3 de set de 2018

É guerra!

Pombas brancas são símbolos de paz, revoadas de pombas dão um toque de alegria a qualquer acontecimento, pombas catando comida sob os pés de turistas, sem medo de serem pisoteadas, representam a harmonia possível entre gente e bichos. Quem não gosta de pombas? Mas as pombas, como todos nós, perdão, defecam. E não escolhem lugar para fazer seu cocô, além de produzir sons desagradáveis e serem, notoriamente, portadoras de doenças. 

Minha mulher declarou guerra às pombas que sujam o quintal da nossa casa. Seguiu os conselhos de vários especialistas em pombas, todos sem a menor ideia de como banir pombas de um jardim, mas especialistas. Chegou-se a pensar em colocar um espantalho na cerejeira, e já discutíamos de quem seria a cara no espantalho para ter maior efeito – a do Gilmar Mendes estava ganhando – quando a sugestão foi abandonada. Daria muito trabalho, e ninguém tinha mais condições para subir em cerejeira.

Outra ideia: foguetes. A intervalos durante o dia, minha mulher lançaria um foguete que explodiria sobre o quintal, espantando as pombas que não morressem de susto. Com o tempo a existência de uma maluca fogueteira se espalharia entre as pombas, que deixariam de frequentar nosso espaço aéreo e sujar nossa cabeça, para sempre. Mas aí surgiu um problema: como explicar para os vizinhos, sem provocar uma ocorrência policial, foguetes explodindo durando todo o dia, todos os dias, sobre suas casas? Também não tínhamos condições de sair no tapa com a vizinhança.

Então a Lucia leu que um inimigo natural das pombas era a coruja. Sim, a velha ave estrigiforme das famílias dos titonídeos e estrigídeos (viva o Google), historicamente um símbolo de sabedoria e ponderação, mas que, talvez para contrabalançar sua natureza filosófica, come insetos e ratos e tem especial predileção por pombas. Comprar uma coruja de verdade só traria, para o quintal, cocô novo. O que fazer? 

Lucia comprou um vaso do tamanho natural de uma coruja e colocou num canteiro, para ver a reação das pombas. Ontem, havia duas pombas pousadas na cabeça da falsa coruja. A expressão na cara da coruja era de grave reprovação moral. A esperança da Lucia, agora, é que, com o tempo, sob o olhar de censura da coruja, as pombas desenvolvam um sentimento de culpa e desapareçam. 

Luís Fernando Veríssimo

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