24 de set de 2018

Diálogo com um eleitor de Bolsonaro


– Pedro, como você vota para Presidente este ano?

– No Mito, claro.

– Mito?

– Bolsomito, Bolsonaro. É melhor “jair” se acostumando …

– Por que você vota nele, Pedro?

– É o único que pode colocar ordem nessa bagunça, nessa onda de violência e nesse mar de lama da corrupção.

– Mas não é uma eleição para Deus. Como ele vai fazer isso usando as competências do cargo de Presidente da República que estão escritas na Constituição?

– Ora … Disciplina, hierarquia, vergonha na cara, bala e cadeia em todo tipo de safado.

– Cadeia depois de responder a processo, como em todo lugar civilizado do mundo?

– Esse negócio de processo, defesa e advogado é tudo mimimi desse pessoal dos direitos humanos protetor de bandido.

– Pedro, político corrupto também vai levar bala e cadeira, sem processo?

– Claro. O cabra é macho. Com ele não tem conversinha mole. No tempo dele no Exército quase jogou uma bomba para resolver a parada.

– Mas Pedro, o comandante dele no Exército disse, por escrito, que se tratava de alguém caracterizado pelo desequilíbrio, irracionalidade e agressividade.

– Pura inveja. Coisa de gente covarde.

– Ele resolve jogando uma bomba no Congresso?

– Se for preciso ele joga. Se não aprovarem o que ele vai mandar … Eu apoio. Tô com ele e não abro.

– Aprovar porte de arma para todos, por exemplo?

– Sim. Essa é a melhor proposta dele. Os outros só fazem promessa eleitoreira. O Mito tem proposta boa e que resolve. A bandidagem vai tremer nas bases.

– Pedro, você tem dinheiro para comprar uma arma (dois, três ou quatro mil reais)? E a maioria dos trabalhadores no Brasil?

– Tudo isso? Ainda não fiz as contas. Mas se não der, faço uma vaquinha com os manos. Os trabalhadores? Cada um que corra atrás da sua.

– Pedro, mais de 90% dos assaltos e outras violências pegam a vítima de surpresa. Estar armado vai fazer alguma diferença?

– Hummm … Vou perguntar ao pessoal do Mito. Com certeza, ele tem uma solução. Ele é a solução.

– Pedro, por que o Mito não perde a oportunidade de falar em arma, simular o uso de uma arma (com chaves, tripés de câmeras, etc), ensinar criança a atirar e coisas assim? Depois de ser atacado com uma faca, a primeira imagem no hospital foi justamente simulando manusear duas armas. Não seria um fetiche?

– Não conheço esse tal de Fetiche, mas se tá com o Mito é cidadão de bem.

– E as dezenas de declarações do Mito destilando preconceito contra as mulheres, negros e homossexuais?

– Aquilo foi coisa para chamar a atenção e ficar conhecido. Ele tava causando, fazendo piada. Liga pra isso não.

– Fazendo piada com coisa séria? Ele vai governar ou fazer piada?

– O Mito é bem-humorado. Vai ser tudo alegria.

– Mas Pedro, ele defende a tortura. Atirar antes e perguntar depois. Esse tipo de comportamento é condenado pelas leis, pela moral e pelas religiões. Ninguém no mundo civilizado defende isso. É a barbárie.

– Só o (sic) direitos humanos é contra. Tem que esfolar mesmo. Só assim esse povo aprende. Ele é um “cara família”. Assim é que se defende a família.

– Pedro, ele parece um analfabeto, diz coisas sem sentido e não consegue construir um raciocínio elementar. Já percebeu?

– Isso é coisa de esquerdopata de Universidade. Ele é um homem do povo. Fala como o povo. Fala a língua do povão. Não fica com aquela conversa bonita para enrolar todo mundo. Ele fala e eu entendo.

– Pedro, o programa de governo dele é um amontoado de coisas desconexas. Você leu?

– Não li. Esse negócio de programa de governo é coisa de intelectualóide. O que importa é escolher os ministros certos para tocar o governo.

– Quais os critérios para ser ministro dele?

– Acreditar em Deus, patriotismo e competência.

– Como ele vai aferir a competência do ministro se ele não conhece praticamente nada de nenhuma área de governo?

– Ele já disse que escolha de ministro é como casamento. Casamento é coisa sagrada. Não tem como dar errado.

– Pedro, ele nunca foi liberal. Virou liberal de conveniência para surfar na onda da moda. Ser liberal, sem saber bem o que significa isso, é a modinha do momento.

– Pode parar. O mito não libera nada. Ele é espada.

– Pedro, ele recebeu dinheiro da JBS, tinha funcionária fantasma, recebia auxílio-moradia tendo imóvel para morar, gastou um monte de dinheiro público em passagens aéreas para fazer campanha e ostenta um “estranho” aumento de patrimônio. Ele não é igual a quase todos os outros políticos que tanto critica?

– Coisa pouca. Nada perto dos milhões e bilhões nas cuecas e nas malas.

– Pedro, pelo que você me diz, o seu voto está baseado na confiança. Você acredita que o Mito, na base da força, do grito e da bravata, vai domar e subjugar o Congresso, os governadores, a grande imprensa, o STF, os juízes, o Ministério Público, os sindicatos e organizações da sociedade civil, os servidores públicos, o mercado e por aí vai?

– Eu acredito. O homem é o Mito, tem bala na agulha e a hora é agora. Ele tem uma missão a cumprir. Uma missão lá de cima.

– Pedro, devemos construir uma sociedade livre, justa e solidária (é o que está escrito na Constituição). Não há como fazer isso com os valores difundidos pelo Mito. Veja só. No último domingo, parte de uma torcida de futebol gritou: “Ô cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar viado”. É a mistura mais primitiva e irracional de preconceito com violência. Tudo isso associado a quem?

– (silêncio).                

Aldemario Araujo Castro
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