22 de set de 2018

O desserviço dos debates, sabatinas e entrevistas com presidenciáveis

Com raras exceções, esses momentos se tornaram ringue entre candidatos e jornalistas, e não espaço para discussão de ideias, propostas e contradições


As modificações na legislação eleitoral implementadas de 2015 para cá tornaram o período de campanha mais curto. O tempo para comícios, para o corpo-a-corpo e para a propaganda no rádio e na televisão – oportunidades para a população conhecer candidatos e candidatas – ficou escasso.

Os debates, as sabatinas, as entrevistas promovidas por emissoras, jornais e portais de internet poderiam minimizar esse problema e se configurar num espaço em que a nação tivesse acesso ao pensamento, às ideologias, às propostas, às práticas e às contradições das candidaturas. Entretanto, especialmente nas eleições deste ano, esses momentos estão sendo desperdiçados.

Os encontros entre candidatos e entre estes e jornalistas têm se constituído mais em ringue para rinhas ou em palco para exibição de egos, do que exatamente em debate político eleitoral. De um lado, jornalistas mais preocupados em entrar para a história das eleições como aqueles que conseguiram encurralar candidatos, fazer presidenciáveis escorregar nas palavras, no pensamento. De outro, candidatos ávidos por se autopromoverem e, ao mesmo tempo, tensos para não caírem em armadilhas, pegadinhas.

Ao espectador – diante da tevê ou à frente do computador -, cabe acompanhar a horas de blá-blá-blá infrutífero. São entrevistas, sabatinas e debates ou modorrentos ou extremamente conflituosos. Que nada acrescentam.

Quando o encontro é com candidato ou candidata do campo progressista, é o tempo todo ele ou ela tentando falar, responder, sendo irritantemente interrompido pelos entrevistadores que se comportam como inquisidores. Quando o candidato é do establishment, desenvolve-se uma ladainha sem fim. Se não, vejamos.

É regra: em entrevistas com Guilherme Boulos, o candidato do Psol passa a maior parte do tempo falando sobre Venezuela ou sobre movimento sem teto. Com Ciro Gomes, as perguntas se concentram no temperamento do pedetista. Com Fernando Haddad, o clichê de relacionar corrupção ao PT. Com Marina Silva, a falsa contradição entre ser evangélica e defender pautas progressistas.

Comparem-se, por outro lado, as entrevistas com Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles. É uma conversa de compadres sobre “políticas de austeridade”, “ajuste fiscal”, tamanho do Estado, parcerias público-privadas. Com Álvaro Dias, sobre certa “moralidade” na política. Com Jair Bolsonaro, as tentativas de expor o fascismo das ideias que defende se tornam palanque para ele reforçar o discurso que sua plateia adora ouvir.

A poucos dias de irmos às urnas, e não sabemos dos candidatos e candidatas se eles pretendem fazer cumprir, por exemplo, o Estatuto das Cidades – tampouco como pretendem que se cumpra. Se vão fazer cumprir – e como – a lei que instituiu o Plano Nacional de Mobilidade Urbana. Quem deles se compromete a revogar ou manter a Emenda Constitucional 95? Não se questiona.

Não sabemos com clareza que candidato ou candidata defende parte dos royalties do pré-sal pra financiar a educação e a saúde.  O que pensam sobre a militarização ou desmilitarização das polícias. Se estão dispostos a retomar a política nacional de saúde mental humanizada, que foi referência no mundo e está sendo destruída pelo atual governo. Não sabemos.

Que propostas têm para os portos, para a indústria naval, para a cabotagem? Para o Fies, ProUni? Vão resgatar o Farmácia Popular? O Ciência sem Fronteiras? O Minha Casa, Minha Vida terá continuidade? Como veem o Mercosul, os BRICS? Não se pergunta nada disso.

Claro que debates, sabatinas e entrevistas não são palanque nem horário eleitoral gratuito. Não são espaços de mera exposição de pensamentos, ideias e propostas – são, sim, de discussão. O que exige perguntas por vezes mais incisivas; requer resgatar posicionamentos antigos para verificar coerência ou paradoxo com o que se está dizendo. Mas isso nada tem a ver com a supervalorização de picuinhas, com as tentativas de constrangimento, com a guerra de vaidades que estamos a ver nesses eventos.

É uma pena. Estamos lançando ao lixo oportunidade ímpar de, por meio do processo eleitoral, sairmos mais conhecedores do que está em jogo.

Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor. Mestre em estudos de linguagens. Licenciado em geografia. Bacharel em comunicação. Mantém e edita a Rede Macuco
No CartaCapital

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