24 de ago de 2018

Procurador Marco Aurélio Dutra Aydos coloca o MPF na ante-sala do fascismo


O Ministério Público Federal, através do procurador da República Marco Aurélio Dutra Aydos deu um passo relevante na direção do estado de exceção do país, especialmente nos estados do sul. Denunciou o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Ubaldo Cesar Balthazar por não ter impedido “manifestantes não identificados” de “ofender a honra funcional da Representante Delegada da Polícia Federal Érika Mialik Marena, através de uma faixa que imputava a ela a responsabilidade pelo suicídio do reitor Cancellier.

Os dois pedaços da faixa salientados pelo procurador apontavam “agentes públicos que praticaram abuso de Poder contra a UFSC e que levou ao suicídio o reitor”. E pediam “apuração e punição dos envolvidos e reparação dos malfeitos”;

Segundo a inacreditável peça de acusação:

“A faixa acima reproduzida em detalhe inequivocamente ofende a honra funcional subjetiva da Representante, dando causa injustamente a diminuição do sentimento pessoal de autoestima, eis que publicamente caracterizada pela qualidade negativa de “agente público que pratica abuso de poder” e necessita de “punição” para “reparação dos [seus] malfeitos”. A injúria relaciona-se também inequivocamente ao desempenho funcional da Representante, em razão de investigação denominada Operação Ouvidos Moucos, envolvendo gestores da Universidade, entre os quais o ex-Reitor Cancellier.

Diante de tal situação, competia ao acusado, na condição de autoridade de primeira hierarquia da Administração universitária presente na solenidade, exercitar regularmente o poder de polícia administrativo que coibisse o malferimento à honra funcional dos servidores públicos retratados na faixa, sendo-lhe exigível dever jurídico positivo de imediatamente retirar, ou mandar retirar, a faixa exposta naquela cerimônia oficial por ato de terceiros”.

Denunciou também o chefe de gabinete do Reitor, Áureo Mafra de Moraes, que “consentiu em deixar-se fotografar/filmar em frente a faixa injuriosa, como cenário de sua manifestação naquele evento, conferindo, consciente e dolosamente, caráter oficial à injúria ali perpetrada, como mostra o momento 0:51-0:56 do vídeo postado pela TV UFSC, reproduzido, em detalhe extraído da Figura 03 do Laudo 351/2018-SETEC/SR/PF/SC”.

Não sei quando irão parar esses abusos. O Conselho Nacional do Ministério Público e a Procuradoria Geral da República não se manifestam contra esses atentados à liberdade de expressão. Antes, críticos da Lava Jato eram alvos de ações cíveis escandalosas, visando calá-los. Agora, dá-se um passo além com as denúncias criminais.

Como aconteceu ontem, em São Paulo, o próximo passo será a autofagia, procuradores denunciando procuradores em um clima de vale-tudo. É necessário que as instituições e chefias acordem para um processo que poderá se tornar incontrolável.

O procurador político

Em seu blog, o procurador ostenta, orgulhoso, sua foto nas manifestações de março de 2015 pelo impeachment. E publica um texto em que diz:

“Amores e ódios são intensos, apaixonados, instintivos, inconscientes: com certeza, na política, existem amores e ódios. Mas apenas uma política autoritária é tão reducionista, nem toda política precisa entronizar a dicotomia de amigo/inimigo. Melhor dizendo, apenas algumas políticas fazem isso, dizendo: quem não está comigo, está contra mim; ou, quem critica meu discurso de ódio, são, como diz Marilena Chauí, “os suspeitos de sempre”.

Descobri que me tornei suspeito. Mas qual terá sido meu crime ou pecadilho? Desconfio que meu crime – o nosso pecado, de classe média, está em querermos na política algo diferente da dicotomia de amor e ódio”.

Nesse período, procuradores começavam a atravessar o Rubicão, para se tornarem poderes individuais e autônomos. 

E, segundo o procurador

“Minha reflexão nasceu na marcha do dia 15 de março de 2015. Ao chegar em casa, pensei: essa foi uma marcha bem classe média. Tive clareza também que algo definitivo havia ocorrido no cenário político do Brasil. Morria um projeto antigo, abraçado com amor, com esperança, com a fé de que é capaz essa hoje odiosa classe média. Eu precisava compreender essa novidade. O novo na história sempre nos pega de surpresa, e reagimos intuitivamente”.

Depois de amadurecer seus diagnósticos, ele descobriu a contribuição que poderia dar à classe média: tornar-se um vingador, eliminando os inimigos com os poderes de Estado, levando o sentimento de ódio ao paroxismo de criminalizar a liberdade de expressão.

Arquivo


Luís Nassif
No GGN



Procurador da República ignora STF e denuncia reitor da UFSC

Desconsiderando uma antiga posição do Supremo Tribunal Federal (STF) que deixou claro, reiterada vezes “a impossibilidade de se coibir a manifestação política que venha, eventualmente, a constituir crítica ou ridicularização de pessoa pública, pela prevalência da liberdade de expressão”, o procurador da República no estado de Santa Catarina, Marco Aurélio Dutra Aydos, denunciou na quinta-feira (23/08) o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ubaldo Cesar Balthazar, e seu chefe de gabinete, Áureo Mafra de Moraes, por conta de manifestações de pessoas “não identificadas” que teriam ofendido a “honra funcional” da delegada da Polícia Federal, Érika Mialik Marena.

Na peça em que reclama de o reitor não exercer seu “poder de polícia”, o procurador o acusa de “autoria comissiva por omissão”. Já o chefe de gabinete é apontado por “autoria comissiva”. Aydos quer que eles respondam pelo crime de injúria (Art. 140 do Código Penal – CP) agravado duas vezes: por ter sido contra funcionário público e ocorrer na presença de várias pessoas, ou por meio que facilite a divulgação da injúria (itens II e III do Art. 141 do CP).

Ele ainda indica um outro agravo ao entender que os dois professores cometeram “violação do dever funcional” motivada pelo desejo de “facilitar … a impunidade” dos crimes apurados na Operação Ouvido Moucos. Diante disso, não admite que a pena – inicialmente de detenção entre 40 dias e oito meses -, seja transacionada para prestação de serviços, por que “tal medida não é suficiente para reprovação social da conduta.

O procurador responsabiliza os dois professores por não terem censurado a manifestação no campus universitário – ambiente propício a atos políticos. Diz que o reitor deveria exercer seu “poder de polícia”. Mais ainda, acusa-os de agirem assim para beneficiar quem estava sendo investigado pela Polícia Federal na malfadada Operação Ouvidos Moucos que provocou o suicídio do ex-reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, em outubro passado, após se sentir humilhado ao ser preso naquela investigação.

Ignorando o Supremo  – Ao apresentar esta denúncia, o procurador parece desconhecer que o STF, por diversas vezes, sustentou que não pode se considerar crime as críticas a agentes públicos. Isto consta, por exemplo, do voto da ministra Cármen Lúcia, atual presidente do STF, ao apreciar a Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.815, em junho de 2015, na decisão em que o Supremo afastou de vez a censura em biografias:
Este Supremo Tribunal Federal, nos últimos anos, decidiu, na Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 4.274, que, mesmo quando em jogo bem jurídico considerado de importância pelo legislador que poderia tornar crime aquilo que venha a lhe trazer risco, prevalece a liberdade de expressão. Nas Reclamações ns. 11.292, 15.243 e 16.074, Ministros do Supremo Tribunal Federal, em decisões monocráticas, apontaram a impossibilidade de se coibir a manifestação política que venha, eventualmente, a constituir crítica ou ridicularização de pessoa pública, pela prevalência da liberdade de expressão”. 

Para o delegado as críticas na faixa diminuíram a autoestima da delegada Érika.

Autoestima da delegada – Ao acusar os dois, o procurador diz que  a faixa com críticas “inequivocamente ofende a honra funcional subjetiva” da delegada, “dando causa injustamente a diminuição do sentimento pessoal de autoestima, eis que publicamente caracterizada pela qualidade negativa de “agente público que pratica abuso de poder” e necessita de “punição” para “reparação dos [seus] malfeitos”.”

Para ele, competia ao reitor, “na condição de autoridade de primeira hierarquia da Administração universitária presente na solenidade, exercitar regularmente o poder de polícia administrativo que coibisse o malferimento à honra funcional dos servidores públicos retratados na faixa, sendo-lhe exigível dever jurídico positivo de imediatamente retirar, ou mandar retirar, a faixa exposta naquela cerimônia oficial por ato de terceiros. Ao omitir-se de seu dever jurídico, o acusado atribuiu para si autoria da injúria ali perpetrada, não sendo relevante que não tenha sido ele quem tenha produzido a faixa ou determinado sua exposição durante tal cerimônia“.

Efeito multiplicador – O chefe de gabinete, segundo o procurador, “consentiu em deixar-se fotografar/filmar em frente a faixa injuriosa, como cenário de sua manifestação naquele evento, conferindo, consciente e dolosamente, caráter oficial à injúria ali perpetrada.” Para ele, “cientes de que a cerimônia era filmada pela TV UFSC, os acusados agravaram suas  condutas com causa de aumento de pena (…) por assumirem, consciente e dolosamente, o risco do efeito multiplicador do resultado, através de sua divulgação em vídeo oficial produzido pela TV UFSC e publicado no canal youtube no dia 18/12/2017, efeito multiplicador que se verifica pelo número de 147 visualizações, registrado em anexo à Informação 776/2017, em 27/12/2017, e o número aproximado de 10 mil visualizações registrado na data de ontem, 23/12/2018.”

Alega por fim que o efeito multiplicador repetiu-se “até recentemente” por causa de “reportagem na Folha de S. Paulo, de 27.jul.2018, com título “PF intima professor da UFSC após evento com críticas à polícia” . Pelo jeito, com a denúncia que ele apresentou, o efeito multiplicador voltará a funcionar.



Marcelo Auler

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