8 de ago de 2018

"Hoje em dia eu tenho uma gráfica em minha casa"

Estava tudo dominado até o advento das redes sociais, do Twitter, do Facebook, do Instagram, YouTube, do Tinder. Novos tempos que os donos da notícia não conseguem digerir, só regurgitar.

Volta e meia um dos Irmãos Marinho dá prova mais ou menos viva de que sagacidade não se herda, e passa recibo. Na inauguração do novo estúdio do Jornal Nacional, uma reedição high tech da nave da Xuxa, em 19 de maio de 2017, Roberto Irineu dava no ar bandeira de nostalgia dos tempos em que, por força do monopólio, em matéria de audiência surrava de 8 a 2 o resto inteirinho da concorrência e do incômodo que lhe causa a blogosfera.

Para dar uma ideia da mudança de hábito: hoje em dia o JN alcança média de “apenas” 30%. No anoitecer de 17 de maio de 2017, quando pôs no ar o plantão do escândalo da JBS, houve gente que imaginou até um ataque nuclear dos EUA contra a Coreia do Norte. E o telejornal bateu um recorde: 33,4%.

Isso é muito natural. Os “blogs sujos” publicam tudo o que tentam em vão enrustir. Blogs sujos eram assim chamados por José Serra na corrida presidencial de 2010. Num fenômeno comum da moderna sociedade de massas, esses blogs assumiram o carimbo de Serra, hoje chamado Careca na crônica político-policial: tal como os torcedores do Flamengo adotaram o urubu como mascote, ou os palmeirenses adotaram o porco.

O cerco que se fechou em Dilma Rousseff obedeceu ao comportamento padrão da mídia, que nega até hoje ter participado de um golpe. O melhor repórter brasileiro naquele momento era o norte-americano Glenn Greenwald. Com talento, credibilidade, um Prêmio Pulitzer - as revelações de Edward Snowden sobre a espionagem da NSA, visando o controle econômico e social do planeta -, mil ideias na cabeça, estourou o mocó dos barões da mídia. Eles perderam os pontos cardeais, bispais e conegais com as denúncias do gringo de coração carioca lá fora, provando que golpista nunca admite que golpeou.

O biliardário João Roberto Marinho desceu do pedestal, escreveu carta de protesto ao inglês The Guardian, questionando matéria publicada ali por David Miranda, casado com Glenn, em que destaca a participação da Rede Globo na conspiração. Não contava que sua carta fosse publicada no espaço reservado aos leitores comuns. Shame!

Gleen Greenwald e grande elenco agora pegam no pé dos barões da mídia e fazem jornalismo equidistante no site The Intercept Brasil, que os grandes irmãos da mídia sonham tirar do ar.

No pós-golpe, O Globo e a TV Globo continuam fazendo esforço hercúleo para parecer isentos. Chegaram a manipular pesquisa do Instituto Reuters para o estudo de jornalismo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, que coloca o Brasil em segundo lugar no índice de confiança do público na mídia. A Finlândia em primeiro. Trombetearam sem dar o link da pesquisa. Janio de Freitas se diverte em artigo na Folha: se fosse verdade, só provaria o quanto somos mal informados.

O fato inconteste é que revolução digital democratizou as informações. Mesmo levando em consideração que a internet é que nem papel. Aceita tudo. Até Donald Trump, que faz do Twitter a sua principal plataforma de lançamento de disparates – quem tem um presidente como ele não pode jogar pedra no Kim Jong-un dos outros.

E o ministro do Exército, Eduardo Villas Bôas, tuiteiro compulsivo, usou-a no tempo exato para o boa noite do Jornal Nacional do dia 2 de abril, para pressionar no dia seguinte o STF a rejeitar o pedido de habeas corpus de Lula, solicitado pela defesa para evitar que o processo chegasse ao fim em todas as instâncias da Justiça. Assim, com um simples tuite em forma de passarinho verde-oliva, as Forças Armadas passaram tutelar o golpe via TV Globo.

O ex-editor do inglês The Guardian, Alan Rusbridger, diz a propósito do Twitter:

“Hoje eu tenho uma gráfica na minha casa.”

Ele o considera a ferramenta mais poderosa dos últimos 20 anos, embora o microblog tivesse completado apenas 5 anos quando disse isso em 2011. Hoje diria que é uma gráfica na palma da mão. Para o bem e o mal.

Palmério Dória

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