20 de ago de 2018

O estrategista do naufrágio

Victor, empresário de talento, buscava qualidade e pagava bem os empregados, sem escrúpulos ao lidar com os poderosos
Gigolô e Gigolette dançavam tango como se estivessem na Place Pigalle, era, porém, chão da villa da família Bonomi, enrolados os Bukara. O casal figurava a contento no papel, ele de calças pretas justas, camisa bufante à brisa dos rodopios, saltos carrapeta. Ela afinada de preto e branco, e de boina apache.

Convidado de Maria, filha dos senhores do casarão, eu estava lá e os murmúrios a cercarem aquele tango logo me disseram que ali estavam Victor e Silvana Civita, recém-chegados ao Brasil. Réveillon à fantasia, o deus Janus celebrava a passagem de 1951 para 52.

Ambrogio Bonomi, distinto cavalheiro milanês de perfil discreto, não era um barão ou um comissário do café, tampouco diretor da Fiesp ou banqueiro, conforme a praxe da Paulista. Civita, então com 44 anos, vinha a São Paulo na esteira do irmão Cesare, estabelecido em Buenos Aires desde 1946 a bordo de uma Abril argentina simbolizada por uma arvorezinha frondosa a significar primavera.

Os Civita não haviam percebido que abril, nas nossas latitudes, é mês da estação que despe os troncos das folhas amarelecidas.

De origem judia, no momento em que Mussolini se associou às leis raciais emanadas por Hitler, os Civita cuidaram de fugir para Nova York em 1938. Eram de família abastada e nos EUA tornaram-se sócios de uma fábrica de papelão. Cesare tinha uma experiência editorial importante, com 28 anos fora diretor da Mondadori, na época a maior editora italiana.

Além disso, não se dava bem na companhia de estadunidenses, e, tão logo a Segunda Guerra Mundial terminou, decidiu pôr à prova sua tarimba na Argentina. Teve êxito imediato e cinco anos depois, como sócio do irmão mais velho, Victor aportou no Brasil.

Gozavam de uma licença da Walt Disney para publicar as aventuras do infatigável camundongo e do pato patético, com a vantagem para Victor de promover o papagaio de palheta. Os bichos apontavam o caminho do sucesso.

Não foi rota única. Victor, empresário de talento, cultivava grandes planos, alimentados inicialmente pelas vendas fluviais das fotonovelas. Capricho tornou-se a revista de maior tiragem do Brasil, acima de 700 mil exemplares, Ilusão e Noturno não ficavam longe.

Veio em seguida Manequim, na qual Victor cuidara pessoalmente de inserir um molde, assim como dois anos depois na Quatro Rodas o mapa de viagem desdobrável, a bem de um turismo automobilístico que ainda não havia pintado. Foi quando Victor convidou meu irmão Luis para assumir a direção editorial da Abril.

Moro em Roma e no começo de dezembro de 1959 Civita me liga, propõe almoçarmos. “Vou lançar uma revista de automóveis, vai chamar-se Quatro Rodas e seu irmão garante que o senhor está destinado a dirigi-la”, diz Victor à mesa.

Daí por diante, sempre me tratará como “senhor”, o lei dos italianos. “Muita bondade sua e do Luis – observo –, mas como dirigir uma revista de carros se nem sei dirigir um, e tanto mais distinguir uma biela de uma bronzina?”

Responde que precisa de um jornalista e não de um chofer e que, se a operação desse certo, eu poderia chefiar a redação de uma semanal para concorrer com Manchete e O Cruzeiro. “Será a Veja”, vaticina.

A perspectiva me interessou, além do mais me oferecia um ótimo salário. Aceitei e logo após minha chegada, em março de 1960, iniciei o trabalho de preparação do novo rebento abriliano em companhia de Attilio Baschera, diretor de Arte da editora. “É o momento – repetia Victor –, está nascendo uma indústria brasileira e nós vamos atrás disto.”

E me introduziu nos bastidores do negócio: havia fechado um acordo com a Volkswagen para garantir anúncios por um ano e o intermediário do acerto era um alemão de estranho sobrenome, Corduan. Não haverá como me livrar da impressão de que se tratava de um ex-SS, para não dizer a certeza. Era, no entanto, de devastadora simpatia. 

Quatro Rodas saiu em agosto e em dois dias esgotou nas bancas a tiragem de 30 mil exemplares. Às pressas, empolgados, imprimimos mais 20 mil. No fim do ano, Jânio Quadros elegeu-se e a situação política influenciou o futuro da editora.

Logo mais, quando da renúncia do novo presidente dados aos bilhetinhos, as consequências aconselharam o adiamento do projeto Veja. Na volta a São Paulo, um ano antes, fiquei à cabeceira de uma ampla mesa de reuniões na sala de Roberto Civita, o primogênito, melhor conhecido como Arci, pronúncia em inglês de RC. O próprio Victor gozava do privilégio de ser Vici, enquanto o segundo filho, Richard, estranhamente não era Arci Two.

Os escritórios da editora ocupavam alguns andares de um prédio central à Rua João Adolpho, que deságua na Avenida 9 de Julho, e certo dia, ainda na primeira fase do meu retorno, trafego pela calçada em companhia de Arci e ele indaga qual é o meu QI.

Creio que por iniciativa do patrãozinho a Abril submete os contratados ao exame psiquiátrico e ao levantamento do quociente de inteligência de cada um. Felizmente, eu fora isentado de tal esforço, de sorte a evitar um fracasso retumbante, e honestamente confesso ignorar a quantas andava a minha saúde mental. “Pena”, comentou, e soltou um número que, não recordo, era o QI dele.

Perguntei: “E isso é bom?” Sorriu: “Quer dizer que sou um em 25 milhões”. A população brasileira era de 70 milhões de habitantes. “Quer dizer que por aqui podem existir três iguais a você?” E Arci: “Podem, mas também posso ser único, porque a estatística leva em conta toda a população mundial”. Calei-me, muito preocupado.

Perguntei-me inúmeras vezes se Victor era consciente da presença ao seu lado deste gênio. E não faltaram meses, e mesmo semanas, sem que me inteirasse de que gênio se tratava. Quatro Rodas prosseguiu na sua maratona de sucesso, eu, no entanto, me mudei para o Estadão no fim de 1964, no ensaio do nascimento do Jornal da Tarde.

Menos de quatro anos depois, Victor Civita me chamou para uma conversa e desta vez Arci estava com ele. Pretendiam editar uma Time brasileira. 

A semanal de informações em vez da ilustrada acenada por Victor no nosso encontro romano me atraiu muito. Ao contrário da família Mesquita, habilitada a mandar na postura ideológica e política do jornalão, os Civita ainda se encantavam com os coqueiros e a caipirinha.

Entendi que teria uma margem de manobra infinitamente maior do que aquela gozada no Jornal da Tarde, embora na casa do Estadão tivesse contado com total autonomia formal e que os Mesquita foram os meus melhores patrões no trato e no cumprimento dos compromissos.

Talvez não fosse aquele o momento certo para embarcar na aventura de Veja, de fato o AI-5, golpe dentro do golpe, desabaria sobre nós todos três meses após o lançamento da revista, que já sofrera a apreensão de duas edições nas bancas.

Ao cogitarem de Veja, no fim de 1967, os Civita não se davam conta da gravidade da situação. De resto, que esperar de patrões que entre si falam em inglês?

A semanal, ainda em fase de ensaio, esticada de março a setembro de 1968, não teve o seu nome escolhido, até quando Vici me convocou para baixar seu édito: “Vai ser Veja”. Observei que o nome funcionava para uma revista ilustrada, como as estadunidenses Look e See.

Impávido, determinou: “Ao lado do ponto do jota colocaremos, em letras miúdas, e leia, Veja e leia está muito bem”. O adendo matreiro, tempos depois, caiu sem que os leitores percebessem.

As redações foram transferidas, no começo de 1968, dos escritórios da Rua João Adolpho para o prédio erguido na Marginal do Tietê, capaz de hospedar, eu imaginava, filmagens hollywoodianas. Vici realizara o seu grande projeto e nas entranhas do edifício instalara o maior parque industrial de uma editora latino-americana.

Custara uma dívida de 50 milhões de dólares contraída no exterior, sobretudo junto ao banco Morgan. Anos após, a minha cabeça seria negociada a este preço. Mesmo assim, o desfecho da minha trajetória na Abril não me levou a acalentar um turvo rancor em relação a Victor Civita.

Sempre captei nele o fazedor incansável. Valeria dizer de Vici o que o rei Enzo da Sicília escreveu no século XI: Giorno non ho di posa, como nel mare l’onda, dia não tenho de repouso, como no mar a onda.

Àquela altura, era dono absoluto da Abril, comprara a parte do irmão Cesare na sociedade e também a dos irmãos Smith de Vasconcelos, senhores de aristocráticos bigodes, proprietários, entre outros bens, de uma gráfica que abrigava uma vetusta impressora Webendorfer, responsável pelas tiragens de Quatro Rodas no tempo da minha direção. Nada mais, nada menos do que pai e tio de Marta, posteriormente Suplicy.

Como editor, Civita buscava a qualidade e pagava bem os empregados. Não tinha escrúpulos ao negociar com o poder em troca de vantagens para ampliar seu império, por exemplo, junto ao prefeito Paulo Maluf, ou ao ditador João Figueiredo.

Não ostentava, embora, de vez em quando, lançasse olhares na direção de empregadas formosas e gostasse de exibir refinamento diante de quem não saberia apreciá-lo. Houve ocasião em que, em um jantar na sua casa, oferecido aos redatores, chefes e editores de Veja, alguns ali fizeram menção de tomar a água das lavandas e ele, com bonomia sussurrada e gestos condizentes, explicou tratar-se apenas de mergulhar a ponta dos dedos depois de comer a fruta de estação.

Veja, ao cabo de uma campanha de lançamento majestosa, saiu com tiragem inicial de 700 mil exemplares, caiu para 500 mil no segundo número, 300 mil no terceiro, 150 mil no quarto. A certa altura, 80 mil era o número vendido às agências de publicidade, na verdade não passava de 40 mil, que chegou a encolher para 20 mil em certo período.

Era, contudo, tida como incômoda pela ditadura, e a partir de 1970 foi censurada por militares na própria redação. Dois anos depois, os censores fardados foram substituídos por um grupo de civis comandados por uma senhora sisuda. Foi uma invasão muito mais agressiva do que a dos predecessores.

Ao se desenhar a sucessão de Emílio Garrastazu Médici por Ernesto Geisel, seu futuro chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, prometia o fim da censura. Por indicação dele, fui negociar com o já recrutado para ministro da Justiça, Armando Falcão. Almoçamos no Rio e, além de pagar a conta no restaurante do Hotel Ouro Verde, Falcão confirmou a saída dos censores. Eu agia com absoluta autonomia, mesmo porque ao acertar com Vici meu retorno à Abril eu esclareci, alto e bom som, como os editoriais do Estadão, que aceitaria a direção da semanal se os Civita se comprometessem a não interferir nas pautas, se inteirassem de cada edição às segundas-feiras como os leitores comuns e somente então fizessem as suas observações.

Recordava sinistramente as intervenções de Arci nos meus tempos de Quatro Rodas, palpites desastrados, quando não lições de jornalismo.

Geisel tomou posse e a censura saiu. Por três semanas. Voltou, com ferocidade vingativa, com a ameaça de ser executada em Brasília às terças-feiras. Pecado imperdoável, uma charge de Millôr Fernandes, há anos colaborador da revista, figurava um torturado pendurado na parede da cela invadido pelo balão de uma fala vinda de fora, lia-se “nada consta”.

Parti para Brasília no dia seguinte e na antessala do gabinete do general Golbery dei com Arci. Explicou que soubera da minha viagem, desejava participar da conversa com o chefe da Casa Civil. Nada disso, proclamei. Insistiu até atingir o tom da imploração. Extenuado, admiti: “Venha, mas você vai ficar de boca fechada, entendido?”

Não foi difícil convencer Golbery de que a censura às terças-feiras, além do mais em Brasília, significaria a morte para uma semanal que fechava sábado e ia às bancas segunda. “Está certo – disse o general –, vamos dar um jeito.” Nos levantamos para a despedida e Arci abriu a boca: “General, há algum reparo dos senhores em relação a Millôr...”

O chefe da Casa Civil interrompeu: “Senhor Civita, não estou pedindo a cabeça de ninguém”. De volta à antessala, sentenciei com a devida energia: “Você é mesmo um cretino”.

A censura passou a ser executada nas dependências da PF, no Centro de São Paulo, de segunda a sexta, com o fechamento daqueles dias, e um serviço especial de Kombis cuidou do transporte de um canto a outro. Nos sábados, o material ia para a residência dos censores. Voltavam fotos rasuradas e textos devastados.

Nem dois anos se passaram e Arci comandou a ardilosa operação que resultaria na minha saída da Abril. Percorria os corredores do castelo da Marginal do Tietê o fantasma da dívida externa de 50 milhões de dólares que a editora pretendia consolidar no Brasil por meio de um empréstimo da Caixa Econômica Federal, presidida por Karlos Rischbieter, caro amigo falecido que se refere ao episódio em suas memórias.

Ele aprovou o empréstimo porque contava com as garantias adequadas, mas a aprovação deslizou para a mesa de Armando Falcão e ali se deteve. O ministro agia em nome de Geisel, o qual me detestava, e esta é honra da qual não declino. Decretou Falcão: não vamos encher as burras de uma editora que publica uma revista inimiga.

É uma longa história que não contarei mais uma vez. Direi apenas que o próprio Arci incumbiu-se da revelação: Falcão, ele sim, pedia a minha cabeça, de sorte a aconselhar a Abril a entregá-la sem hesitação. Ao resumir, cito minha decisão final: não serão vocês que me demitem, sou eu que me demito, da Abril não quero um único, escasso tostão.

De imediato, meu nome foi retirado do expediente de Veja e proibida minha entrada no castelo. Certo alvoroço espalhou-se na redação, e a repercussão apontou em outros meios para a tibieza dos patrões, súcubos da ditadura. 

Deu-se na ocasião minha última conversa com Vici, foi ele quem me procurou. Os porteiros me receberam com sorrisos e o chairman of the board saía de trás da mesa em formato de feijão e me abraçou. Disse: “Por favor Mino, me ajude”. Ainda de pé, no rumo das poltronas que nos esperavam em um canto da sala, deitei o ponto no i: “Seu Victor, de saída permita-me dizer que seu filho é um cretino”. “Não diga isso – atalhou Vici –, diga ingênuo.”

Com a voz do confessionário ele evocou os tormentos daquela hora, pedia conselhos em busca de uma solução. Retruquei. “Acho que está em recolocar meu nome no expediente enquanto falo com a redação e preparo a carta de demissão, vai ficar nas mãos dos redatores-chefes e creio que desta forma a situação será esclarecida.”

“Sim – disse Vici –, mas que dirá o Falcão?” Ri com gosto. “Seu Victor, não se preocupe, já marquei um encontro com o Falcão.” Aconteceu três dias depois, aprendi mais a respeito do melancólico enredo e de Brasília liguei para que a carta de demissão fosse entregue.

O ano de 1975 foi de grandes resultados para o terror de Estado e Roberto Civita, aquele prendeu, torturou e matou, Arci conseguiu lançar a Playboy, obra-prima de quem tinha como um dos mais notáveis pensadores do século XX, Hugh Hefner.

Ainda bem que a nova publicação tivesse dado emprego a alguns belos amigos. Sem contar em relação ao futuro presidente da Abril, a feliz manobra que no começo do ano seguinte livraria a editora da minha presença. Imagino que, depois da conversa definitiva com Falcão, ao sair de Brasília Arci exibisse a expressão de Moisés na descida das alturas do Sinai a sobraçar às tábuas da lei divina.

Não escapo agora ao confronto entre aquele passado e os dias de hoje. Saí da Abril com sólidas esperanças, na certeza de que o Brasil encontraria o caminho certo em dias mais ou menos próximos e que inventar meus empregos produziria a ventura entre os neurônios e a alma.

Victor Civita morreu em 1990 e o rei posto começa a cavar a sepultura da obra do pai morto com invejável denodo até passar o cetro aos filhos impotentes diante do desastre final. A Abril quebrou e, por ora, sabe-se do fechamento de nove títulos, da demissão de 500 funcionários, entre eles uma centena de jornalistas, do encolhimento das tiragens das publicações remanescentes.

Dentro de padrões tipicamente brasileiros, os derrotados não correm o risco do menor sofrimento material. São podres de ricos. E já protocolaram o pedido de recuperação judicial.

Impossível, porém, a concordata de um país incapaz de perceber sua própria tragédia às vésperas de uma eleição apresentada como normal enquanto representa apenas a fraude e a insanidade gerais.

Mino Carta

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