8 de set de 2018

Dúvidas sobre o episódio Bolsonaro


Desde que eu deixei de acreditar em Papai Noel, e isso demorou mais do que o normal e me custou muito, porque eu relutava em aceitar que meus pais tivessem mentido pra mim, eu me tornei uma criança muito desconfiada. Fui crescendo sempre cheia de dúvidas. Era um comportamento intuitivo e quando comecei a ler sobre o iluminismo e soube que esta era a atitude de gente esclarecida, que não se deixava levar pela aparência das coisas, eu me senti uma pessoa inteligentíssima. 

Não que eu fosse, mas a sensação foi ótima.

Digo isso a propósito dessa história que concentra nossas atenções desde ontem à tarde. Não preciso repetir a pergunta que sempre se faz nessas horas, "a quem interessa?", porque a resposta é óbvia mas isso não nos autoriza a concluir automaticamente que se trata de uma grande armação. E, como sempre, o que mais importa não são as intenções de quem age, e sim as consequências das ações. Mas é claro que esse episódio tem de ser apurado, e dificilmente será, diante dos tantos interesses envolvidos nesse momento tão tenso e delicado de nossa vida política e da ausência de uma imprensa minimamente comprometida com seus próprios princípios editoriais.

Seja como for, vou insistir na dúvida que me permito sustentar, e desde logo esclareço que não passa pela minha cabeça me meter a perita, porque pra isso, afinal de contas, temos o Molina. São dúvidas mesmo, que me parecem legítimas e justificadas.

Primeiro, a questão da ausência de sangue. Li informações de gente séria e qualificada para falar sobre isso e posso entender que, num caso desses, o sangramento seja principalmente interno, mas antes de atingir artérias internas a faca rasga a pele, ou não? E isso não sangra? Nem um pouquinho?

(O que li de mais curioso foi esta matéria da Jovem Pan com o diretor da Associação Médica Brasileira dizendo que "os sangramentos de cinema são de vasos mais superficiais" <https://jovempan.uol.com.br/…/ausencia-de-sangue-apos-facad…>. E eu que achava que sangramentos de cinema eram simulados). 

Outra coisa que me chamou a atenção foi que, em casos assim, a reação mais comum, exatamente pela surpresa e pela emoção que provoca, é a multidão furiosa exibir a camisa da pessoa atacada, como um estandarte, uma bandeira desfraldada a denunciar a violência. Mas não tinha sangue, então talvez não fosse muito verossímil... se bem que pelo menos um furo a camisa teria de ter, ou não? É só um detalhe, talvez não tenha importância, mas me causou espécie, como se dizia antigamente.

Finalmente: vi várias vezes o vídeo que circulou por aqui. Para atingir seu alvo, o agressor tem de vencer a barreira de pessoas à sua frente e precisa erguer o braço em arco para alcançar com a faca a barriga do homem, obliquamente, de cima para baixo, e de maneira muito rápida. Realmente não consigo entender como um golpe desferido dessa forma possa causar tamanho estrago. Mesmo que fosse o facão do Crocodilo Dundee.

Por fim: sempre duvidei da realização de eleições nesse contexto do golpe, a não ser que as forças que derrubaram o governo tivessem uma candidatura viável para continuar esse projeto de destruição do país. Não têm. Então, qualquer pretexto poderia ser utilizado para adiar ou cancelar as eleições. E um fato desses, que tumultua ainda mais um processo eleitoral cheio de vícios e incertezas, e que ocorre na véspera de um feriado tão caro aos militares, vem mesmo a calhar.

Sylvia Moretzsohn
No GGN

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