4 de ago de 2018

Lula contra a corrente

No dia 7 de abril deste ano, Luiz Inácio da Silva era preso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Começava ali uma guerra particular.

Lula, contra todos que o queriam fora do jogo, trataria de seguir na política, mesmo trancado numa sala da Polícia Federal em Curitiba. Passados quase quatro meses, ele marcou dois tentos na difícil partida que decidiu disputar (em vídeo gravado pouco antes de se entregar, ele lembrava que poderia, facilmente, ter saído do país).

O gol mais recente foi impedir que o PSB (Partido Socialista Brasileiro) fechasse uma aliança com o cearense Ciro Gomes, candidato do PDT à Presidência. O primeiro foi a manutenção, até aqui, de uma intenção de votos, medida pelas pesquisas, em torno de 30%.

Ao contrário da possível dispersão causada pelo aprisionamento, o seu capital de sufrágios continua quase intacto.

Utilizando a larga popularidade que detém em Pernambuco, Estado onde nasceu, Lula comandou com punho de ferro a desconstituição de uma aliança quase certa entre o partido criado por Miguel Arraes e o ex-governador do Ceará.

Ajudado pelo fantasma da candidatura de uma neta de Arraes, a qual provavelmente inviabilizaria a continuidade dos pessebistas à frente do governo pernambucano, Lula enfraqueceu a postulação do seu ex-ministro de Integração Nacional.

Note-se que Lula não tem nada contra Ciro. Trata-se “apenas” de impedir que, ao ganhar musculatura com a sustentação do PSB, o comboio cirista toldasse o lulismo.

A informação publicada pelo Painel de que o PT, ao mesmo tempo, ofereceu a Ciro a vaga de vice-presidente na chapa de Lula confirma que não há prevenção contra ele. Desde que o pedetista cedesse a precedência ao líder petista.

O oferecimento é menos disparatado do que parece, uma vez que, como se sabe, Lula no final não poderá concorrer por motivos judiciais. Chegado o momento de indicar o substituto, a escolha poderia recair sobre o seu vice, no caso da hipótese acima, Ciro. O preço a pagar seria, contudo, o reconhecimento de que é Lula quem dá as cartas e a submissão à incerteza que tal implica.

Em 1989, argumentava-se que não fazia sentido um dirigente metalúrgico aspirar à Presidência tendo como base apenas uma bem-sucedida eleição para deputado federal em 1986.

Em 2002, após três derrotas, dizia-se que Lula tinha teto (cerca de 30% dos sufrágios) e devia ceder a vez a alguém que pudesse superá-lo. Em 2018, o ex-retirante decidiu nadar de novo contra a corrente. Vamos ver quem é mais forte.

PS: a escolha de Ana Amélia (PP) como vice de Alckmin mostra que, no campo da direita, as melancias começam a se acomodar, conforme previ aqui em 23/6 (“Lógica Polar”).

André Singer
No fAlha

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