22 de ago de 2018

Não, Bolsonaro não é um mito


Discordo do que afirma Thomas de Toledo em artigo publicado no Blog Esquerda Caviar com o título “Sim, Bolsonaro é um mito”.

Mitos são arquétipos, representações idealizadas. Mesmo quando monstruosos como o capitão Jair. O Conde Drácula, o Lobisomem, a Boiuna são representações simbólicas do mal, do destrutivo, do que atemoriza. Mas não foram criados por se os admirar como representação de algo que se deseje, e, sim, como algo que assusta e provoca medo.

Se existir alguém que se deseje estuprada por Conde Drácula, é uma mulher doente, fora de sua normal condição humana. O mesmo acontece com aquele que consiga sentir prazer em imaginar-se dominado por um Lobisomem ou envolto pelas cheias dos rios simbolizados na Boiuna.

Essas pessoas sofrem de distúrbios depressivos, demonstram sintomas de psicose e devem ser consideradas como séria ameaça a si mesmas, com possibilidade de vir a ser ameaças para as sociedades em que estejam inseridas.

Esse tipo de desajustados sempre existirão, é verdade, mas tanto o Estado quanto as próprias sociedades devem saber se defender e trata-los como doentes. O melhor é como se faz com todos portadores de pernicioasa doenças incuráveis: isolamento, apartar do convívio social ao máximo.

Na Alemanha e na Áustria ainda existem portadores de disfunções mentais e intelectuais que cultuam Adolfo Hitler. Em sua época, era tido como um mito de alemães e austríacos, mas hoje, só os dementes.

Assim como o capitão Jair no Brasil de hoje, Hitler foi sintoma de uma sociedade doentia, profundamente afetada pela depressão e frustrações coletivas provocadas pela Grande Guerra de 1914 – 1918. Hitler foi o sintoma da neurose coletiva daquela I Guerra Mundial, manifesta duas décadas depois.

O capitão Jair também é sintoma de um longo processo de degradação da psique social brasileira. Um processo histórico e bastante traumático.

Não é tão difícil fazer uso de pessoas ou sociedades traumatizadas, em estado de choque. O traumatismo psicológico muitas vezes transforma o indivíduo naquilo mesmo que o aterrorizou, como acontece com pedófilos e violentadores que assim se tornaram por terem sido violentados na infância. Outro sintoma é o permanente e incontrolável pavor ao que provocou o choque, mas isso muitas vezes se manifesta num sintoma que os especialistas identificam como Síndrome de Estocolmo.

Em 1973 três mulheres e um homem por uma semana foram mantidos reféns pelos assaltantes de um banco em Estocolmo. Depois de libertos, surpreendentemente passaram a defender aqueles que os sequestraram e a partir de então se passou a identificar como Síndrome de Estocolmo o estado psicológico de quem submetido a prolongada intimidação desenvolve admiração ao seu próprio agressor. Explica-se por subconsciente crença de que somente o poder de quem submete é o que poderá impedir submissão a ainda maior terror imposto pelo mesmo agressor.

Casos como esse se deram na II Guerra e um deles, em 1974, se tornou laureado filme da cineasta Liliane Cavani com o título “O Porteiro da Noite” (Il Portiere di Notte) , reproduzindo o reencontro de uma judia com seu carrasco e estuprador enquanto prisioneira de campo de extermínio nazista. A história se passa no início dos anos 60, quando o alemão, ainda nazista, se tornara um gigolô que a noite atua como porteiro de elegante hotel onde um célebre músico em tournée europeia se hospeda com a esposa, a sobrevivente judia. Os personagens assumem a atração sadomasoquista que os levará a serem executados pelo grupo ao qual se integra o ex-oficial nazista.

Exatamente é o que acontece com mulheres e até mesmo negros e homossexuais que declaram voto ao capitão Jair, apesar dele alardear seus próprios distúrbios de psicótica homofobia, misoginia, racismo, entre outras sociopatias. Mas não se pode dizer que para esses o capitão Jair seja um mito.

É, sem dúvida alguma, sintoma, como o próprio Thomas de Toledo expõem em seu texto muito correto no restante, mas profundamente incorreto ao sugerir que sonegadores e exploradores; latifundiários que roubam terras de índios e da União e envenenam a população com agrotóxicos; os que escravizam; os falsos religiosos corruptos e corruptores; os subservientes que se assumem colonizados; e todos os demais perturbados mentais que dentro de si somente cultivam o ódio e progressiva frustração existencial, sejam capazes de desenvolver ideais para si mesmos.

Impossibilitados de sentimentos por si mesmos, de reconhecimento da própria condição humana; esses são a doença do país. O capitão Jair é apenas um dos sintomas dessa doença.

Raul Longo, é jornalista e escritor

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