3 de set de 2018

O governo de Mauricio Macri: um calote monumental


Na última semana a crise política e econômica gerada pelo governo de Mauricio Macri e incentivada desde o exterior se aprofundou de um jeito espantoso.

A desvalorização do peso de quase 100% é comparável à desvalorização do seu governo.

Durante o fim de semana, Macri e seus colaboradores estiveram reunidos na Casa Presidencial de Olivos urdindo novas medidas antipopulares que anunciam uma catástrofe econômica sem precedentes.

O mandatário anunciou hoje, segunda-feira 3, em coletiva de imprensa, uma série de mudanças na estrutura de governo em que reduzirá a quantidade de ministérios pela metade. O que com certeza implica, embora não o dissesse, uma importante redução de funcionários públicos e a desaparição de programas científicos, culturais, de promoção do emprego, etc.

Leu, e mal, um discurso de 25 minutos que empregou para falar em “crise”, para culpar o governo anterior, em várias oportunidades, para culpar dois países estrangeiros, o aumento do petróleo e até o clima. Se vitimizou várias vezes e falou de uma suposta crise.

Os argentinos e argentinas sabemos muito bem que isto não é uma crise. É um calote monumental. A criação de incentivos financeiros para que os capitais especulativos ingressem ao país obtendo um lucro muito alto em prazos muito curtos foi obra do governo de Mauricio Macri. A fuga de capitais, incentivada por seu governo, se acrescentou à entrega da soberania econômica quando enviou as 11 toneladas de ouro de reservas que tinha nosso país para serem “custodiadas” na Grã-Bretanha; e quando emitiu papéis de dívida com soberania jurídica nos Estados Unidos. O plano econômico do governo de Macri foi apresentado nesse país antes que para os argentinos.

O esvaziamento do Banco Central da República Argentina se produz por suas políticas econômicas, e o realizam seus funcionários, que, além de ter sido executivos dos grandes bancos multinacionais que fazem grandes negócios nos endividando, têm empresas financeiras próprias e contas no estrangeiro.

O termo certo para definir o que está acontecendo na Argentina é ROUBO. Nos estão roubando desde o Poder Executivo e os poderes Legislativo e Judiciário estão sendo cúmplices.

O mecanismo legal e constitucional para frear este roubo é o julgamento político que deve instruir o Congresso da Nação. Lá tem, guardados sob sete chaves, não um, mas 21 pedidos de julgamento político contra o presidente Macri por diferentes crimes cometidos nestes três anos; mas os deputados e senadores se recusam a fazê-lo.

O país hoje é um verdadeiro caos. Não existem preços de referência. Foi rompida a cadeia de pagamentos. As empresas não vendem seus produtos até não ter um valor de dólar estável, porque Macri dolarizou as tarifas de energia, combustíveis e alimentos.

Nos principais bairros comerciais da Cidade de Buenos Aires, desde a sexta-feira, tem comércios fechados porque ninguém quer trabalhar perdendo dinheiro.

Os anúncios econômicos realizados pelo ministro da Economia Nicolás Dujovne foram como alimentar o fogo com gasolina. Ele anunciou a provincialização dos subsídios dos transportes e energia. Ou seja, o dinheiro que antes pagava Estado nacional agora terá que ser conseguido por cada governador ou trasladar esse custo aos usuários, o que politicamente é uma hábil jogada de Macri: o custo político do brutal ajuste será pago pelos governadores, que, na sua maioria, são de partidos políticos contrários, embora até agora, nunca tivessem sido seus opositores. Muito pelo contrário, foram os que garantiram a legalidade do roubo aos argentinos e argentinas. Hoje, Macri acaba de cravar o ferrão do desprezo, porque como diz o dito popular: Roma não paga a traidores.

Para os grandes ganhadores deste latrocínio, Macri anunciou a criação de um gravame de 3 ou 4 pesos por cada 100 dólares, que será aplicado aos direitos de exportação por um ano.

Isto incentiva a que os grandes capitais agroexportadores fomentem uma desvalorização maior. Estas empresas são, na sua maioria, multinacionais e pertencem a poderosos grupos financeiros que participam no ciclo de endividamento e grandes lucros. De fato, maior desvalorização e com um maior risco de não poder pagar a dívida, o preço dos papéis argentinos cairá estrondosamente, o que garantirá para eles grandes lucros daqui a alguns anos.

A mídia que os protegeu até a semana passada, vendo o nível de conflitividade social que se aproxima, começou a tentar se mostrar crítica em relação com este governo que já só promete para o povo aumentar a pobreza, precarizar o trabalho, a fome; desespero e repressão.

Neste festim de urubus, Macri já não governa. Apenas balbucia frases altissonantes escritas no delírio de quem, doente de poder, dispõe de forças de segurança a seu serviço: “a última palavra é nossa, os argentinos que estamos cansados de um passado que não deve voltar. Mudar supõe enfrentar os que se resistem à mudança…”

Em boca de um homem que perdeu todo seu poder político, em meio de uma crise social sem precedentes, essa frase parece uma ameaça.

E talvez, seja a única de suas promessas que está disposto a cumprir.

Débora Mabaires, de Buenos Aires, para Desacato.info.
Tradução: Tali Feld Gleiser



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.