níveis recordes e a pobreza em alta novamente. O PIB caiu 7% entre 2014 e 2017 e a renda familiar média em 14%.

O investimento privado não se recuperou, como previa o plano das eleites, e foi na verdade atingido pelo colapso do investimento público. Os gastos do consumidor despencaram, à medida em que a frágil nova classe média que surgiu durante a presidência de Lula encara a pobreza mais uma vez. A austeridade - previsivelmente, dada a experiência da Europa - simplesmente consolidou a recessão, ao mesmo tempo em que reverte o progresso do Brasil no combate à pobreza. A mortalidade infantil aumentou 5% em 2016, e o Brasil fica atrás da Venezuela no cumprimento das metas de desenvolvimento humano.

O ministro da Fazenda de Temer, Henrique Meirelles, mostrou-se audacioso o suficiente para decidir concorrer às eleições, mas tem uma taxa de apoio de apenas 3%. Seus anúncios eleitorais mudaram recentemente, ressaltando sua posição de presidente do Banco Central durante o governo Lula de 2005. É até cômico assistir. “O que aconteceu é que grande parte do eleitorado achava que o PT era o partido culpado pela recessão. A popularidade de Lula atingiu o ponto mais baixo no auge da recessão, mas na medida em que a economia estagnou, as pessoas estão lembrando os anos de bonança com Lula e seu apoio cresceu ”, diz Josué Medeiros, cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A estratégia de Lula-Gramci encarcerado, coordenando de sua cela a tarefa aparentemente impossível de reconstruir o apoio ao PT, contrasta com o plano das elites, gestado em salas de diretoria e restaurantes de luxo. Como Lula previu, a transferência de votos para Haddad agora parece bem encaminhada. Na última pesquisa do Ibope, o apoio de Haddad mais do que dobrou em menos de uma semana, para 19%, atrás apenas dos 28% de Bolsonaro. Em uma carta lida em voz alta na vigília do lado de fora da prisão de Curitiba, onde Lula está sendo realizada, o líder histórico da esquerda brasileira declarou: "Lula agora é Haddad".

“Eu considerava Lula um gênio político; depois do que ele fez na prisão, acho que ele é um mago ”, disse Aldo Zaiden, psicólogo de São Paulo.

Em um segundo turno com Bolsonaro, Haddad, ex-ministro da Educação de Lula, seria o favorito, já que a taxa de rejeição de Bolsonaro é enorme (mais de 40%). Mas no Brasil, isso significaria a perspectiva, horripilante à direita, de outro governo do PT apenas três anos depois que os bancos e líderes empresariais alertaram ameaçadoramente sobre um "caminho bolivariano" no Brasil. Apenas outro candidato, Ciro Gomes, parece ter alguma chance de derrotar Haddad e, assim, ir com Bolsonaro no segundo turno. Mas Gomes pode oferecer pouco conforto às elites. Ele é um nacionalista de esquerda que se opõe ferozmente à austeridade e à privatização e até se comprometeu a bloquear a anunciada venda da fabricante de aviões brasileira Embraer à Boeing.

Marina da Silva, um possível último recurso para a elite brasileira e investidores internacionais, graças à sua mistura original de política econômica neoliberal e proteção ambiental, está perdendo apoio em mais uma corrida eleitoral, em sua terceira tentativa na presidência

O fracasso catastrófico do plano do establishment paulista de apagar o PT da política brasileira levanta uma questão intrigante: com Meirelles e Alckmin rastejando nas pesquisas, as elites e os mercados globais de investidores em países emergentes irão mudar seu apoio rumo à figura extremamente desagradável de Jair Bolsonaro? Embora os alertas de fascismo iminente possam ser exagerados nos Estados Unidos e na Europa, no Brasil a ameaça Bolsonaro está preocupantemente próxima da realidade. Ele defendeu abertamente a necessidade de intervenção militar e nomeou o recentemente general aposentado Hamilton Mourão como candidato a vice-presidente. Em referência à corrupção, Mourão defendeu publicamente a intervenção das Forças Armadas para “resolver a questão política” que o Brasil enfrenta agora.

A frase de propaganda de Bolsonaro sobre o complexo problema criminal do Brasil é "o melhor bandido é um bandido morto". Após seu esfaqueamento quase letal no início de setembro, Bolsonaro foi fotografado fazendo um gesto de pistola com dois dedos de sua cama de hospital. Ele também é cruelmente homofóbico e misógino; ele disse a uma deputada do PT durante o processo de impeachment: “Você é muito feia para ser estuprada”. Apesar disso, ele pode ser a única opção para os neoliberais. "Estamos agora em uma nova fase do neoliberalismo fascista", argumentou o sociólogo francês Christian Laval na última sexta-feira, em uma reunião eleitoral realizada pelo Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL), a alternativa de esquerda de Guilherme Boulos ao PT. Isso impressionou o público do Rio de Janeiro, ainda se recuperando da perda da vereadora de esquerda Marielle Franco, que foi morta a tiros em março passado. Enquanto os juízes da Lava Jato se moveram com pressa incomum contra Lula, os assassinos de Franco ainda estão à solta.

A domesticação de Bolsonaro já pode estar em andamento. Paulo Guedes, seu assessor econômico formado pela Universidade de Chicago, persuadiu o candidato a dispensar seu anterior apoio de traço nacionalista a empresas estatais como a Petrobras. Bolsonaro é agora um privatizador radical. Wall Street e o establishment dos EUA estão dando uma mãozinha. Guedes, um dos “garotos de Chicago” que trabalhou no Chile durante a ditadura de Pinochet, ajudou Bolsonaro a se relacionar com investidores e analistas dos mercados emergentes nos Estados Unidos. Bolsonaro visitou Nova York no ano passado, onde foi entusiasticamente recebido por Shannon O'Neil no Council on Foreign Relations. O'Neil não teve escrúpulos em discutir política com um neofascista brasileiro, mas, como John Ackerman observou em um artigo em The Nation, ela, ao contrário alertou com dureza sobre o suposto perigo para os interesses americanos de Andrés Manuel López Obrador, que em breve será empossado como novo presidente do México.

Os mercados financeiros parecem estar chegando à ideia de uma presidência de Bolsonaro como a única alternativa ao PT. Esta percepção aumentou à medida em que as pesquisas de opinião favoreceram Bolsonaro. O crescimento de Haddad na semana passada provocou alarmes. Obviamente, Alckmin é o verdadeiro favorito dos investidores globais, o que pode explicar o salto nos preços das ações e da moeda brasileira quando foram divulgadas as notícias sobre o esfaqueamento de Bolsonaro - os mercados talvez esperassem que o ataque se mostrasse letal. Mas agora que ele não está apenas se recuperando, mas seus índices estão se fortalecendo, há sinais de que ele está ganhando o apoio da elite. "A força de Bolsonaro parece agradar aos investidores", disse Álvaro Bandeira, economista-chefe da corretora Modalmais. Enquanto isso, os entrevistadores da Rede Globo eram visivelmente menos agressivos com Bolsonaro em sua campanha na TV do que com Haddad.

Curiosamente, Haddad, um acadêmico da escola negócios de elite Insper, é na verdade um moderado e, como Lula em 2003, estaria aberto a buscar um modus vivendi com os mercados financeiros. Esta é provavelmente a razão pela qual Lula o escolheu como seu sucessor. "Haddad reformaria o sistema previdenciário (considerado essencial para a estabilidade fiscal pelos investidores)", disse Marcelo Mitterhof, do BNDES. “No Insper, ele teve a oportunidade de conhecer a elite de São Paulo.” Afinal, Lula coabitou muito bem com as megaempresas brasileiras e os gestores de fundos de mercados emergentes durante os oito anos de sua presidência. Ele se gabava nos anos do boom econômoico que era o favorito tanto nas favelas quanto na comunidade de investimentos.

Mas a massiva redistribuição de renda para os intocáveis ​​do Brasil - 40 milhões foram extraídos da pobreza extrema, e outros milhões foram levados, ainda que brevemente, para a classe média baixa - enviaram ondas de choque através do sistema de privilégios permanentes no Brasil. Isso não pode ser facilmente perdoado nem pela elite nem pela classe média tradicional, cujos rendimentos não aumentaram à mesma taxa dos pobres durante os governos do PT de Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff. As reformas radicais da educação de Haddad, entre 2005 e 2012, trouxeram milhões de jovens da classe trabalhadora para as universidades. Ele aumentou o investimento em educação de 4% do PIB para 6%, concentrando-se em famílias de baixa renda. Isso levantou a possibilidade de uma revolução social no Brasil, que os privilegiados não querem aceitar.

O dilema para quem exerce poder há tanto tempo no Brasil é real, diz o cientista político Medeiros. Haddad representa o PT, por mais razoável que pareça ser. A base organizacional da esquerda pode ser revigorada por uma vitória de Haddad e talvez até por um triunfo de Gomes também. “Há um cenário em que a esquerda poderia se mobilizar para deter as reformas que os mercados querem”, diz Medeiros. Isso não seria uma perspectiva feliz para os homens de terno na Avenida Paulista, nem para aqueles nas salas de comitês clandestinos do Congresso corrupto de Brasília. Por outro lado, apoiar Bolsonaro revelaria a verdadeira natureza da elite brasileira, cuja hegemonia desde a junta militar que deixou o poder há três décadas, dependia de seu aparente compromisso com a democracia liberal e um contrato social. Quando Bolsonaro observou durante sua entrevista à Globo que a emissora apoiado a o golpe militar (1964-1985), a rede teve que transmitir um esclarecimento que não o faz mais. Elaborar o próximo plano para as elites exigirá um gênio. Mas Lula está na prisão.

Andy Robinson is a reporter for the Barcelona daily La Vanguardia. Now on assignment in Latin America, he is the author of the book Un Reportero en la Montaña Mágica, on Davos and inequality.
No The Nation

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