2 de set de 2018

A batalha contra a ultradireita: o terreno da luta de classes e a dimensão cultural


As situações nacional e internacional estão marcadas pelo fortalecimento de distintas expressões da direita. Sua expressão no Brasil nos permite debater em profundidade o significado da ultradireita, e como combate-la. A polarização social crescente é uma marca que se fez presente em vários fenômenos políticos recentes.

Esse processo não é conjuntural. Trata-se de uma consequência da crise orgânica aberta em distintos países do mundo, como subproduto da combinação de distintos fatores, que englobam o processo de decadência história da hegemonia norte-americana, e os feitos da crise capitalista internacional aberta em 2008. Assim, a crise orgânica entendida de acordo com a formulação dada por Gramsci tem sido responsável pela crise de autoridade, e pela brecha cada vez maior entre representantes e representados, o que pode abrir caminho para “soluções de força e novas formas de pensar”.

Essas tendências se apresentaram com força no Brasil, e alentaram o golpe institucional de 2016, que retirou do poder Dilma Roussef. O PT, que abriu o caminho para a direita ao privilegiar os acordos com os mesmos golpistas, foi por conta disso parte ativa da abertura de espaço para a ascensão da direita. Desde então, através de um profundo bonapartismo de toga, juízes extremamente privilegiados, que não foram eleitos e não são controlados por ninguém, passaram a atuar cerceando crescentemente os direitos democráticos elementares dos trabalhadores e do povo. O mais recente ato do autoritarismo judiciário veio com a resolução do TSE de negar o direito de Lula ser candidato, justamente porque esse lidera as pesquisas de opinião com mais de 40% de intenções de voto.

Mas hoje vê-se que os efeitos das desventuras golpistas foram no mínimo contraditórios. Como produto da crise orgânica, que corroeu ao mesmo parcialmente o apelo dos partidos tradicionais e seus representantes entre as massas, o candidato à presidência do PSDB não conseguiu até o momento instalar-se como favorito. Temos ao contrário visto acumularem-se memes, essa nova forma de expressão da consciência popular trazida pelas redes sociais, que retratam e ironizam sua dificuldade em firmar-se como uma variante que realmente está concorrendo para vencer. Claro que em uma situação política como a que se apoderou do Brasil até outubro, quando o pleito deve ocorrer, o tempo equivalerá a algo muito superior aos poucos meses que nos separam das eleições, e em meio a isso grandes transformações não podem jamais ser descartadas. Porém, as tendências atuais não apontam nesse sentido.

Assim, se houve algo relevante que resultou da Lava Jato, além da proscrição de Lula e de seu fortalecimento imprevisto para os golpistas, foi a falência do PSDB como porta-voz da direita neoliberal, e a conformação de uma nova direita. Dentre a nova direita também muitas vertentes surgiram. Há os ultraliberais que sintetizam suas posições em “mais Mises menos Marx”, hayekianos, burkeanos, liberais e ultraconservadores que somam até mesmo aos outrora aparentemente sepultados historicamente monarquistas. Muito embora essas vertentes tenham se popularizado relativamente em artigos, e na voz de youtubersalgo desconhecedores dos autores aos quais se referenciam, a expressão que mais ganhou base social é a ultra-direita que evoca um discurso fascista, ferozmente anticomunista, misógino, homofóbico e racista através da figura do presidenciável Jair Bolsonaro.

Bolsonaro que ocupa o segundo lugar nas principais pesquisas de intenção de voto, foi se tornando conhecido do grande público conforme a crise orgânica caminhava para se consolidar. Em verdade seu programa econômico e político dista muito do fascismo tradicional, cujo peso do estatismo era algo relevante. Bolsonaro elegeu como futuro ministro da economia, caso eleito, Paulo Guedes, um neoliberal clássico, que poderia exercer a mesma função em um governo do PSDB. Como destacou Demetrio Magnoli:

Na transição à candidatura presidencial, sob a influência de oráculos amargurados, Bolsonaro substituiu o manto de ultranacionalista, nostálgico do estatismo militar, pela fantasia de fanático ultraliberal. A passagem de lagarta a borboleta exigiu a “intervenção civil” de Paulo Guedes, um porta-estandarte do “Estado mínimo”. O economista-guru fez a vida nas salas da academia e nos escritórios de planejamento estratégico de bancos de investimentos. Transportado desses círculos etéreos para a dimensão pragmática das políticas públicas, esclareceu involuntariamente a antiga relação que a nossa direita mantém com a doutrina liberal.

As analogias com o fascismo encarnam-se nas posições de defesa do aumento da repressão estatal, replicando o bordão do senso comum “bandido bom é bandido morto”, e sendo um entusiasta da ditadura militar. Tendo como candidato a vice-presidente o general Hamilton Mourão, Bolsonaro se apoia e dá vazão ao senso comum de que o país estaria inserido no caos, e que os militares haveriam de dar uma saída à incerta situação. Ademais, os discursos contra todos os protagonistas dos movimentos democráticos que entraram em cena com força nas últimas décadas nacional e internacionalmente, tais como as mulheres, LGBTs e negros são alvo de ataques cotidianos por parte de Bolsonaro, cuja base chega numa operação ideológica que de tão simplista termina sendo complexa, a caracterizar grandes monopólios capitalistas como a Rede Globo ou políticos capitalistas como Fernando Henrique Cardoso de “comunista”.

Essa identificação algo rara e inédita entre FHC e o comunismo deriva de uma percepção propagada por Bolsonaro e repetida pela sua base de que a questão que separaria a esquerda da direita não seria mais advinda meramente das classes sociais, mas dos posicionamentos em relação às demandas democráticas. E aqui há uma separação dentro da “nova direita” da base de Bolsonaro com os ultraliberais, que levando a ferro e fogo suas posições de garantia de “direitos individuais” defendem por exemplo a liberação do direito ao aborto.

Essa forma de expressão da direita bolsonarista poderia ser analisada de acordo com o arcabouço conceitual legado por Theodor Adorno. A obra de Adorno, um dos expoentes da “Escola de Frankfurt”, ou “teoria crítica”, integrada também por Horkheimer e Marcuse, foi uma das mais relevantes durante a década de 1950 em se apropriar de conceitos da psicanálise para explicar o fenômeno social do fascismo. Adorno elaborou sobre opotencial de certos indivíduos para desenvolver uma “personalidade autoritária”. De acordo com ele a personalidade autoritária que combinava numa mesma pessoa uma postura racional e irracional levaria à constituição de uma personalidade individualista e marcada pelo “ódio ao outro”, mas ao mesmo tempo com uma forte propensão a se submeter à autoridade. Essa personalidade seria a derivação de uma sociedade dominada pela “razão instrumental”, isto é um tipo de razão voltada para o conhecimento técnico-instrumental na qual a crítica não pode existir, e na qual a submissão social se torna um valor.

Trabalhando com a noção da dialética negativa hegeliana, e marcado por um profundo pessimismo histórico, Adorno atribuirá à busca pelo incessante avanço das forças produtivas onúcleo fundamental do abandono da possibilidade de pensar criticamente, que transforma a submissão à ordem como valor fundamental. Isso forneceria para Adorno uma explicação sobre a contradição do nazi-fascismo ter surgido justamente na Alemanha, berço da filosofia contemporânea inspiradora de Marx, que como se sabe sempre se constituiu como um dos maiores entusiastas do progresso técnico e do avanço das forças produtivas. Enquanto para Marx esse avanço é justamente o que cria as condições objetivas para a superação da escravidão assalariada, para Adorno essa busca incessante pelo progresso seria um dos elementos que colaboraram para a ascensão do fascismo, ao lado da personalidade autoritária que não poderia ser explicada apenas pelas condições socioeconômicas em que esse indivíduo encontra-se inserido.

Na introdução de seu escrito A Personalidade Autoritária, Adorno dirá:

 A preocupação maior foi com o indivíduo potencialmente fascista, aquele cuja estrutura é tal que é capaz de torná-lo particularmente suscetível à propaganda antidemocrática. Dizemos “potencial” porque nós não estudamos indivíduos que eram confessadamente fascista ou que pertenciam a conhecidas organizações fascistas(…)  Se o indivíduo potencialmente fascista existe, com o que, precisamente ele se parece ? O que faz com que haja um pensamento antidemocrático ? E se tal pessoa existe, quais têm sido os determinantes e qual o curso de seu desenvolvimento ?(…)  O fascismo precisa ter uma base de massas, a fim de ser bem sucedido como movimento político. Ele precisa se assegurar não apenas da submissão aterrorizada mas da cooperação ativa da grande maioria da população. Dado que por sua própria natureza ele favorece uns poucos às custas da maioria, ele provavelmente não pode demonstrar que vai melhorar a situação dessa última servindo a seus reais interesses. Desse modo precisar dirigir seus maiores apelos não aosinteresses racionais mas às necessidades emocionais, muitas vezes aos desejos e medos mais primitivos e irracionais. Argüindo que a propaganda fascista engana as pessoas fazendo-as crer que sua sorte vai melhorar, surge então a questão: Por que elas são tão facilmente enganadas? Podemos pensar que é por causa de sua estrutura de personalidade; por causa de modelos de esperança e aspirações, medos e ansiedades há muito tempo estabelecidos, que as predispõem a certas crenças e as tornam resistentes a outras.

Há aqui por parte de Adorno uma tentativa de criar um arquétipo de personalidade para a explicação do fenômeno do fascismo, que passaria de um modo latente para uma expressão ativa a partir do ambiente cultural que se deflagra como subproduto de determinadas situações, marcadas pela incerteza e pela crise. No caso concreto do Brasil é uma imagem que já se tornou um lugar comum: imaginamos um indivíduo frustrado, assustado com as perspectivas de futuro, algumas vezes um ex-eleitor do PT detrás de um computador revolvendo-se em posts misóginos, direitistas e clamando pelo seu direito de assassinar “vagabundos”. Tal imagem poderia perfeitamente encaixar-se nos escritos de Adorno de mais de 50 anos atrás, como um exemplar da “personalidade autoritária”.

Essa abordagem adorniana embora não seja a resposta clássica dos setores da esquerda brasileira, influi entre parte dos escritos que se dedicaram a analisar a questão do fascismo e da ultradireita. Uma delas é a coletânea A Onda Conservadora, que traz vários artigos, elaborados por distintos autores, e tem sido uma expressão utilizada para caracterizar o surgimento de uma nova direita no país. Dentre os quais encontra-se um elaborado por Álvaro Bianchi, intitulado A Guerra que estamos perdendo durante o período que seguiu-se ao golpe institucional de 2016, que coloca um aspecto particular, que queremos ressaltar. Trata-se do fundamento cultural da ultradireita, ao afirmar que:

É no terreno da cultura que as correntes tradicionalistas, conservadoras, liberais e fundamentalistas estão ganhando a guerra. O sistema de significações que organiza e dá sentido aos modos de vida existentes na sociedade adquire crescentemente características que produzem e reproduzem a heteronomia no lugar da autonomia, a sujeição no lugar da emancipação, o consumo no lugar da fruição. Ninguém expressa isso melhor do que a indústria cultural. O funk ostentação, o sertanejo universitário, os livros de Paulo Coelho e as pinturas de Romero Britto levam a mesma mensagem a diferentes públicos. (…)Expressões legítimas da cultura popular-periférica das grandes cidades convivem em tensão com manifestações orientadas em um sentido inverso.

Uma das questões que se colocam frente a tais interpretações do surgimento da ultradireita é o problema de que a personalidade autoritária seria um arquétipo que ilustra bem o fenômeno atual da base de Bolsonaro, e dele próprio. Mas essa personalidade não pode ser apreendida por fora de seu pertencimento a uma determinada classe social.Além disso, achave da questão reside na concatenação entre os terrenos de batalha a ser travado contra o fortalecimento nas dimensões ideológicas ou“culturais”, como chama Alvaro Bianchi, com uma resposta da classe trabalhadora para a crise social, econômica e política. Não se pode entender que seria possível ganhar a “guerra”, que na visão de Bianchi estaria sendo perdida, por fora de uma clara resposta anticapitalista e dos trabalhadores. A própria noção de que a ultradireita estaria ganhando a guerra, sem que os combates determinantes tenham sido sequer travados, é no mínimo equivocada, sobretudo quando hoje o cenário se marca pela disposição de 40% dos brasileiros em votar num candidato proscrito, motivados pelo anseio ao retorno das condições de crescimento gradualistas, e portanto reformistas, apontam outro cenário.

Portanto, ainda que as dimensões analíticas adornianas, ou os aspectos culturais, possam indicar elementos interessantes para a reflexão sobre a ultradireita e o fascismo, as abordagens que trataram esse fenômeno como um produto da subjetividade em especial da pequena burguesia arruinada em meio à crise, e como uma derivação da luta de classes segue sendo imprescindível. Dentre essas interpretações a de Trotsky continua sendo fundamental. Analisando o avanço do bonapartismo na França em 1936, Trotsky fornece uma leitura profunda a respeito desses aspectos, não apenas para explicar o surgimento do fascismo, mas para combate-lo. A ascensão do fascismo é para Trotsky o produto de uma intensa crise econômica e social, como a que devastou a Alemanha nos anos 20 e 30, que desmoraliza e desestabiliza as classes médias, a pequena-burguesia. Quando isso acontece, e a pequena-burguesia se empobrece e se desespera, essa classe passa a buscar uma solução imediata e de força. Abre mão da defesa da democracia como “valor universal” e se divide. Se há um partido marxista revolucionário os trabalhadores podem ganhar parte da pequena burguesia. Mas se não há, o caminho fica livre para que o grande capital financeiro instrumentalize a pequena-burguesia para os seus próprios fins, que é salvar o capitalismo a todo custo. Assim, o capital financeiro em forma reacionária lança a pequena-burguesia arruinada contra as organizações operárias, para assim instituir a sua dominação. Trata-se da resposta contrarrevolucionária (posterior ou preventiva) frente a revolução proletária e expressavam um ataque em toda a linha contra o movimento operário e suas organizações. Ou em outras palavras como diz o próprio Trotsky o partido nazifascista é o partido da desesperança contrarrevolucionária.

Os especialistas do Parlamento, que acreditam conhecer o povo, gostam de repetir: “Não se deve assustar as classes médias com a revolução; elas não gostam de extremos.” Generalizada desta forma, a afirmação é absolutamente falsa. Naturalmente, o pequeno proprietário tende à ordem, enquanto seus negócios marcham bem e enquanto tem a esperança de que marchem ainda melhor. Porém, quando perde essa esperança, é facilmente atacado pela raiva e se dispõe a abandonar-se a medidas mais extremas. Do contrário, como teria podido derrotar o Estado democrático e conduzir o fascismo ao poder na Itália e na Alemanha? Os pequenos burgueses desesperados vêem no fascismo, antes de tudo, uma força que combate o grande capital, e acreditam que, diferentemente dos partidos operários, que trabalham somente com a língua, o fascismo utilizará os punhos para impor mais “justiça”.

A isso Trotsky seguia com uma definição extremamente atual, de que se a classe trabalhadora demonstrar a mesma resolução em responder à crise econômica, política e social, se seu partido for capaz de convencer as grandes massas de classe média arruinadas, estas estarão dispostas a segui-lo. Não se pode, decerto, comparar a situação brasileira atual àquelas em que essa disjuntiva se deu, como na própria Alemanha nos anos 1930, com a perda dessa possibilidade por parte do PC, ou à situação russa, na qual a existência de uma direção marxista revolucionária que soube traduzir os mais concretos anseios de todos os setores que sofriam as mazelas da guerra em palavras de ordem claras tornando possível o maior triunfo histórico da classe trabalhadora internacional. E não houve hoje em nosso país quaisquer ataques às organizações operárias, como os sindicatos, tentando destruí-los inclusive fisicamente como ocorreu frequentemente durante o auge do nazi-fascismo nos anos 30 do século passado.Mas mesmo em momentos como o atual em que nosso país está imerso, as lições e a leitura da psicologia das massas elaborada por Trotsky traduz com grande exatidão e vigência a percepção de que a consciência em momentos convulsivos se transforma aos saltos, não sendo algo estagnado, ou meramente disputável no terreno cultural. Mas na luta de classes.

Simone Ishibashi
No Ideias de Esquerda

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