13 de set de 2018

Não há o que comemorar: chapa substituta é uma derrota


O Plano B foi consumado, Lula foi obrigado a desistir de sua candidatura e Haddad assumiu seu posto, com Manuela de vice. Passado o calor da hora, sob ânimos menos exaltados, é necessário salientar algumas ponderações.

A primeira delas é que não há nada para ser celebrado, pois sofremos uma derrota acachapante do Golpe que conseguiu exatamente o que planejou: Lula não é candidato, e isso oficializou-se por meio de uma decisão do PT, antes de todos os recursos se esgotarem, principalmente, no que tange às liminares da ONU. Em síntese, o PT tirou a "batata quente" do colo do STF, que, para impugnar Lula, teria que afrontar a ONU, o ordenamento jurídico interno e as próprias biografias de cada ministro. Sob o argumento de que o prazo acabava no dia 11, o que não é verdade, pois, oficialmente, é 17, portanto, mais uma possibilidade de recurso interno e na ONU; o PT se rendeu às ameaças do Golpe e lançou uma chapa substituta. Abaixamos a cabeça, concordamos com os desmandos de um Estado de exceção e jogamo-nos, de peito aberto, em uma eleição fraudada, que será fiscalizada exatamente pelas instituições que avalizaram todas as etapas do Golpe: o Judiciário.

Cabe ao PT, coligados e militância serenidade e respeito ao luto que Lula e seu eleitorado vivem. Foi constrangedor, por exemplo, constatar, ao vivo, que tocava forró, em alto e bom som, durante a pré-cerimônia de anúncio da chapa substituta, em frente a Policia Federal.

O segundo ponto de reflexão tem a ver com afirmações de que a campanha do PT só começou agora, o que soa extremamente desrespeitoso tanto a Lula, como para sua militância, em especial, para o acampamento "Marisa Letícia", em Curitiba, que heroicamente resiste, há mais de 150 dias, em defesa da liberdade e candidatura do ex-presidente.

Por fim, tomemos cuidado para não adoçar o que é venenoso, ou seja, estejamos alertas para o fato de que foi o Golpe – e não Lula - que desenhou e construiu a chapa Haddad/Manuela, por meio da imposição intransigente de prisão, prazos, indeferimentos de recursos e censuras. Não é agradável essa constatação, eu sei, mas os fatos não nos deixam negar:

1) Lula foi condenado e preso para que sua candidatura fosse totalmente inviabilizada;

2) Lula queria Jacques Wagner como seu substituto, que recusou, porque não concorda com o Plano B diante do contexto atual (implantado pelo Golpe);

3) Lula não queria Manuela como vice, queria mais tempo para articular alianças mais amplas em outros partidos e, talvez, no mercado; porém, diante da imposição, do TSE, de um prazo mais curto para o registro da candidatura, Lula viu-se pressionado pelo PCdoB a ceder a vice-presidência para Manu, e foi o que aconteceu, por meio do "tríplex" provisório Lula/Haddad/Manu;

4) Lula queria participar dos debates e dar entrevistas para apresentar ao povo seu plano de governo, mas o Golpe proibiu, como consequência, Haddad assumiu tal responsabilidade;

5) Lula queria que seus prazos fossem esticados até o máximo para que pudesse lutar pela candidatura até as últimas consequências, o TSE antecipou o julgamento e impôs prazos menores apenas para ele;

Como vemos, nada do que Lula realmente queria foi permitido, e a chapa Haddad/Manuela construiu-se a partir das imposições do Golpe.

Embora indigesta, a percepção de que o golpe conduziu o caminho, passo a passo, para configuração do Plano B é necessária para que não caiamos em mais arapucas, como, por exemplo, acreditar que essa eleição presidencial é qualquer coisa que não a etapa fundamental do Golpe para torná-lo legítimo, dando a ele próprio ares democráticos.

Não se trata, portanto, de Haddad, nem de Manu. Eu reconheço a competência administrativa dele, e admiro e me inspiro no legado dela. A questão não é quem, mas o Plano B em si. Poderia ser Jesus, Brizola ou Mandela ressuscitado que não faria diferença alguma. Inexiste a mínima possibilidade de qualquer oposição ao Golpe vencer esse pleito, e um raciocínio sereno e pragmático que leve a história recente em conta sabe disso. Portanto, a luta deveria instrumentalizar as fragilidades da eleição contra o Golpe, jogando a ilegalidade de descumprir as liminares da ONU no colo do STF, e não fazer exatamente o contrário, como fez o Plano B, livrando os ministros de tal indignidade perante a comunidade internacional, que, a cada dia, deixa explícita seu incomodo com os descaminhos democráticos do Brasil.

Defendo uma resistência que não se limite às eleições, que tenha consciência de que o voto não é soberano quando as instituições democráticas não se submetem à Constituição, vide o que fizeram no impeachment de Dilma. Não existe inteligência numa estratégia que cogite vencer uma eleição fraudada, do início ao fim, de todos os lados. É um processo que interessa única e exclusivamente ao Golpe, e a decisão de aceitar a participação sem Lula é exatamente o que eles precisam.

O PT deveria ter mantido sua promessa ao povo e levar a candidatura de Lula até o fim, assumindo o risco de ficar sem chapa ou ter os votos anulados, cenários que enfraqueceriam enormemente o Golpe, tornando a eleição sem representatividade e altamente questionável, dando ainda mais argumento para ONU aumentar a pressão contra o "Acordo nacional, com STF, com tudo".

Tínhamos a opção de levar a candidatura de Lula oficialmente, sob os recursos que não acabaram, ou não-oficialmente como norte da insurreição civil e pacífica que já se avoluma, tanto nas pesquisas eleitorais, como nos lulaços pelo país. O período eleitoral poderia ser instrumentalizado para uma intensa educação política popular, explicando didaticamente como o Golpe se deu, instruindo para eleição de bancadas legislativas progressistas e antigolpistas, ou seja, não perderíamos tempo, dinheiro e energia com uma derrota anunciada, ao contrário, focaríamos tudo isso na elaboração de uma oposição popular qualificada e robusta para 2019 em diante.

Porém, ao que tudo indica, o Plano B vai desarticular a Esquerda, pulverizar os recursos, e deixar o incomodo provocado pela violência contra Lula perdido num vácuo ideológico. Quando o previsível acontecer, a população, em especial a militância, estará, mais uma vez, com a autoestima assolada, exausta e sem planejamento, o que nos levará, de novo, ao limbo das lutas contra as emergências que o Golpe cria recorrentemente para nos manipular.

Precisamos ter coragem e criatividade para reconhecer que existem saídas e resistências mais eficazes que estão além e fora das eleições, e que não passam necessariamente pela luta armada. Continuar aceitando as ordens do Golpe vai nos tornar cumplices dele.

Thaís S. Moya é socióloga, pós-doc em Ciências Sociais (Unicamp)

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