20 de set de 2018

Memória

Eu comecei a ter uma coluna assinada no jornal em 1969. Época brava. Governo Médici. Você sabia, mais ou menos, o que podia escrever e o que deveria evitar. Mas havia surpresas. Eu também fazia uma crônica diária para uma rádio e um dia escrevi sobre a teoria da evolução do Darwin. A crônica foi censurada. Até hoje não sei se o censor era um criacionista anti-Darwin ou se apenas visse na teoria que descendemos de macacos uma alusão a gorilas, logo a militares.

Os limites do permitido, no entanto, eram claros. Numa das primeiras crônicas que escrevi mencionei o Brizola. O editor mandou me chamar. Me recebeu na sua sala com uma única frase:

– Brizola, nix.

Também não se podia mencionar dom Hélder Câmara, Miguel Arraes e mais umas dúzias de vetados pelos militares. O jornal O Estado de S. Paulo fez questão de que todos soubessem que estava sendo censurado, publicando receitas e poemas em lugar das matérias proibidas. A gente tentava transmitir alguma coisa parecida com críticas ao regime nas entrelinhas, sem saber se eram entendidas ou não. Mesmo com o controle da imprensa, os militares não conseguiram evitar que notícias da guerra suja que se travava no Brasil fossem conhecidas. Notícias de prisões arbitrárias, de pessoas torturadas, exiladas ou mortas, enquanto os generais se alternavam no poder.

Por que estou lembrando, de novo, aqueles tempos? Porque se volta a falar de culpa e passado, e o ressurgimento do fascismo no mundo todo cada vez mais se confunde com uma obliteração da consciência e uma falsificação da História. Não apenas no Brasil, mas na Alemanha, por razões óbvias, na França, na Áustria e em outros países em que a extrema direita ameaça, a questão é o que fazer com a memória, esse incômodo que ou se nega ou se muda ou se justifica. A memória daqueles tempos e o que fazer com ela tem muito mais relevância, nessa próxima eleição, do que se imagina. Quem não se lembra precisa ser lembrado.

Luís Fernando Veríssimo

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