9 de ago de 2018

O caminho mais seguro para derrotar Bolsonaro é óbvio, mas há quem prefira flertar com o apocalipse


Prezado (ou desprezado) Futuro,

escrevo dois meses antes do primeiro turno da eleição presidencial. Tenho cá meus prognósticos, a despeito das ventanias que desarrumam o céu no instante em que se imagina que a calmaria veio para ficar.

Como observava o governador, ministro e banqueiro Magalhães Pinto, política é como nuvem. Quando se olha, está de um jeito. Daqui a pouco, de outro. Faltou dizer: o olhar varia conforme os olhos de quem olha, pois as nuvens iludem feito holograma ou desenho cubista. Depende da esquina de onde se vê.

Treze candidatos largaram na corrida de tiro curto. O pelotão com chance de passar à final reúne Luiz Inácio Lula da Silva (ou o por enquanto vice de sua chapa, Fernando Haddad, ambos do PT), Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Álvaro Dias (Podemos).

Não colherão fartura de votos, mas farão barulho Guilherme Boulos (PSOL, de esquerda-esquerda, tipo zagueiro-zagueiro), João Amoêdo (Novo, primo brasileiro do movimento Tea Party norte-americano) e Henrique Meirelles (MDB). Também aparecerão na urna João Goulart Filho (PPL, filho do presidente golpeado em 1964), José Maria Eymael (DC, com jingle-chiclete), Cabo Daciolo (Patriotas) e Vera Lúcia (PSTU).

Aí no seu tempo, seu Futuro, talvez meu vaticínio se revele desmiolado. Aqui no meu, as nuvens se descortinam assim: o candidato de Lula é o favorito para liderar o primeiro turno em 7 de outubro – ele próprio, se a Justiça permitir, ou provavelmente Haddad, com Manuela D’Ávila, do PC do B, como vice. O petista se confrontaria com quem prevalecesse na iminente carnificina entre Bolsonaro e Alckmin.

Para Lula e Haddad, seria preferível encarar Bolsonaro. O último round com Alckmin seria mais renhido, porque os seguidores do deputado sufragariam em peso o oponente do PT. Contra o candidato da direita babona de gravata, uma parte do eleitorado tucano iria de Lula.

O raciocínio se aplica a Alckmin, que ganharia votos lulistas para impedir a ascensão de um governante fascista. O pior cenário para o ex-governador seria o quinto cabo de guerra com o PT: nas últimas quatro eleições, o PSDB estrepou-se.

Para a democracia, o melhor é eliminar logo Bolsonaro. Nas urnas, não no tapetão.

‘A Justiça é cega, mas o juiz não é’

Na projeção para o 28 de outubro, o torneiro mecânico aparenta mais punch para nocautear o capitão. É o que argumentam as pesquisas, embora elas distorçam: é possível que entrevistados temam manifestar voto no ex-presidente por receio de que ele seja barrado. Para não desperdiçar a escolha, mencionam uma alternativa. Sem a ameaça do garrote, a intenção de voto em Lula seria maior.

No Datafolha mais recente, as simulações de segundo turno o flagram 17 pontos à frente de Bolsonaro, que também é superado por Marina (10 pontos). O extremista empata com Alckmin numericamente e, na margem de erro, fica atrás de Ciro. Derrota Haddad, cujo vínculo com Lula não foi informado aos entrevistados, por 9.

Para escapar do apocalipse, ou da consagração da barbárie contra a civilização, o caminho mais seguro é Lula. Isso não implica apoiá-lo compulsoriamente, e sim reconhecer seu direito democrático de competir. Contra ele, pugnam não apenas os bolsonaristas fanáticos, apelidados pejorativamente de bolsominions. Empenha-se igualmente quem, mesmo sem se assanhar por Bolsonaro, rejeita ainda mais o petista que atormenta tantos sonos.

Na Justiça, a maiúscula designa o Poder, e não grandeza. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luiz Fux, apressou-se: antes da inscrição da candidatura Lula, assinalou em despacho que o ex-presidente sofre de “inelegibilidade chapada” (significa “evidente”, e não sob efeito de erva bandeirosa). No Pará, o ministro cansou-se das aparências: “Eu sei que a Justiça é cega, mas o juiz não é”.

Na imprensa, parcela da fina flor do colunismo político renova a fuzilaria contra Lula, poupando Bolsonaro. Alguns jornalistas preferem o deputado em sétimo mandato ao regresso do viúvo de Marisa Letícia ao Planalto. Não demora, e o fogo se voltará contra o militar. Quanto mais ele resistir ao avanço de Alckmin, e Haddad (ou Lula) tangenciar o segundo turno, mais apanhará. A mídia mais influente é Alckmin, não Bolsonaro. Dois sócios do impeachment de Dilma Rousseff não cabem juntos na urna do fim de outubro – a tela exibirá o retrato de um opositor do golpe.

Bolsonaro não é burro

Nenhum candidato encarnaria hoje como Marina Silva o espírito das Jornadas de Junho, não fosse o pós-2013. Ao sucumbir ao beija-mão de Aécio Neves e afiançá-lo na decisão de 2014, a ex-ministra desbotou seu discurso de aversão à contenda entre tucanos e petistas. Apequenou-se, coadjuvante do PSDB, como se apequenaria se optasse por Dilma. Plantam notícias de que ela espera abiscoitar votos do lulismo. De que maneira, se bateu palmas para o impeachment e para a prisão de Lula? Marina deve se limitar a 3% do tempo da propaganda na TV, contra 44% de Alckmin.

Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência da República em 2014, beija mão da candidata derrotada da Rede, Marina Silva.
Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência da República em 2014, beija mão da candidata derrotada da Rede, Marina Silva.
Foto: Joel Silva/Folhapress

A assimetria também castiga Ciro Gomes, dono de 5% do horário eleitoral. Seus percalços não decorrem da língua afiada (Bolsonaro fatura com o destempero), mas da identidade política difusa: que interesses sociais o ex-ministro representa ou pretende representar? Namoraram sua campanha próceres do DEM (ACM Neto), do PT (Jaques Wagner), do centrão/direitão (PP em especial) e do PC do B (Flávio Dino).

Em fevereiro, Ciro afirmou que “a natureza do PT, assim como a do escorpião, é afundar sozinho”. Desejava de fato uma aliança? Na sexta-feira, declarou que a cúpula do partido de Lula embarcou “numa viagem lisérgica”. Na segunda, em conversa com empresários, disse que “querem resolver a eleição nos gabinetes ou em celas”.

Ainda carente de votos, Geraldo Alckmin é o candidato predileto do empresariado parrudo (seguido por Bolsonaro, pujante no agronegócio). Mas não tem a cara do país conflagrado de 2018, nem a do de cinco anos atrás. Seu gosto é de sacarina, não de açúcar. É correligionário de Aécio Neves, que encolheu como tecido barato em máquina de lavar. O neto de Tancredo, que amealhou 51 milhões de votos em 2014, tentará uma cadeira na Câmara. Pipocou do mano a mano com Dilma pelo Senado.

Alckmin vai rivalizar com Bolsonaro pela condição de antipetista mais furibundo. Na batalha pelo mesmo eleitorado, escalou como vice a senadora Ana Amélia, veterana de bajulação da ditadura nos programas da antiga da TV Gaúcha, do grupo RBS. Ela confunde a emissora jornalística Al Jazeera com o grupo terrorista Al Qaeda. Se o capitão é o favorito dos eleitores evangélicos, Alckmin se vincula à Opus Dei, prelazia católica ultraconservadora, vilã do filme O código Da Vinci.

Convenção Nacional do PSDB lança Geraldo Alckmin como candidato a presidente nas eleições de 2018. A senadora Ana Amélia (PP-RS) será candidata a vice-presidente.
Convenção Nacional do PSDB lança Geraldo Alckmin como candidato a presidente nas eleições de 2018. A senadora Ana Amélia (PP-RS) será candidata a vice-presidente.
Foto: Mateus Bonomi/Agif/Folhapress)

O tucano escancarou seus laços com Michel Temer quando o presidente empurrou o centrão para o colo do PSDB. Não haviam deposto Dilma em nome da decência no trato da coisa pública? Henrique Meirelles é fachada; o candidato de Temer é Alckmin.

Bolsonaro é ignorante, mas não é burro. Seu maior desafio a partir de 31 de agosto será sobreviver à raquítica presença na TV. Alckmin terá 39 vezes mais tempo, estimou o Valor: 5 minutos e 33 segundos contra 8 ou 9 segundos em cada bloco de 12 minutos e meio. O postulante do Partido Social Liberal, nona sigla a que se filia, não desidrata. Tem pregado para convertidos, os que o aclamam “Mito”.

No “Roda Viva”, relacionou o aumento da mortalidade infantil à saúde bucal das gestantes. Hoje, tal tolice engorda o anedotário político. Amanhã, com Bolsonaro presidente, seria pesadelo. Na Globonews, ele admitiu privatizar a Petrobras. Completou sua chapa com o general da reserva Antonio Hamilton Mourão, arauto da intervenção militar.

Hamlet ou Tiririca?

Anunciaram, no domingo, o vice provisório de Lula. Se o ex-presidente tiver o registro negado pelo TSE, Fernando Haddad assumirá a cabeça da chapa, com a deputada Manuela D’Ávila se incorporando a ela. Para o plano B prosperar, Lula precisará transferir votos em profusão. Seria surpreendente o ex-prefeito não receber ao menos um bocado deles _daí o meu prognóstico para o primeiro turno. A dobradinha mais previsível na reta de chegada é Haddad-Manuela. A outra hipótese é Lula-Manuela. Em qualquer situação, Manuela concorrerá como vice.

Da sua cela na rua Professora Sandália Monzon, 210, em Curitiba, Lula orientou as tratativas do seu partido. Obteve a neutralidade do PSB, que estava na bica de compor com Ciro. Em troca, o PT sacrificou a candidatura de Marília Arraes ao governo de Pernambuco. A vereadora desafiava a reeleição do pessebista Paulo Câmara ao Palácio do Campo das Princesas. Ela sairá para a Câmara dos Deputados. Na quinta-feira, um artigo-obituário na revista Forbes dera Lula “acabado como político”.

A realpolitik petista é arraigada. Um dos motivos de a seção fluminense do PSOL ser a mais poderosa são as intervenções da direção nacional do PT que levaram a agremiação a aderir e tabelar com políticos do naipe de Anthony Garotinho, Sérgio Cabral e Jorge Picciani. No Maranhão, o PT respaldou a oligarquia Sarney.

Neste ano, no Ceará, vetou ao senador petista José Pimentel a tentativa de reeleição, em benefício do emedebista Eunício Oliveira e do pedetista Cid Gomes. Em Alagoas, coligou-se com o MDB do governador Renan Calheiros Filho. O mote “Eleição sem Lula é fraude” não passou de bravata. “Se você conhece uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque está com problema”, disse em 2006 o então presidente.

No governo, o PT reeditou males que criticava, incluindo a corrupção. Em 14 anos, preservou a concentração de riqueza; os bancos acumularam lucros recordes. Por que, então, Lula mantém inigualável prestígio popular? Porque os petistas melhoraram a vida de dezenas de milhões de brasileiros, sobretudo dos mais pobres. Para a elite nacional, fundada na infâmia escravocrata, é inadmissível dividir um pouco, mesmo um pouquinho. É das mais egoístas e perversas do planeta. Daí o ódio ao PT, partido moderado, a considerar os padrões históricos da esquerda.

Por falar em escravidão, o vice de Bolsonaro disse anteontem que o Brasil herdou a “indolência” dos índios e a “malandragem” dos africanos.

A desembargadora que compartilhara em março mensagem mentirosa sobre ligação de Marielle Franco com o Comando Vermelho divulgou sua torcida eleitoral. “Go Bolsonaro Go!!!”, foi a manifestação mais contida de Marília de Castro Neves.

Diga lá, caro Futuro, isso tudo é Hamlet ou Tiririca?

Mário Magalhães
No The Intercept

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