16 de set de 2018

Conspiração

Sir Thomas More escreveu seu livro “Utopia” em mil quinhentos e pouco, quando começavam a chegar à Europa as primeiras notícias sobre o Brasil recém descoberto, ou recém invadido, pelos portugueses. Não sabemos se More inspirou-se mesmo no Brasil para escrever “Utopia”, mas ninguém sonharia que um exemplo de país perfeito se transformaria um dia em um dos maiores exemplos de distopia, o inverso de utopia, do mundo. Se há um país que se aproxima do ideal descrito por More é a Nova Zelândia, sobre a qual dizem maravilhas. Na Nova Zelândia a natureza é exuberante, o povo e o clima são civilizados, não há crime, tudo funciona, todos ganham bem e até a seleção de futebol não empolga mas não faz feio. Diferente da Austrália, que também foi colonizada por ingleses, a Nova Zelândia convive sem grandes conflitos com os nativos maoris, o que não acontece entre australianos e aborígenes. Qual é o defeito desta nova Utopia?

No seu livro, More escreveu: “Quando eu considero qualquer sistema social que prevalece no mundo moderno, não consigo vê-lo como outra coisa a não ser uma conspiração dos ricos”. More foi presciente sem saber. Li que milionários estão comprando terras e investindo na Nova Zelândia no mesmo espírito com que nos Estados Unidos e em alguns países da Europa brancos assustados se armam e se organizam para enfrentar a guerra racial que, acreditam, fatalmente virá, ou para fugir de catástrofes naturais e sociais, como uma espécie de arca de Noé com classe executiva.

Mas a conspiração dos ricos talvez não estrague a Nova Zelândia. Também li que uma nova primeira-ministra do país é uma mulher com 37 anos chamada Jacinda Ardern, que tomou posse grávida e está amamentando a criança enquanto governa. Jacinda foi a um jantar com a rainha Elizabeth em Londres usando roupa típica dos maoris, com grande sucesso. Sua política é progressista, ela tem apoio garantido no parlamento — e precisa dizer que é bonita?

Luís Fernando Veríssimo

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