2 de ago de 2018

Tuiuti 2019 – Lula e o bode


Impossível não retornar à escola de samba Paraíso do Tuiuti, não pela coragem de fazer um desfile historicamente perfeito neste ano (2018). Teve, além de tudo, a coragem de fazer a crítica que era necessária em um momento do país que acabou lavando a alma de quem compreende o processo histórico ao qual o país passa. A Tuiuti foi a primeira escola de samba a compreender que quem não escolhe lado, já escolheu o opressor.

Sob o sentido de como deseja ser lembrada para a história cultural do país, manteve-se coerente e continuou com a crítica política e social do país. Em 2019, decidiu atrelar a história do Bode Yôiô à Rachel de Queiroz, como se o bode tivesse chegado à Fortaleza com a família retirante do livro. Seria uma sinergia entre o real e o livro, já o bode existiu e pertencia a uma empresa britânica, vendido por retirantes que não podiam cuidar do animal.

“Pelas ruas de uma Fortaleza que se desejava chique que o bode, símbolo de uma cultura sertaneja que se queria suplantar, ganhou fama em suas idas e vindas diárias. Daí que se acredita vir seu famoso nome, Bode Ioiô. O caprino tinha livre trânsito pela cidade, sem ser incomodado pelos fiscais da Intendência, adentrando vários estabelecimentos comerciais, sobremaneira os cafés, onde desfrutava do carisma de muitos e de vários tipos de regalias. Era um bode boêmio”, descreve o Museu do Ceará.

O bode, muito querido pelo povo, usado como imagem de protesto nas eleições de 1922, quando o povo escreveu na sédula o nome do bode que, por incrível que pareca, venceu as eleições. O bode Yôiô viveu até 1932 e passou a fazer parte de diversos livros e contos do nordeste, se tornando um símbolo local.

É nesse contexto que surge a analogia direta entre a eleições deste ano. Os autores imprimiram na letra diversas alusões que nos faz entender que o maior homenageado no samba é o ex-presidente Lula, representado no auterego do bode retirante que eleito, não assume. Por isso a sinopse do enredo diz, logo no primeiro parágrafo:

“Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo. Um herói da resistência!

Não posso provar, mas tenho total convicção da autenticidade de tudo o que a ele atribuíram.” (Trecho da Sinopse)
“Do nada um Bode vindo lá do interior
Destino pobre, nordestino sonhador
Vazou da fome, retirante ao Deus dará
Soprou as chamas do dragão do mar” (Trecho da Letra)
A letra, inclusive, faz alusão a eleição que ainda virá, como uma forma de demonstrar o que acham que ocorrerá esse ano, lembrando que o desfile será no ano que vem, logo depois do novo presidente assumir.
“Quando clareou o resultado
Tava o bode ali sentado aclamado vencedor
Nem berrar, berrou, sequer assumiu
Isso aqui iô iô é um pouquinho de Brasil”
Ainda retoma a temática do golpe de 2016 e o que restou ao brasileiro, tema abordado na letra e na sinopse, demonstrando que estará bem presente na avenida:
“Vendeu-se o Brasil num palanque da praça
E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça…
Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue
E o homem servil verteu lágrimas de sangue” (Trecho da Letra)
“Com um cenário governamental mais parecido com um covil repleto de animais nocivos ao interesse público e a feérica intervenção de aculturamento, a insatisfação popular só crescia. Até que a resposta do povaréu veio em forma de protesto no mais inesperado momento: nas eleições. Ao abrir a urna eleitoral se ouviu o berro do povo escrito nos votos que elegeram o bode Ioiô para vereador na Câmara Municipal de Fortaleza.” (Trecho da Sinopse)

Entre outras análises, há a possibilidade de analogia às eleições de 1989, quando Lula venceu ou venceria as eleições e foi roubado pela Globo em armações como o sequestro do empresário Roberto Medina e a edição do debate com Collor. Lula, que vinha em ascensão e estaria na frente, no dia pleito, acabou tendo a trajetória de virada freada pelo golpe da Globo. Essa análise tem como base o trecho: “Quando clareou o resultado, Tava o bode ali sentado aclamado vencedor, Nem berrar, berrou, sequer assumiu, Isso aqui iô iô é um pouquinho de Brasil”

SINOPSE COMPLETA

O SALVADOR DA PÁTRIA

Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo. Um herói da resistência!

Não posso provar, mas tenho total convicção da autenticidade de tudo o que a ele atribuíram.

Não se sabe muito bem de qual paragem veio aquele cabra, ou melhor, bode. Dizem que era retirante da grande seca no sertão cearense imortalizada pela escritora Rachel de Queiróz, em O Quinze. Naqueles tempos de República quase balzaquiana, o Governo interceptava as procissões de fugitivos da miséria. Com medo de uma invasão furiosa, devido à fome que consumia aqueles esquecidos teimosos em se fazerem lembrar, pastorava o povaréu num campo de concentração antes que chegassem até a cidade. Porém, como o sertanejo é, acima de tudo, um forte, quando viu a terra ardendo e sentiu a baforada do Zé Maria no cangote o bode bumbou até Fortaleza com a coragem e a cara.

Penou, mas chegou.

Sentiu a brisa fresca do litoral acariciar aquela carcaça sofrida, castigada. Deixou para trás o passado capiongo, quando foi comprado por José de Magalhães Porto, representante do industrial Delmiro Gouveia, correspondente da empresa britânica que comercializava couros, peles, sementes de algodão e borracha, a Rossbach Brazil Company, localizada na Rua Dragão do Mar, Praia do Peixe. Dali virou mascote com direito à liberdade de ir e vir que, aliás, era bem praticada. Apreciava o movimento de barcos e jangadas enquanto perambulava entre os pescadores e seguia o aroma dos tabuleiros das merendeiras, tanto que os populares da região logo se afeiçoaram ao bichim. Dizem até ter remoçado em sua nova vida à beira-mar.

Ao cair da tarde, arribava pra Praça do Ferreira sassaricar com os artistas e intelectuais, herdeiros da Padaria Espiritual, no Café Java. Os boêmios acreditavam ser o poeta Paulo Laranjeira, reencarnado depois que o cabrão reagiu ao ouvir uma composição feita pelo desencarnado em homenagem a sua decepção amorosa. Desde então, o bode caiu nos braços da boemia. Bebericava, pitava, serestava pelas ruas, vielas e mafuás, botando boneco noite a fora.

De tanto vai e vem passou a ser chamado de Ioiô.

E lá se ia o bode Ioiô bater seus cascos Belle Époque alencariana adentro, sem a menor cerimônia, entre as modas copiadas do estrangeiro pelas “pessoas de bem” da sociedade. Passeou de bonde elétrico, frequentou o Theatro José de Alencar, participou de saraus literários e até comeu a fita inaugural do Cine Moderno.

Sentiu as Mademoiselles espilicutes exalando um perfume de civilidade europeia quando saíam da Maison Art-Nouveau em direção ao Passeio Público. Doce aroma que era constantemente interrompido pelo peculiar cheirinho de certo bode que dava rabissaca pro Código de Conduta imposto que, dentre muitas medidas disciplinadoras, proibia animais soltos nas ruas. Um Dândi sertanejo tão incômodo como as camadas pobres e marginalizadas as quais o poder desejava esconder por debaixo dos tapetes chiques para não atrapalharem o savoir-vivre nas avenidas, confeitarias, jardins, clubes e salões. Assim, velhos hábitos considerados de gente subdesenvolvida deveriam ser substituídos por novos costumes, os bons modos. Tanto cidade quanto população careciam ser modificadas, remodeladas num choque de aformoseamento. Afinal, para a elite, as maravilhas do mundo moderno não harmonizavam com a matutice do povo.

Povo, aliás, que já era mamulengo nas mãos dos poderosos, há muito tempo. A política republicana havia herdado antigos sistemas coloniais que se consolidaram em influentes famílias tradicionais e no domínio dos coronéis latifundiários, pois a prática do “manda quem pode e obedece quem tem juízo” era um tiro certeiro. Cabia à população ser tratada como gado trazido em cabresto curto, quais as aves de rapina direcionavam para onde quisessem, e cativos em currais eleitorais para que ela mesma sustentasse o sistema que a prejudicava.

Com um cenário governamental mais parecido com um covil repleto de animais nocivos ao interesse público e a feérica intervenção de aculturamento, a insatisfação popular só crescia. Até que a resposta do povaréu veio em forma de protesto no mais inesperado momento: nas eleições. Ao abrir a urna eleitoral se ouviu o berro do povo escrito nos votos que elegeram o bode Ioiô para vereador na Câmara Municipal de Fortaleza. Um deboche com os poderosos. Molecagem porreta! Sem ter feito campanha um animal ruminante era eleito pelo povo como seu representante! E, de fato, há muito já era um símbolo da identificação sertaneja que a elite (ameaçada pelas cédulas de papel) queria suprimir.

Contam que o fuá já estava instalado quando os poderosos articularam um golpe para que o bode Ioiô sofresse um impedimento e não assumisse o cargo ao qual foi eleito legitimamente, em processo democrático. Porém, a justificativa jurídica de incompatibilidade de espécie não livrou os políticos daquele vexame retumbante e só alimentou o monstro: Ioiô saiu da vida pública para entrar na história.

O bode mitou. Até hoje seus admiradores o defendem como ícone de empoderamento popular, representatividade dos marginalizados. Segue comandando a revolução do inconformismo seja nas lembranças dos memorialistas, nos cordéis, nos livros, na sala de um museu ou pelos blocos carnavalescos. Ioiô é a imagem da resiliência de um povo que faz graça até da própria desgraça e, com esse jeitinho inigualável, nos revela o genuíno salvador da nossa pátria: o bom humor.

[Isso aqui, Ioiô, foi um pouquinho de Brasil].

Lembrete: Votar em animais é e sempre será possível.

Jack Vasconcelos
carnavalesco



No A Postagem

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.