20 de set de 2018

Datafolha vira “malabarismo estatístico” no Jornal da Globo


A pesquisa Datafolha – cujo horário de divulgação na Globo, de madrugada, foi, digamos, “original” – teve seus dados seguidos  de uma “explicação”  estatística também muito original, lida por Renata Lo Prete. 

O vídeo está lá, mas vou transcrever a fala, para você entender bem como se torce as coisas com palavras.

Disse ela que “a principal diferença entre este Datafolha e o Ibope que nós mostramos ontem é a distância entre Haddad e Ciro, mais estreita na pesquisa de hoje”, seguida de uma penca de ressalvas sobre  data do “campo” e metodologia. Mas, afirma ela, “vale a pena observar”. “Na de ontem, Haddad, já aparecia isolado em segundo lugar; na de hoje, Ciro Gomes aparece em empate com ele”.

Vejam que maravilha: usando-se a diferença de um dia entre pesquisas, sugere-se que o candidato que cresceu – segundo o próprio levantamento, 0,5% ao dia em seis dias e saiu de um empate numérico com outro (que não cresceu absolutamente nada) para uma vantagem de 3 pontos foi, pela narrativa, “alcançado” em 24 horas pelo que ficou parado ao longo de três pesquisas!

Quem gosta de matemática pode aproveitar para ler a história de um dos paradoxos de Zenão de Eléia, que “demonstrava” que Aquiles, o mais rápido corredor da Grécia, por mais que corresse não ultrapassava uma tartaruga.

Para quem andava com saudades de manipulação política usando pesquisas,  foi um prato cheio. Nenhum texto poderia ser mais adequado a quem estivesse interessado em apregoar o “voto útil” como discurso para desestimular o voto em Fernando Haddad do que as frases finais: ”com um dado adicional, animador para o Ciro. Ele está aparecendo à frente de Jair Bolsonaro na simulação de 2° turno, fora da margem de erro; ele é o único que está nesta situação no momento”…

Uau! Que inveja eu tenho dos tempos em que estava no PDT e a gente não ganhava um texto tão carinhoso assim com o Brizola…

Exceto por migalhas – e como as margens de erro se prestam a ser isso – o resultado da pesquisa não tem nenhuma diferença com o Ibope. Os 16 pontos do Datafolha e os 19 do Ibope, com as respectivas margens, são iguais. Os pontos de Bolsonaro são iguais. Os de Ciro – 11% no Ibope e 13% no Datafolha – idem, idem.

O fato estatístico é que Haddad tem uma tendência forte de alta (lembre-se, são seis dias de intervalo entre pesquisas iguais) e Ciro mostram há três rodadas, uma completa estagnação. No mesmo período, o candidato do PT avançou 10 pontos, mesmo na pesquisa que lhe é mais avara. As duas outras pesquisas presenciais (não-telefônicas), MDA e Ibope,  colocam Haddad já descolado, estatisticamente, de Ciro.

Sugere-se, para a Globo, a eliminação dos gráficos, para que os espectadores não vejam que um sobe e o outro fica parado.

E aos eleitores, que fiquem alerta com a estatística verbal que a emissora apresenta, para não acreditar  na “subida do que está parado” e na “queda do que subiu”.

Fernando Brito
No Tijolaço

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