24 de set de 2018

Cresci com Bolsonaro - um depoimento


Eu cresci com Bolsonaro. Não metaforicamente, literalmente. Cresci no mesmo prédio em que ele e a família moravam, na Tijuca, zona Norte do Rio de Janeiro. Eles habitavam o apartamento 503, nós, o 1202. Sete andares de diferença e uma coisa em comum: o Botafogo.

Tenho poucas lembranças do Bolsonaro pai - em parte, porque ele já morava oficialmente em Brasília e passava pouco tempo no Rio. Mas convivi por muitos anos com seus filhos Flávio, Carlos (Carluxo) e Eduardo (Duda) - que hoje ocupam cargos políticos.

O Carluxo (filho do meio) eu entrevistei pra um trabalho da escola, em 2001. Ele era o vereador mais jovem do Rio de Janeiro. Se não me falha a memória, foi eleito aos 17 anos - não por mérito da sua campanha, obviamente, mas por carregar o nome do pai. Foi a primeira e a única vez em que eu entrei no 503, com um gravador na mão e uma fita cassete reserva no bolso, pra caso a entrevista se estendesse. Do conteúdo eu lembro pouco, mas guardei o que ele dizia sobre a necessidade de se esterilizar a população mais pobre - “vasectomizar os homens, ligar as trompas das mulheres”. Isso sim, na visão dele à época, resolveria a questão da pobreza. Não sei se pensa o mesmo hoje em dia. Dos filhos políticos de Bolsonaro, o Carlos é o que menos aparece publicamente. Sempre me pergunto o porquê.

O Duda era da minha idade. Estudava no Palas, onde eu também tinha estudado. Frequentava o Brasas, curso de inglês onde eu também fazia aula. Vez ou outra, íamos juntos para o curso, trocando ideia sobre bandas de rock e nicknames engraçados no ICQ. Antes de ficar careca, ele tinha o cabelo do Nick Carter (loirinho, de tijela), andava de Reef, tinha um estilo skatista/surfista e muitas amigas minhas sonhavam uma chance com ele. Eu não queria mais do que companhia pra ir ao curso de inglês - a Tijuca naquela época não era exatamente o lugar mais seguro do Rio de Janeiro. Hoje, continua não sendo.

Aquele prédio era o fervo do bairro no início dos anos 2000. Lá, acontecia de tudo. Tão de tudo que passaram a fechar o playground depois das 22h para coibir a venda e o consumo de drogas - colocaram câmeras nas escadas, passaram chave no elevador, criaram um sistema com seguranças que faziam ronda de tempos em tempos.

Quando a Vice fez recentemente uma matéria com fotos dos Bolsonaros-filhos adolescentes, eu sabia o nome de todas as pessoas de todas as fotos (e seus respectivos apartamentos). A galera deles não era a minha, mas crescemos juntos, fizemos colônia de férias juntos, íamos à mesma piscina, jogávamos na mesma quadra, pegávamos o mesmo elevador, frequentávamos a mesma academia, tínhamos o contato um do outro no ICQ e ocasionalmente nos encontrávamos a caminho do Maracanã pra ver o Botafogo jogar.

Flávio, Carlos e Eduardo não moram mais lá, mas a mãe deles ainda mora. Eu também não moro mais lá, mas minha mãe sim. Talvez isso seja a única coisa que temos em comum hoje, já que nem botafoguense me considero mais. Mas o que me choca nessa história foi eles terem se tornado as pessoas que se tornaram.

Na época pré-redes sociais, era mais difícil saber o que as pessoas pensavam. A opinião pessoal não era ofertada abertamente, a não ser que você ligasse pelo interfone e pedisse uma entrevista pra um trabalho da escola. Talvez o Bolsonaro-pai fizesse piadas de mal gosto já naquela época, mas o meu pai, com quem ele trocava ideias sobre o Botafogo, não levasse a sério. Posso ver meu pai dizendo “ah, Jair, só você” pra encurtar a conversa.

É fácil detestar Jair Bolsonaro com base na figura pública que ele é hoje. O difícil pra mim é saber que eu não o detestei desde sempre. Que, aliás, talvez tenha até gostado dele e dos filhos dele em alguma medida, mesmo que seja na medida mínima de pessoas que moram no mesmo prédio que você e você cumprimenta no elevador, ou pra quem você segura cordialmente a porta, se vir chegando na portaria. A pessoa dá aquela corridinha, agradece, e vocês falam sobre o tempo (ou o Botafogo) enquanto não chega o quinto andar.

Hoje, efetivamente, não sei o que faria se estivesse no mesmo elevador que Jair Bolsonaro. Ou Flávio. Ou Carlos. Ou Eduardo. Talvez surgisse uma vontade imensa de perguntar: “O que aconteceu? Vocês sempre foram assim? Quando foi que se tornaram fascistas?”

Na verdade, essas são perguntas que eu gostaria de fazer a um sem-número de pessoas que eu conheço e que declaram apoio às ideias de Bolsonaro. Pessoas com quem convivo, pessoas com quem já almocei no domingo, pessoas com que já participei de amigo-oculto no Natal. Sempre foram intolerantes? Quando passaram a aceitar a misoginia, a homofobia, o racismo? Quando foi que passaram a apoiar a barbárie?

Quem cogita votar em Bolsonaro “apesar do que ele diz” ignora que os fundamentos básicos do jogo político são discursivos. O que ele diz não está apartado da forma como ele faz política, ao contrário, é a essência daquilo que ele quer construir. Hitler não só dizia que os judeus eram inferiores, ele criou todo um sistema para exterminá-los.

Há quem acredite que existe um tanto de exagero nesta comparação: “nunca chegaríamos a esse ponto no Brasil”. Mas se você aprofundar a discussão mais um pouquinho, vai ver que não estamos tão longe. Somos um dos países que mais matam mulheres, LGBTs e negros no mundo. Curiosamente os “cidadãos de bem” não morrem na mesma proporção - mas estão convencidos de que o fascismo e a barbárie podem ser um preço justo para que eles possam se proteger (da crise financeira, da violência, da corrupção). Não, não são.

Quem apoia Bolsonaro não o faz porque o considera tecnicamente a melhor opção - ele dá amplas demonstrações do seu despreparo para lidar com todas as agendas estratégicas do país. Todas. Também não dá pra acreditar que seja porque “ele não é corrupto”, “ele não é o sistema”, “ele é o novo” - sabemos da sua ficha corrida e não é exatamente limpa.

Acredito francamente que os apoiadores de Bolsonaro julguem que o Brasil precisa de uma mudança radical - e que a mudança radical vai se alcançar por meios radicais. Essa talvez seja uma impressão justa, ao mesmo tempo que é erro de cálculo brutal.

Bolsonaro não tem capacidade de nos salvar. Ao contrário, seu radicalismo pode nos jogar na maior crise que já vivemos: a crise de humanidade. Esse não é um custo viável. Se perdermos a nossa humanidade, não nos restará absolutamente mais nada a perder. Vale dizer que a economia da Alemanha prosperou durante os anos de Holocausto. Mas ao fim da era Hitler, não restava mais nada aos alemães além de um grande senso de profunda vergonha nacional.

Ainda não sei em que momento os fascistas se tornam fascistas. Mas eu sei o momento em que isso se traduz em barbárie: quando chegam ao poder.

Fica, então, o recado. Se você não tiver um pingo de humanidade correndo pelas veias, se não puder aprender em nada com a História, não adianta nem correr: você não vai entrar nesse elevador.

Mariana Ribeiro

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