8 de ago de 2018

Eleições 2018, terreno fértil para os “piratas da informação”

É consenso entre todos os institutos que se atrevem medir os índices de popularidade dos candidatos à presidência da República que o desânimo tomou conta dos eleitores. Os percentuais de desinteresse variam de 48 a 53%, dependendo do método que se use para fazer tais aferições.

Ninguém também tem dúvida de que está será uma das mais complicadas eleições realizadas, desde de 1989. Ela é curta. Vai durar pouco mais de 30 dias. E, pela primeira vez, acredita o Tribunal Superior Eleitoral – TSE, dependerá única e exclusivamente dos recursos do fundo partidário e das doações espontâneas dos militantes. Até prova em contrário, os grandes conglomerados não irão mais abastecer os cofres das campanhas com o ervanário proveniente do caixa 2. É ver para crer!

O programa eleitoral gratuito, a Internet e os debates serão os campos de batalhas onde assistiremos uma das mais polarizadas, desleais e enraivecidas eleições presidenciais. Não poderia haver um solo mais fértil para as chamadas “fake news” (notícias falsas). Até aqui nenhuma novidade. Até Mark Zuckerberg, multibilionário dono do Facebook, quando depôs sobre o assunto, perante o Senado norte-americano, demonstrou preocupações explícitas de que as “fake news” correrão soltas no pleito de outubro vindouro.

Antes mesmo, do escândalo da Cambridge Analytica sacudir a política dos Estado Unidos e impor uma perda de US$ 16 bilhões à companhia do jovem Zuckerberg, já se sabia, por estas bandas, que o bicho iria pegar na sucessão presidencial brasileira. E, o que foi feito para conter o anunciado torvelinho? Nada.

O presidente do TSE, ministro Luiz Fux, do alto da sua vistosa e artificial cabeleira, conclamou os veículos de comunicação para ajudarem os cidadãos vigiando aqueles que irão fazer traquinagens nas redes sociais. Como é do feitio da Justiça e de todas as autoridades públicas deste rincão, prometeu degredo e o mais severo dos castigos para os que fosse pegos fraudando informações.
Com grande estardalhaço, as Organizações Globo, embarcaram na onda do ministro. Lançaram a campanha publicitária “Fato ou Fake”. Prometem que todos os veículos do grupo estarão empenhados em desmascarar aqueles que mentem para os cidadãos/eleitores. Como marketing pode até ser bacana. Passam nas entrelinhas que um exército de profissionais de comunicação será colocado à disposição para darem combate a todo e qualquer bucaneiro da informação.

De cara, começaram vigiando o que os candidatos estão falando nos primeiros debates promovidos pelos seus canais de televisão. Pelo que foi publicado, por enquanto, estão preocupados apenas com firulas.

Explicar aos desesperançados e incrédulos o que se passa, realmente, nos bastidores da política nem pensar. Depauperadas de recursos financeiros e humanos, as redações de todos os veículos de comunicação mal têm braços e pernas para acompanhar a frenética agenda de comícios e debates que vêm aí, quanto mais vigiar os piratas da Web.

A crise na mídia é fato. A “Abril”, a maior editora de revistas do País, está em situação pré-falimentar. Anunciou esta semana a demissão de 500 funcionários. Entre eles mais de 170 jornalistas. Não é apenas a empresa da família Civita que passa por percalços. Até mesmo, a monopolista Globo dos irmãos Marinho tem visto seu faturamento encolher de maneira comprometedora. Assim como, os Frias da Folha de S. Paulo, os Saads da Bandeirantes e os Mesquitas do Estadão também vêm se equilibrando, há algumas décadas, num arame farpado.

Se os principais veículos continuarem insistindo em se transformar na chefatura de polícia da verdade, preparem-se para presenciar a mais rala e irresponsável cobertura jornalística de uma campanha eleitoral de todos os tempos. A Internet será preponderante.

Por isso, enganam-se os que acreditam que os marqueteiros foram varridos do mapa nestas eleições. Eles estão aí fortes e firmes. Só que, desta vez, um pouco mais discretos. E, se apresentam empunhando ferramentas bastante sofisticadas como: a robótica.

Na TV, Bolsonaro e seu vice terão nove segundos.
O inesquecível Enéas teve 15 segundos, em 1989.

Na partilha dos espaços nos programas eleitorais gratuitos, o capitão Jair Bolsonaro e o seu vice, o general Hamilton Mourão, terão exatos nove segundos (em uma exibição a cada três dias) para expor seus ideários e o que pretendem fazer pelo País.  Nem o inesquecível Dr. Enéas Carneiro – do Partido da Reedificação da Ordem Nacional – conseguiria se safar desse enrosco. Quando se candidatou em 1989, Enéas tinha 15 segundos.

Os articuladores da campanha do capitão do Exército sabem disso. É por isso, que já há algum tempo vem atuando de maneira consistente nas redes sociais. A ponto de serem levantadas suspeitas que teriam lançado mão de robôs para responder perguntas de pesquisas de opinião feitas através de ligações telefônicas.

Na eleição de Dilma Rousseff, em 2014, foram gastos R$ 12 milhões para montar uma equipe e uma estrutura técnica para fazer campanha exclusivamente nas redes sociais. Aécio Neves teria gasto um pouco mais. Algo como R$ 15 milhões. Diante do que a Cambridge Analytica fez na eleição do Trump e no plebiscito do Brexit, na Inglaterra, as ações nas campanhas presidenciais brasileiras de 2014 foram de uma inocência angelical.

Como se sabe, Robert Mercer, um temido investidor norte-americano especializados em fundos abutres e criador da Analytica trabalhou com seus pesquisadores, engenheiros e cientistas em cima de 87 milhões de perfis de eleitores do seu País (perfis estes fornecidos pelo Facebook).

Oferecendo notícias falsas e verdadeiras para uma base tão significativa, Cambridge Analytica conseguiu tumultuar as cabeças de boa parte dos 137 milhões eleitores que compareceram às urnas nos Estados Unidos, em novembro de 2016. Todos os institutos davam como certa a vitória de Hilary Clinton. Deu Trump. Só descobriram as mágicas feitas através da Internet um ano depois de Trump tomar posse.

O marqueteiro baiano André Torreta, que já trabalhou para família Sarney no Maranhão e Fernando Henrique Cardoso, andou se apresentando aos caciques dos principais partidos brasileiros com o legítimo representante da Cambridge Analytica no Brasil. Em novembro do ano passado, Torreta foi entrevistado pela edição em português do periódico espanhol “El País”. O escândalo do Facebook ainda não tinha vindo à tona.

Naquela ocasião, anunciou que já se preparara para utilizar as maravilhas da robótica no WhatsApp, considerada por ele a verdadeira rede social brasileira. Depois desta entrevista, o publicitário recolheu-se em copas. Ele costuma cobrar muito caro por seus préstimos.

Só que pelas suas ligações passadas com o PSDB, não será surpresa se Torreta e sua equipe tenham sido contratados para terçar armas ao lado de Geraldo Alkmin e João Doria, em São Paulo. Não podemos esquecer que a coligação de centro direita liderada pelos tucanos não só terá a latifúndio de espaço nos programas nas rádios e nas TVs como abocanhará a maior fatia do fundo partidário.

Absorvidos por questões mais premente, os partidos de centro-esquerda, especialmente, o PT de Lula, PTD de Ciro Gomes e a Rede de Marina Silva ainda não tiveram nem tempo e nem dinheiro para se ocuparem desse tema. Pretendem ir para o embate eleitoral-cibernético com a cara e a coragem.

Que a força das militâncias os proteja!

Arnaldo César é jornalista e colaborador do Blog Marcelo Auler.

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