13 de set de 2018

Pedro Zambarda entrevista Alberto Carlos Almeida


O cientista político Alberto Carlos Almeida, autor dos livros “A Cabeça do Brasileiro” e “O Voto do Brasileiro”, virou uma figura conhecida das redes sociais.

Ex-articulista do jornal Valor Econômico por uma década, posta provocações e pensatas curtas. “O grupo de mulheres contra Bolsonaro já atingiu 1 milhão de seguidoras. É a ponta do iceberg”, escreveu.

O DCM entrevistou Almeida sobre as eleições, o atentado a Jair Bolsonaro, a nomeação de Haddad no lugar de Lula e as conclusões possíveis das últimas pesquisas.

DCM: Nos próximos levantamentos Datafolha, você diz que é possível que Fernando Haddad cresça e veja Ciro, Marina e Alckmin “no retrovisor”. Em que baseia esse raciocínio?

Alberto Carlos Almeida: Não vejo a opinião pública como sujeita ao fenômeno da “transferência de votos” no sentido estrito de o eleitor esperar o que o líder vai dizer e então seguir o líder. É um fenômeno mais complexo que exige uma narrativa.

Em 2010 não houve transferência no sentido estrito, mas sim uma narrativa. Lula disse para o eleitorado que aprovava o seu governo que Dilma seria a continuidade dele. Isso se repete hoje. A narrativa de Lula e do PT é a de que se você quiser ser feliz de novo, como foi nos governos Lula, o melhor a fazer é votar no Haddad.

Além disso, o PT tem 20% ou mais de preferência partidária no Brasil, tem governadores de estado, senadores, enfim uma máquina política formidável. É a soma disso tudo que fará Haddad crescer.

Por que a pesquisa do BTG Pactual apontou disparada de votos do Bolsonaro e no Datafolha ele ficou na margem de erro, crescendo pouco em 2%?

Pesquisas por telefone, de um modo geral, superestimam o voto dos menos pobres e subestimam o voto dos mais pobres. E disso que decorre a diferença.

O voto no PT estará menor em uma pesquisa telefônica e maior em uma pesquisa face a face, enquanto o inverso ocorre com o voto em Bolsonaro e Alckmin, por exemplo.

Alckmin vai perder mais espaço para Bolsonaro, na sua avaliação?

A minha previsão inicial era de um segundo turno entre PT e PSDB. Não mudei a previsão, ainda. Vou aguardar mais duas pesquisas do Datafolha.

Caso Bolsonaro não caia ou suba nessas pesquisas, é provável que modifique minha previsão.

Em seus livros e análises, você fala dos votos dos “azuis” e dos “vermelhos”, falando da polarização histórica PT e PSDB. Os votos tucanos se converteram em votos bolsonaristas?

O fato é que do lado dos vermelhos o PT levará seu candidato para o segundo turno. Porém, há a disputa Alckmin x Bolsonaro do lado dos azuis. O grande problema de Alckmin é prosaico, ele saiu do governo de São Paulo com uma avaliação mediana.

Caso tivesse saído com uma avaliação boa o eleitorado de seu estado não estaria dividindo o voto azul entre ele e Bolsonaro. Isso quer dizer que sua mais importante dificuldade vem de sua própria base eleitoral.

Assim, pode ser que em 2018 o PSDB venha a perder o monopólio do antipetismo no Brasil. Falta pouco para que a gente saiba se isso de fato irá ocorrer.

Por que a rejeição de Bolsonaro cresceu de 39% para 43% no Datafolha, mesmo com a facada em Minas Gerais?

A rejeição dele já vinha em uma trajetória de crescimento forte. O que ocorreu é que essa trajetória não foi interrompida pela facada. Pode ter havido uma desaceleração, até porque a rejeição dele já está muito elevada e pela lógica o seu aumento irá desacelerar.

De toda maneira, Bolsonaro tem sido vítima de críticas muito fortes em relação a suas posturas machistas, racistas, elitistas.

É isso que tem levado ao aumento de sua rejeição.

Ciro Gomes é um destaque nas últimas pesquisas. A força dele vem do Nordeste ou de votos de outras regiões?

As candidaturas de Ciro e Marina guardam uma semelhança importante. Elas não representam ninguém, nenhum grupo relevante, nenhum setor empresarial, nenhum movimento social relevante. São candidaturas de si próprios.

Em função de nossa legislação permissiva, foram capazes de se apropriar de siglas partidárias pequenas e viabilizarem espaço na mídia para se colocarem como candidatos. Ambos estão em uma egotrip.

É provável que seja a última egotrip dos dois. Eles tendem a ter uma votação final de menos de dois dígitos, abaixo, portanto, de 10%.

Por que Marina desidratou tanto e é uma “doadora universal” de votos, nas suas palavras?

Marina é uma candidata sem identidade. Já escrevi isso em livro, candidatos sem identidade têm pés de barro. É preciso uma identidade para ter sucesso eleitoral, ou se é candidato de governo, ou de oposição, não dá para ser os dois ao mesmo tempo.

Ou se é candidato de esquerda ou de direita, não dá para ser os dois ao mesmo tempo. Como ela não tem identidade, quando perde votos eles vão para todos os candidatos, os votos dela são do tipo sanguíneo O negativo.

Ela é doadora universal de votos.

O segundo turno ideal para Haddad é Bolsonaro?

Se Lula fosse o candidato ninguém, nem mesmo seu mais radical opositor, estaria dizendo que Lula seria derrotado. Pelo contrário, todos admitiriam que ele seria o vencedor final, no primeiro ou segundo turno.

O favoritismo de Lula se transfere para Haddad. Ele é o único que pode ser adjetivado como o favorito para ganhar, contra qualquer adversário que seja. Porém, é sempre bom chamar atenção para o fato de que favoritos também perdem.

O adversário mais fácil de derrotar em um segundo turno é Bolsonaro, sem sombra de dúvidas. O papel mais importante do segundo turno é o de veto a candidatos muito rejeitados, que é o caso de Bolsonaro.

Alckmin seria um adversário mais difícil para Haddad. É preciso considerar que, até mesmo em função de seu perfil, Alckmin não desperta no eleitor grandes paixões, seja de amor e vontade de votar nele, seja de ódio e rejeição.

O que é mais forte hoje? O antipetismo ou o antibolsonarismo?

O que há de mais forte, hoje, basta ver os dados de rejeição das pesquisas, é o antibolsonarismo. Não há dúvidas quanto a isso.

Pedro Zambarda de Araujo
No DCM

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