21 de set de 2018

Merval e a Democracinha


Faltam ainda duas semanas até a eleição, mas, a não ser no caso de uma improvável reviravolta, a disputa presidencial deve ser decidida entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Ciro Gomes ainda tem chances remotas de rivalizar com Haddad – o Datafolha dessa semana o coloca no páreo, mas tudo indica que a pesquisa do Ibope publicada na véspera, que aponta o petista já isolado em segundo lugar, captou melhor para onde o vento está soprando.

Em certo sentido, o segundo turno já começou. E o nome que o establishment tanto esperava não vingou. Luciano Huck flertou com a ideia e recuou (não foi desta vez que pudemos assistir à entrevista dele à bancada do JN); João Doria tentou furar a fila e não conseguiu. A missão sobrou para Geraldo Alckmin, mas nem com a tropa do centrão e com um latifúndio de tempo de tevê sua candidatura decolou. O tucano só parece ter chances de ressuscitar politicamente se o pior acontecer a Bolsonaro, o que também é improvável.

O fato é que Lula, da cadeia, incomunicável desde abril, deu a volta naqueles que o expulsaram do processo eleitoral. Não vai aqui nenhum juízo, apenas uma constatação. A percepção de que o roteiro eleitoral fugiu do script desenhado pelas elites renovou o fôlego do discurso de que a democracia corre risco entre nós. Os democratas que agora dizem isso são, em boa medida, os mesmos que, vestidos de verde e amarelo, confraternizavam em 2016 na avenida Paulista com aquelas minorias sideradas que pediam a volta dos militares ao poder e exaltavam as realizações da ditadura. Alguns dirão que eles não se misturavam. Vamos dizer, então, em nome da precisão histórica, que eles conviviam no mesmo espaço sem grandes problemas e tinham um inimigo comum: todos os que vestissem uma camisa vermelha.

É possível que a democracia esteja mesmo correndo risco. Bolsonaro, do hospital, lançou mais uma vez suspeitas sobre a urna eletrônica e sugeriu que o processo eleitoral será fraudado. Ou seja, se ele perder, foi roubo. Seu vice, aquele a quem Ciro Gomes chamou de jumento de carga, defendeu por sua vez na GloboNews que o presidente da República tem o direito de dar um autogolpe caso perceba uma situação de anarquia. Celso Rocha de Barros publicou uma coluna impecável sobre isso na Folha no último dia 17. É, pois, com esses senhores que estamos lidando. Mas não apenas com eles. Está na praça, com força novamente, o discurso delirante de que as falanges de Bolsonaro e os companheiros do PT representam riscos equivalentes à vida democrática ou ao convívio civilizado no país. Eu disse delirante, poderia dizer também desonesto. Não acredito, sinceramente, que seja esse o caso de alguém como Merval Pereira, um cidadão de bem.

As pesquisas eleitorais deixaram o colunista de O Globo de bigodes eriçados. Ontem, dia 20, ele publicou no jornal um artigo chamado “Um país congelado”. A imagem servia para introduzir a ideia de que estamos revivendo, quase trinta anos depois, a disputa entre Collor e Lula. Não é uma analogia propriamente ruim, mas também não nos leva muito longe. “Essa história já conhecemos, e termina mal”, escreve o imortal (sim, ele é membro da Academia Brasileira de Letras). A história, na verdade, terminou bem, porque o impeachment de Collor, em 1992, foi um marco do fortalecimento da democracia então incipiente no país. Justamente o contrário do que representou a destituição de Dilma Rousseff em 2016. Há mais uma diferença. Em 1989, o Grupo Globo apoiou Fernando Collor, sem muita preocupação de disfarçar isso. A Globo hoje não irá apoiar Bolsonaro (nem Haddad, obviamente). Algo, então, melhorou no país, não é mesmo?

Sigamos. “O Lula de 2018 está mais próximo do de 1989 do que daquele de 2002”, diz Merval. O leitor fica curioso diante de afirmação tão peremptória. O PT estaria tramando na surdina uma reforma agrária de feições bolivarianas? Estaria tentado a dar calotes nos credores do governo? A romper com os contratos? A transformar o Brasil num imenso Museu Nacional? A explicação mervalina vem algumas linhas adiante. Transcrevo o parágrafo na íntegra:

“O PT de Lula só quer saber de pacificação circunstancialmente, por pragmatismo eleitoral. Eleito, Haddad fará um governo na linha petista ditada por Lula, radical e antidemocrática. O PT de 2002 na verdade nunca existiu, era só uma fachada para o grupo político chegar ao poder e atravessar os primeiros anos sem turbulência.”

O que pensar dessas linhas tão criativas? Teria sido a coluna hackeada pelo general Hamilton Mourão? O autor desses disparates – chamemos as coisas pelo nome – é frequentemente apontado por colegas da imprensa como uma espécie de porta-voz dos patrões. Não acredito nisso. João Roberto Marinho transmite a sensação de ser uma pessoa sensata. Duvido que ele pense que o PT de 2002 na verdade nunca existiu.

Mais adiante, Merval volta a desabafar:

“Eleição estranha, com dois candidatos de campos antidemocráticos, e liderando com os índices de rejeição maiores do que as intenções de voto. Depois do mensalão e do petrolão, e da tentativa permanente de desacreditar, aqui e no exterior, nosso sistema judicial, fica muito difícil imaginar que o PT possa ser considerado um participante do campo democrático legítimo, da mesma forma como é difícil avaliar assim Bolsonaro, por seus atos e pelo que sugerem seus principais assessores.”

Recapitulando: na cabeça do imortal, o PT de 2002 não existiu, era só fachada, e o partido não pertence ao campo democrático legítimo. Lula e Bolsonaro se equivalem.

Não consigo evitar certo constrangimento diante da sensação de estar tomando o meu tempo e o tempo do leitor com um texto de opinião bastante medíocre, cujo autor oscila entre acessos apopléticos de indignação e reiterados engasgos de raciocínio. Por outro lado, não há como deixar de reconhecer que Merval Pereira é um bom termômetro da febre que acomete o país. Ele é o sintoma de algo que o ultrapassa. Ele é a prova viva e involuntária de que a democracia brasileira corre, sim, riscos de ir pelo ralo.

Fernando de Barros e Silva
No Piauí

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