20 de set de 2018

A mídia alemã chama Bolsonaro do que ele é

Ele
B O L O R A S N O

Eu já disse que o candidato protofascista é conhecido fora do Brasil? Pois fica dito agora. E não só por causa das eleições deste ano, mas desde maio de 2016.

Em matéria intitulada “Rebelião dos hipócritas” (Aufstand der Scheinheiligen), sobre a votação do impeachment no Congresso Nacional, a revista Der Spiegel ofereceu ao público germânico o seguinte destaque sobre certo deputado: “A maioria apelou a Deus e à família. [Ele] chegou a defender, com palavras inflamadas, um dos piores torturadores da ditadura militar”.

Só não me vi morto ao ler isso porque ainda estou vivo. O deputado em questão, claro, é o nosso BolorAsno.

A mesma matéria mostra o vínculo entre ele e Eduardo Cunha, seu aliado na charlatanice e nos fins. “Que Deus tenha misericórdia dessa nação!”, a prece dita por Cunha, ao proferir seu voto, foi pinçada para ressaltar o avanço das igrejas evangélicas nos assuntos políticos do Brasil. Diz o jornalista que aquele voto reflete a “hipocrisia inerente a muitos desses pregadores”, já que o “evangélico Cunha” era “acusado de corrupção no Supremo…”, “milhões em propinas…”, “contas na Suíça…”, reticências mil.

Sosseguem que não pretendo me deter nesse quadro nefasto. Minto. Sou obrigado a me deter nesse quadro nefasto.

Dou apenas duas palavrinhas sobre o já internacional retrato desse brasileiro tão antigo e tão contemporâneo, o retrato de BolorAsno, o qual ameaçam pendurar na parede oficial. Não são poucas as caretas que o retrato provoca aqui, no hemisfério de cima. Se isso não muda nada, nem converte uma atitude vacilante perante a urna próxima, fica ao menos a advertência de um país que já bebeu de veneno semelhante.

A Alemanha percebe todas as emanações do fascismo. O futuro próximo do Brasil tem aparecido nos cadernos de economia – e os contornos são os mais sinistros.

Em “O Fascista Popular” (Der populäre Faschist) , o conceituado jornal Handelsblatt, especializado em política econômica, alerta explicitamente que BolorAsno tem atrás de si grupos relevantes de eleitores: além dos evangélicos e militares, o candidato tem “fãs nas classes altas”, camada social em que há certo “saudosismo dos tempos bons da ditadura militar”. E, vejam isso, o jornal afirma ainda que tais adeptos “não estariam nem aí se [o candidato] executasse seus oponentes políticos” ou que “como presidente, lotasse os ministérios com militares”. Por fim, faz uma exortação à própria imprensa alemã: “Para nós, jornalistas e correspondentes, isto significa que devemos começar lentamente a levá-lo a sério”.

A matéria mais detalhada, até o momento, é do jornal Zeit. Em “O Grande Show da corrupção” (Die große Korruptionsshow), o jornal tentou resumir a situação do Brasil. O cenário político brasileiro foi comparado a uma telenovela. O ex-presidente Lula ainda não havia sido preso: “O candidato favorito à Presidência deve ir para a cadeia, o titular do cargo é um corrupto denunciado e o maior beneficiário é um fascista”. O jornal explica ao leitor alemão quem seria esse tal BolorAsno: “é um veterano da política brasileira, homem de extrema direita que gosta de fazer o papel de palhaço político”. Curriculum vitae: “Racismo, homofobia, simpatia pela ditadura, pela tortura, idéias abertamente fascistas: nele há tudo isso”.

A tudo isso acrescenta-se a misoginia que, em alemão, “frauenfeindlich”, é uma palavra muito fácil de ser compreendida: inimigo das mulheres, avesso e hostil a elas, anti-mulher. Largamente exemplificada na imprensa alemã, a misoginia de BolorAsno aparece por meio de suas declarações sobre certa “fraquejada” por ser pai de menina, ou sobre a razão pela qual as mulheres devem receber menores salários e, claro, o caso das mulheres que não gozam do “merecimento” de serem estupradas. O jornal NZZ chegou a fazer uma lista com essas declarações, precedida da advertência aos leitores: elas são difíceis de digerir.

Em termos de política econômica, o jornal TAZ diz, BolorAsno mantém-se “enigmático” e apenas gosta de reiterar a máxima de mais mercado e menos Estado, prometendo privatizações para fisgar mais votos no círculo empresarial. A imprensa alemã é unânime em alertar que os empresários brasileiros podem até sonhar com uma política liberal, mas que irão se frustrar, pois se os militares tomarem o poder, provavelmente não privatizarão coisa nenhuma. O orgulho nacionalista dos militares dificilmente permitiria isso.

O Süddeutsche Zeitung afirma categoricamente que BolorAsno é um “demagogo”, e que seu segundo nome, Messias, se encaixa bem em sua “autoencenação” de cristão, homem do povo, duro, mas honesto, incorruptível. O jornal ressalta: “fora o zelo ultracatólico, tudo o mais é mentira”. BolorAsno possui uma dúzia de propriedades de luxo, denuncia o jornal, as quais, “nem sob jejum”, poderia comprar com seus rendimentos de parlamentar. Classifica ainda como “bizarro” o apoio dos brasileiros mais ricos e mais bem educados a BolorAsno. Por fim, espera que até outubro as pessoas percebam que “cada voto neste Messias da direita seria um voto contra a democracia”.

Com essa imagem mítica, confirmada a vitória de BolorAsno, qual será a entrada do Brasil no cenário internacional nos próximos anos? A mesma que a atual: nenhuma.

Percebam que, ao contrário do que ocorre na cordialíssima imprensa brasileira, para os jornais alemães, BolorAsno não é polêmico, não é controverso, não é politicamente incorreto. A polêmica é o território onde cabe a divergência e o argumento. Entre os alemães, não há qualquer hesitação, os jornais não relativizam coisa alguma, todas as matérias que citam BolorAsno dizem que ele é o que é: populista, racista, demagogo, machista, palhaço, homofóbico, fascista.

E como poderia ser diferente? O que dizer de alguém que, na prova dos nove, fora o “J”, só traz em si as letras da ira? O que pensar sobre quem carrega o bolor e o asno no sobrenome? Com todo o respeito aos fungos e aos quadrúpedes, que nada fizeram para ser depreciados pela língua humana, BolorAsno é exatamente o que diz o nome: essa cavalgadura de ideias mofadas. Cavalo troiano sem nenhum aspecto de oferenda.

A propósito, sobre a questão do nome, vejam a que ponto chegamos. A despeito da coalizão contra o mau agouro, a intimidação é tão real e tão presente e tão próxima, que somos agora obrigados a lançar mão de trocadilhos e anagramas para fazer menção ao protofascista. Não seria isso, por si só, a confirmação do terror que já nos tem abatido? Ou será uma miragem?

O que vejo são bestas no cio, condecoradas e entrépidas, arvorando-se a priori em queixas contra as urnas, chorando e falando em autogolpe, desejando uma Constituição sem povo. Perante as instâncias superiores de qualquer Estado Democrático de Direito, essa ameaça – e não qualquer ameaça; uma ameaça sem focinheira – já seria motivo mais que suficiente para a impugnação da sórdida campanha e da chapa. Mas parece que estamos mesmo dispostos a respeitar o cio…

Enquanto isso, eles raspam o reto no que restou da parede da democracia, a ver se abrem a passagem definitiva para o corpo inteiro.

Berlim, 17 de setembro de 2018.

Antonio Salvador, Escritor e jurista – Humboldt-Universität zu Berlin.

*Texto escrito originalmente para a coluna “O Coice”.


** “Der Befreier” (1946), a imensa escultura no Memorial de Guerra, em Treptower Park, Berlim, é o maior monumento alemão a ostentar uma suástica nazista pisoteada e destruída.

#elenunca #elenão

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