12 de set de 2018

Bolsonaro: Candidato do setor financeiro, que não precisa da democracia

“Bolsonaro é uma contradição”, diz a economista Leda Paulani. O motivo está no fato de o candidato do PSL ser alguém de origem militar, mas que abriu mão de pautas em defesa da soberania e do desenvolvimento nacional para agradar o mercado. Ao aproximar-se do guru Paulo Guedes, ele abraça o liberalismo econômico, mas ignora valores liberais, como respeito à individualidade e às crenças. “Juntou o pior dos dois mundos”, resume. Uma combinação que o financismo não rejeita, ao contrário.


“Eu não tenho nenhuma dúvida de que agora todo o setor financeiro vai cair de boca no Bolsonaro”, aposta Leda, que é professora da USP.

Até não muito tempo atrás, Jair Bolsonaro era um opositor, por exemplo, das privatizações. No Congresso, votou contra o Plano Real e a reforma da Previdência na década de 1990. Em algum momento antes de começar a campanha, no entanto, percebeu que precisaria ajustar seu discurso, se quisesse ter o apoio do tal “mercado”.

“Ele tinha uma ideologia do Brasil potente, que vinha dos militares, e por isso era mal visto pelos liberais. Mas aí alguém avisou a ele que era preciso colocar junto dele um cara liberal. E aí entrou o Paulo Guedes, com o seu programa. E os liberais de fato, por sua vez, procuravam alguém com um perfil autoritário. Juntou a fome com a vontade de comer”, analisa a economista, em entrevista ao Vermelho.

Responsável pela guinada de Bolsonaro na economia, Guedes é um dos fundadores do banco BTG Pactual e também do Instituto Millenium, o mais influente laboratório de disseminação do credo liberal no país, com o qual, segundo Leda, “andaremos alguns séculos para trás rapidamente”.

Todo poder ao mercado

Para Leda, Bolsonaro assimilou o liberalismo naquilo que ele tem de pior. “Porque o liberalismo tem alguma coisa de bom, enquanto filosofia. Nasceu lá nos séculos 16, 17 e tinha essa coisa do respeito à individualidade, às crenças, aceitar as religiões – até porque nasceu junto com a coisa da reforma luterana. Então, como filosofia, tem algo de bonito, que mexe com valores humanos, como liberdade, respeito ao outro. Mas esse lado Bolsonaro jogou fora”, aponta.

O liberalismo que interessa ao candidato do PSL – e também ao financismo – é o liberalismo econômico, ela acrescenta. “E esse a gente pode reduzir numa frase, que é ‘todo poder ao mercado’. Isso é colocar a população toda à mercê dos humores do mercado e do poder do dinheiro: quem tem dinheiro pode tudo, quem não tem dinheiro não pode nada.”

A professora da USP afirma que o sistema capitalista é assimétrico, concentra riqueza e renda e, “para os liberais, tem que deixar assim mesmo, porque qualquer intervenção do Estado no mercado seria ruim por princípio. Então é a parte pior do liberalismo, e é o liberalismo econômico exacerbado, que temos agora nesse período da história capitalista, que é o neoliberalismo”.

Nacionalismo fascista


Leda também critica o “nacionalismo de direita” do postulante. “Ele tem aquele nacionalismo de direita, que acaba chegando no fascismo, fora todas as outras questões, da moral, da mulher. É claramente um candidato fascista, que já foi um dia um nacionalista de direita extremo”, classificou.

Leda cita que, pela tradição militar, Bolsonaro poderia apoiar uma política de desenvolver a indústria nacional, algo implementado pelos generais durante a ditadura. “Foi sob um regime autoritário, mas eles terminaram um projeto que era do governo de Getúlio Vargas. O segundo Programa Nacional de Desenvolvimento, feito pelo Geisel, construiu toda uma indústria de base dentro do país, que não existia. Mas aí vieram 20 anos de liberalismo e isso tudo foi levado embora”, diz.

A postura de Bolsonaro quanto ao desenvolvimento, contudo, vai no sentido oposto da implementada pelos militares de outrora. “Do lado do nacionalismo, ele ficou só com o nacionalismo fascista, xenofóbico”, critica Leda, que se descreve como uma internacionalista. Para ela, as barreiras nacionais nem deveriam existir. Mas, compreendendo que o mundo não é assim e que há uma relação assimétrica entre as nações, ela defende que o Estado nacional precisa agir em defesa de seu povo e de sua soberania, o tipo de nacionalismo que Bolsonaro deixa de lado.

“Você tem nações muito poderosas e outras sem poder algum. Isso posto, cada nação tem o direito de construir minimamente a sua soberania, de proteger sua população, seu povo. O Estado nacional tem que ter essa prerrogativa, sem xenofobia, numa política como a que Celso Amorim defendia: uma política ativa e altiva. Porque um país como o Brasil, com o tamanho que tem, as riquezas que possui, tem que baixar a cabeça para todos os grandes interesses?”, questiona, em referência à política entreguista em curso no país.

De acordo com a professora, é preciso “ter um pouco de nacionalismo, mas um nacionalismo junto com a democracia, que vá no sentido de desenvolver os seres humanos, realizar as pessoas. Não um nacionalismo que descambe para o fascismo, a xenofobia e o reino do arbítrio”.

Elite sem pudor

Sobre a forma como os adeptos do livre-mercado encaram esse posicionamento de Bolsonaro, ela indica que alguns “mais conscientes” têm receio desse lado autoritário do candidato. “Mas o liberal do mercado financeiro não está nem aí para esse aspecto. Para esse, se não dá para ser o Geraldo Alckmin o presidente, vamos de Bolsonaro. Eles não têm nenhum pudor”, condena.

Leda é firme na queixa sobre as elites brasileiras. “Se tivessem um pingo de vergonha na cara, o país não era tão desigual quanto é. Toda vez que se tenta fazer alguma coisa para se diminuir minimamente essa desigualdade brutal, vem golpe, rasgam a Constituição e destroem a democracia.”

Ela diz que, ingenuamente, acreditava que, no último período, a democracia brasileira estava garantida. Mas aí veio o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff, depois de tentativas de solapar os governos de Lula. Para ela, por trás das investidas contra o PT, além de um pesado preconceito de classe, houve o desejo de retomar a agenda neoliberal.

“A elite tolerou o governo Lula, mas nunca aceitou Lula como presidente, pela figura dele, o metalúrgico, trabalhador, iletrado”, defende. A ofensiva contra a gestão do petista não vingou e ele terminou o mandato com mais de 80% de aprovação, conseguindo eleger a sucessora. Em 2014, contudo, os tucanos achavam que iam voltar ao governo, o que não aconteceu pelo voto popular.

“Quem de fato tinha interesse no golpe era os que queriam parar a Lava Jato e os tucanos, que queriam voltar ao poder para retomar o programa liberal. (...) Se a elite tivesse algum apreço pela democracia, pelas instituições, ao invés de derrubar um governo como o do PT, iam tentar prolongar, para seguir na direção de reduzir as desigualdades”, avalia.

Finanças contra a democracia

Crítica da política econômica das gestões petistas, por entender não foram feitas mudanças estruturais, Leda reconhece que os programas sociais fizeram a diferença na vida das pessoas. “Eu achava que dava para fazer mais, mas ainda assim, apesar de não terem feito nenhuma revolução, apenas reduzido um pouco a desigualdade, veio o golpe”, afirma.

Na sua avaliação, qualquer elite “que fosse um pouco menos estúpida” compreenderia a importância de reduzir as desigualdades e estimularia ações nesse sentido. “O país está sempre sentado em cima de uma panela de pressão. As cidades vão ficando cada vez mais desiguais, a população vai crescendo, as carências vão aumentando em termos absolutos, e aí você vai gerando todo esse caos que temos hoje no país, com questões relacionadas ao tráfico, a organizações do tipo PCC, a milícias, violência urbana crescente. E aí você tem espaço para uma criatura como Bolsonaro”, associa.

Leda menciona que agrava esse caos o fato de as instituições estarem em frangalhos. “Que instituições respeitáveis temos hoje no país? Nenhuma. Você destruiu a credibilidade do Legislativo, com as denúncias de corrupção; do Executivo, porque o governo é ilegítimo; e do Judiciário.”

E qual o interesse do “mercado” nessa situação? “Hoje, o que acontece é que esse capitalismo tocado pelas finanças não precisa da democracia. Essa que é a verdade. Ele não está assentado na necessidade de uma desigualdade de renda menor, por exemplo, que faça a produção crescer. Ele está assentado em cima de direitos, em cima de capital fictício. Então ele vai numa direção em que não só tem nenhum compromisso com a democracia, como não precisa ter”, responde.

De acordo com a economista, apesar de ter preferência pela eleição de Alckmin ao Planalto, à medida que o tucano não cresceu nas pesquisas, o financismo não tem problemas em migrar seu apoio. “Ok, tá bom, a gente queria brincar de que éramos democráticos, mas, se não deu, vamos de Bolsonaro mesmo”, disse, concordando que democracia pode, afinal, atrapalhar a consolidação de medidas neoliberais impopulares, como a reforma da Previdência.

Desfecho

Nesse cenário, Leda não descarta que, caso o candidato do PT passe para o segundo turno com chances de vencer, os donos do dinheiro podem agir para impedir que o partido volte ao poder.

“Acho que eles farão alguma coisa, algum tapete eles vão puxar. Porque não faz sentido fazer toda essa lambança do golpe para depois entregar o governo de volta para o PT. De novo? Não, não. Então acho que vem alguma coisa por aí ou antes da eleição ou depois, depende de como as coisas vão caminhar”, encerrou, pessimista.

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