4 de ago de 2018

Sejamos portugueses

“Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal...” Quando Chico Buarque escreveu isto, Portugal era o país mais atrasado da Europa, vivendo o rescaldo do salazarismo, com um fascismo tacanho ainda no poder, e a terra cujo ideal era imitar Portugal era o Brasil dos generais. Anos depois o mesmo Chico cantaria a vitória da Revolução dos Cravos (“Foi bonita a festa, pá...”) que restabeleceu a democracia no país.

Hoje Portugal é a inveja da Europa. Ainda tem uma dívida horrenda e o poder é compartilhado por uma coligação de esquerda e direita, com predomínio da esquerda, que justamente por depender de alianças díspares é precária. Mas ninguém está se queixando. Lisboa quase empata com Paris no número de turistas. A vida cultural fervilha. Os negócios vão bem, os empregos e a renda crescem (o “New York Times” há dias chamou o que acontece lá de “milagre português”) — enfim, só falta outra canção do Chico para celebrar o momento. E tudo isto é fruto de uma escolha.

Há anos assisti a uma peça em Nova York. Uma comédia sem importância da qual não me lembro nada, salvo uma frase. Alguém, brandindo um copo cheio de champanhe, diz:

— Sejamos todos espanhóis, a vida é muito curta para sermos gregos.

Substitua-se “espanhóis” por “portugueses” e temos a explicação do milagre. Portugal escolheu não ser a Grécia, sufocada pelas exigências de austeridade do FMI e da banca internacional sem nenhum proveito aparente. Escolheu não sacrificar seu povo por uma ortodoxia fiscal que não dá certo, não cortar programas sociais e repelir a austeridade.

A Grécia não teve escolha. Teve seu momento de rebeldia com a eleição de um governo de esquerda que negociaria a dívida com os credores com um mínimo de altivez, só para ouvir a madame que dirige o FMI compará-los a crianças birrentas. A escolha de Portugal talvez não dure, mas por um instante se teve um vislumbre de outro mundo possível. As crianças tinham razão.

Luís Fernando Veríssimo

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