26 de set de 2018

Bolsonaro e o patriarcado (+ vídeo de Stephen Fry)


Não me admiro com a popularidade do Bolsonaro. Surpreendo-me com que não haja ainda mais eco. Muitas são as razões de sua força, até porque, o tipo de voto do espectro político de seus simpatizantes é o mais fácil de ser conquistado. Ele não depende de argumentos, basta despertar o preconceito que já temos em forma latente.

Gostamos de filmes de máfia porque esse funcionamento social simples que é proposto nos agrada: um pai poderoso, aparentemente amoroso e certamente violento, que decide por todos e sempre sabe do que a família necessita, independente do que seus membros pensem a respeito. No automático, nossa cabeça vai direto aos estereótipos do sentimento de família, aliás de uma família dita tradicional, que se alguma vez existiu, tendia facilmente a ser um ambiente tóxico.

Busca-se o alívio de imaginar-se como membro de um grupo de iguais, supostamente melhores que os outros, obviamente, pois para delimitar um conjunto é preciso que os excluídos dele façam o papel de borda externa. Por isso tanta popularidade da oposição fácil entre o nós e os outros. É confortável pois não é preciso refletir, seria só pertencer. Assim são as paixões futebolísticas, assim pode ser a política feita com o fígado, tanto à direita quanto à esquerda. A válvula do ódio ao diferente abre fácil.

Acredito que boa parte dos votos de Bolsonaro são de gratidão pelo seu machismo e homofobia explícitos. O declínio do patriarcado foi a revolução mais bem sucedida do século XX. O mundo onde as mulheres não tinham voz nem poder afunda aos poucos, mas inexoravelmente. É um abalo sísmico lento e sistemático, sacudindo os papéis de gênero e diluindo o binário homem/mulher como referência de identidades únicas.

Normal a reação, pairam saudades do tempo das certezas, mesmo que forjadas à base da coerção: quem era homem era homem, ou melhor fingia ser da melhor forma que pudesse; quem era mulher era mulher e ficava-se bem quietinha para corresponder ao papel. Até para algumas delas, acomodadas à vida de velas ao vento, a liberdade é um motor que temem operar.

Machistas de ambos os gêneros partilham a sensação de que hoje o mundo estaria perdido com essa proliferação de siglas sobre gêneros que nem sabem o que é. Imaginam a diversidade como falha moral e ultraje ao bom senso. Essa diversidade sempre existiu, mandá-la de volta às sombras não vai extingui-la, só vai conseguir ceifar  vidas e gorar inúmeros destinos.

Esse voto é a nostalgia de um passado tranquilo, que aliás, existe apenas na imaginação. Envelhecemos e vamos editando nossas memórias, esquecemos o ruim e inventamos algo mais palatável. Afinal, se essa foi e será nossa única vida, como não teria sido a melhor havida e por haver?

Bolsonaro nos conecta com a falácia dos “bons tempos” idealizados, das falsas certezas de gênero e da idealização da família tradicional. É tributário da saudades dos pais que supostamente sabiam tudo. Esse voto tem o cheiro das tardes fagueiras, à sombra das laranjeiras de Casimiro de Abreu, e de tudo que – para nossa sorte – os anos não trazem mais. Ou pelo menos seria bom que não trouxessem.

É um voto que reinventa um passado para fazer cessar um presente que causa angústia. É um voto do filho que espera a benção paterna, que quer a mulher-mãe recatada e do lar de volta à cozinha. É o voto de quem acredita que os problemas resolvem-se com um pai que puna severamente. Especialmente, é o voto de que “tudo isso que não presta” – ou seja, tudo aquilo que me inquieta – fique confinado no armário, se não eliminado. Os ódios, quando são obsessivos, nos desvelam.“

Mário Corso, psicanalista



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