2 de set de 2018

“Defino-me como socialista”, diz Leandro Navroski, policial que criticou Bolsonaro e viralizou no Facebook

Leandro Navroski, policial que criticou Bolsonaro no Facebook.
Foto: Reprodução
Leandro Navroski tem nove anos de carreira na Polícia Civil de Santa Catarina e mora em Balneário Camboriú. Ele fez um post criticando policiais que apoiam Bolsonaro no grupo fechado de Facebook do delegado Orlando Zacone.

A mensagem foi compartilhada depois por ele no grupo Policais Antifascismo e reproduzida aqui no DCM. Viralizou e chegou em 2,7 mil curtidas e quase mil compartilhamentos.

Para entender melhor o que pensa o policial, o DCM entrevistou Leandro Navroski.

DCM: Você, sendo policial há nove anos, vê o movimento de Bolsonaro forte entre os policiais? Por qual razão?

Leandro Navroski: Percebo aqui em Santa Catarina uma grande preferência entre os policiais pelo candidato Jair Bolsonaro.Vejo que a maioria baseia essa escolha em vídeos viralizados e postagens sensacionalistas.

Nessas mensagens, o candidato faz declarações fortes a favor da revogação do ECA (estatuto da criança e do adolescente) e da revogação do estatuto do desarmamento, pois pensam que com essas medidas a atuação policial será mais efetiva contra a criminalidade.

É uma falha na educação básica a visão simplista que temos na segurança pública hoje?

É uma falha grave. A educação básica brasileira é tosca, e influi diretamente na formação ética do cidadão. Por exemplo, em Santa Catarina não se aplica nem o mínimo constitucional em educação.

O que esperar do cidadão que recebe uma educação básica abaixo do mínimo exigido constitucionalmente?

A segurança pública é algo complexo, e necessita de uma interdisciplinaridade para solver seus problemas, mas não é isso que muitos pensam nessa área por falta de formação e informação.

O que você mais teme se Bolsonaro ganhar a eleição? Que ele libere as armas?

Temo muitíssimo que se dê continuidade ao desmonte nacional iniciado pelo Temer, resultando na diminuição do Estado e no enfraquecimento das instituições. Além de atos arbitrários como os AIs editados durante a ditadura militar brasileira. Viveremos tempos estranhos e obscuros.

Como você se define politicamente?

Meu posicionamento político ficou bem definido com ajuda de um grande amigo, Dorvalino Faganello, ex-diretor do Tribunal de Contas do Estado do Paraná. A partir de longas conversas com ele na adolescência, e já na fase adulta com base nos meus estudos, especialmente depois que ingressei no mestrado em gestão de políticas públicas, defino-me como socialista.

Você acha que falta para a esquerda uma discussão mais profunda sobre segurança pública?

O que falta para a esquerda é união. Os candidatos apresentaram planos de governo satisfatórios em matéria de segurança pública, mas a desunião enfraquece a esquerda. A Manuela foi a única a propor a união da esquerda nessas eleições, mas não obteve sucesso e conseguiu apenas unir o PT e o PCdoB. Creio que uma união só ocorrerá no segundo turno.

Você acha que falta uma discussão maior sobre governos e prefeituras, sobretudo entre policiais?

O policial pensador e critico sobre a política nacional e regional é uma raridade. O servidor da segurança pública muitas vezes não têm tempo para pensar nisso, devido ao forte estresse ocasionado pela atividade policial e pelo regime de dedicação exclusiva que aliena o policial, e suga todas as suas energias.

Uma mudança estrutural é necessária no funcionamento das polícias. Como a humanização do servidor, que hoje é tratado como um número e uma peça substituível, a alteração das escalas de serviço e a extinção da militarização da polícia seriam grandes passos para aliviar a carga de trabalho do policial.

Aí então sobraria tempo para ele se dedicar à sua vida pessoal, social e política.

Você enxerga tendências fascistas e autoritárias em Bolsonaro?

Enxergo sim. Ele parece não viver em um Estado Democrático de Direito. Apresenta propostas que violam diretamente direitos e garantias constitucionais que estão amparadas por princípios como o da vedação ao retrocesso, porém ele parece ignorar tudo isso ou agir por má-fé.

Essa não é só uma tendência nacional, tenho visto isso também em outros países com outros candidatos como Rodrigo Duterte nas Filipinas e Daniel Ortega na Nicarágua.

Assim, retomo o assunto da postagem inicial que fiz no Facebook: segurança pública não se faz com violência. Isso está mais do que provado e não sou eu quem falo isso. Há diversos estudos, basta pesquisar.

É claro que a ação policial por muitas vezes é violenta, mas age nos termos da lei, quando é preciso se defender legitimamente ou cumprir com seu o dever legal, fora disso é abuso. O que é preciso é a união das polícias e total desmilitarização, bem como fortíssimos investimentos em serviços de inteligência e investigação criminal.

Os policiais estão cansados e muito mal estruturados. E a ingerência não é das polícias, é do Estado que não investe o necessário em segurança e nem nas demais áreas. Votar em um candidato que defenda ainda mais a diminuição do Estado é votar contra a segurança pública e contra a população.

Pedro Zambarda de Araujo
No DCM

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