22 de set de 2018

O Estado que ficou reaça


A pergunta recorrente nas esquerdas é esta: como o Estado que elegeu Collares e Olívio para o governo está cada vez mais sob a ameaça de uma duradoura hegemonia da direita?

A resposta não é a perplexidade. O Estado que elegeu Alceu Collares e Olívio Dutra não existe mais. Collares foi eleito em 1990. Olívio, em 1998.

Uma criança com 10 anos, quando os gaúchos elegeram seu primeiro governador negro, é hoje um homem com 38 anos. Um adolescente, quando o PT chegou ao poder, também é agora quase quarentão.

Os filhos e os netos dos eleitores de Collares e Olívio podem não ter nenhuma conexão política com seus pais e avós. Em muitas famílias, são seus opostos.

Assim como a classe média que deu lastro ao PT talvez não exista mais. Existem os sobreviventes, mas a classe média que ergueu as trincheiras da distribuição de renda, do ambientalismo, dos direitos humanos e das grandes questões da esquerda não se renova com a mesma potência e as mesmas ambições.

A nova classe média jovem é a das lutas identitárias (questões de ‘raça’, gênero, costumes etc) e aí, sabe-se, misturam-se centros, esquerdas e direitas. Tanto que muitos jovens, e não são poucos, que defendem a liberação da maconha votam em Bolsonaro.

Foram-se para o ralo o debate e as ações envolvendo classes e utopias. A esquerda se fragmentou, e os partidos perderam expressão.

Mas a direita ainda faz política do jeito antigo. É nesse contexto que se fortalece o discurso da república do relho. Regredimos ao século 19.

Como esperar uma reversão nesse ambiente de direitismos que também estimulam fascismos?

Eu torço apenas para que os jovens voltem a pensar e agir como jovens, que os pobres não pensem como os ricos e que as mulheres não votem em quem as deprecia e humilha. Mas não é tão simples assim.

Moisés Mendes
No Esquerda Caviar

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