22 de set de 2018

O que aconteceu com a pós-verdade?


Há pouco tempo, o termo estava em alta - nas capas de revistas, nas falas dos comentaristas de TV, nos ensaios descolados sobre o admirável mundo novo em que vivíamos. Em 2016, "post-truth" foi escolhida "palavra do ano" pelo dicionário Oxford. Embora esse negócio de escolher "palavra do ano" seja quase uma pós-verdade. Ou melhor, um factoide, que, lá se vão 20 anos, Cesar Maia definiu em entrevista memorável, dizendo que, para aparecer na imprensa, "eu lanço factoides no realismo delirante", sendo factoide uma extrapolação fantasiosa a partir de uma base factual [1].

Tenho para mim que a pós-verdade foi deslocada pelas "fake news". O deslocamento não é desinteressado. O foco em "fake news" centra a preocupação no noticiário do dia a dia e tem seu remédio claramente indicado: o jornalismo profissional, lar das "true news". O principal resultado da campanha incessante contra fake news é reforçar a debilitada credibilidade da mídia corporativa.

"Pós-verdade" é mais amplo. Diz respeito não tanto a um fato ou outro - o filho de Lula não é dono da Friboi, Fátima Bernardes não pagou a reforma da casa do esfaqueador de Bolsonaro, as urnas eletrônicas não são controladas por magos do vudu haitianos - e sim a uma narrativa ampla, francamente fantasiosa, que confere sentido a escolhas políticas e que é invulnerável ao debate.

Como não se resume a um único fato falsificado, mas à articulação entre diferentes fatos, a pós-verdade é mais difícil de ser combatida do que as fake news.

Não houve ditadura militar no Brasil, o nazismo era de esquerda, a terra é plana. Tudo isso é "fake", mas dificilmente pode ser classificado de "news". São elementos da pós-verdade,

Entendida dessa maneira, a pós-verdade não é uma inovação do século XXI, mas um recurso utilizado pelas classes dominantes sempre que elas perdem a condição de acreditar no seu próprio discurso.

Hoje, ela se manifesta sobretudo na ideia de que o Brasil vive um combate entre "extremismos". Não é simplesmente uma informação falsa: é uma estrutura de interpretação da realidade totalmente baseada na deturpação interessada dos fatos.

Fernando Henrique Cardoso teria pudor de dizer que Lula cortou o dedo para ser aposentado por invalidez, mas embarca alegremente no discurso que apresenta o PT como espelhamento à esquerda do bolsonarismo. E nisso está do lado não apenas dos manipuladores de internet, mas da imprensa paulistana e carioca, de "intelectuais" como Lamounier, de "formadores de opinião" como Merval. Aliás, eles andam tão parecidos que, se Merval raspasse o bigode, quando ambos envergassem o fardão para tomar chá na Academia ficariam indistinguíveis.

A campanha de Alckmin é totalmente baseada nesta manipulação. É certamente a campanha mais desonesta de todas e, dada a incapacidade de crescimento tucano, tem como único resultado legitimar o voto no Bozo, no segundo turno ou como voto "útil" no primeiro.

Está além do que é aceitável para o discurso eleitoral, mesmo sob critérios bem lassos.

Compare-se com a campanha do PT. É uma campanha politizada de menos para o meu gosto e que faz tacitamente uma aposta que julgo errada, a de que será possível reconstituir as condições institucionais, políticas e econômicas dos governos de Lula. Mas essas são interpretações feitas a partir de uma narrativa que pode ser sustentada sem desonestidade: que as condições de vida dos mais pobres melhoraram com o lulismo.

A ética política não se resume à probidade no uso dos recursos públicos (quesito, aliás, em que o PSDB também tem um registro pra lá de complicado). Seu componente mais específico é o que se pode chamar de uma ética da representação política, que garanta que a adesão dos cidadãos a tal ou qual agremiação ou liderança seja o mais esclarecida possível.

A pós-verdade tucana é o oposto disso.

Nota de rodapé:

[1] Cesar Maia, espero, será novamente derrotado em sua tentativa de chegar ao Senado, pelo bravo povo fluminense que escolherá Chico e Lindbergh.

Luis Felipe Miguel - Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Pesquisador do CNPq. Autor de diversos livros, entre eles Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014).
No GGN

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