14 de set de 2018

Distância

Shakespeare descobriu um jeito de escrever sobre política sem se envolver em política. O jeito: escrever sobre política no passado, numa Inglaterra remota no tempo, ou em outras terras, algumas até inventadas por ele. Não lhe faltaria assunto se escrevesse sobre a Inglaterra do seu tempo, um século de intrigas e conspirações, com personagens suficientes para encher vários fólios. A começar por Elizabeth, a Rainha Virgem, que reinou sobre um império dividido e sobreviveu a críticas e atentados partindo do Vaticano e da minoria católica, do Império espanhol e de descontentes da sua própria corte — movimentos que, invariavelmente, acabavam com alguém sendo enforcado ou decapitado. Shakespeare cuidou de manter pelo menos um século de distância da sua época, na sua obra. Em primeiro lugar, por uma questão de sobrevivência: era proibido criticar a rainha ou outros no poder. Qualquer insinuação sobre a rainha ou sua vida particular, lá ia outra cabeça. Em segundo lugar, porque, escrevendo sobre outros séculos, Shakespeare tinha, para escolher, heróis e vilões de todos os tempos, da Roma clássica à Escócia pré-histórica, de reis loucos a rainhas assassinas. Quem quisesse ler entre as linhas escritas por ele alguma alusão à atualidade elizabetana que lesse. Metáforas nunca mataram ninguém.

Quem se obriga a comentar a realidade política no Brasil só pode invejar o jeito de Shakespeare desprezar a atualidade, escolher os personagens que lhe interessavam e colocá-los onde queria. Egito, Ilíria, Sicília, a ilha não identificada em que Próspero ensina Caliban a praguejar, a romântica Verona... Não o Brasil. Não esses personagens. Não essa realidade. O problema é que começam a rarear os lugares que se salvam da mediocridade crescente no mundo. Era costume citar os países escandinavos como exemplo de sociedades racionais. Nas recentes eleições na Suécia — na Suécia, que já foi chamada de superpotência moral! — a extrema direita teve quase tantos votos quanto os social-democratas, que nunca tiveram tão poucos. Wiliam, Wiliam, fugir pra onde?

Luís Fernando Veríssimo

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