29 de ago de 2018

Eleições 2018: Lula estica a corda, anda no fio da navalha e está dando certo

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“Quantos votos você teve na última eleição?”, costumava me perguntar o Lula quando, como seu assessor nas campanhas e, mais tarde, secretário de Imprensa no governo, eu dava palpites em assuntos políticos.

Certa ver, durante um momento de folga, durante viagem ao exterior, sem mais nem menos ele me perguntou:

“Ricardinho, me diz uma coisa: você já pensou em ser presidente da República?”.

Não, não tinha pensado nisso, assim como também não tive votos em nenhuma eleição, até porque nunca fui candidato.

Quando discordava de alguma decisão dele na Presidência, dava risada, e respondia na lata: “Vem sentar um dia na minha cadeira pra você ver o que é bom pra tosse. É fácil falar, vem fazer”.

Embora velhos amigos, nossa relação de trabalho nas campanhas e no governo era bastante conflituosa porque o candidato e o presidente não gostavam de ser contrariados nas suas certezas, baseadas no mais das vezes em pura intuição.

Ele gostava de ouvir a opinião dos outros antes de tomar uma decisão, mas só quando ele perguntava.

Se você tomasse a iniciativa e viesse já com uma proposta qualquer, dizendo que seria uma boa ideia fazer isso ou aquilo, cortava logo:

“Se é muito boa, guarda pra você, não precisa me contar”.

Acontecia também de, em sua primeira reação, descartar qualquer proposta de trabalho na minha área, ou seja, tentar melhorar as relações com a mídia, para dias depois admitir que talvez fosse uma boa ideia.

Como as relações com a imprensa em todos os níveis, desde sempre, eram permeadas por sentimentos de amor e ódio, a depender do momento e das circunstâncias, não era fácil meu trabalho.

Lembrei-me destas passagens da nossa longa convivência de 40 anos nestes dias em que, mesmo preso faz quase cinco meses numa cela de 15 metros quadrados em Curitiba, Lula dita os rumos da atual campanha eleitoral.

A última vez que falei com Lula foi na véspera da prisão dele, quando ainda decidia o que fazer, em sucessivas reuniões no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, e só posso imaginar o que se passa na sua cabeça neste momento.

Pelas decisões que tomou até agora, esticando a corda ao máximo no seu embate com o Judiciário, e adiando até o limite legal o anúncio oficial de Fernando Haddad como seu substituto na chapa, me dá a impressão de que age como nos tempos em que comandava as greves no sindicato.

Lula sempre andou no fio da navalha quando tinha que decidir o momento certo de prosseguir ou encerrar uma greve, quando ainda vivíamos no regime militar.

Chegou a ser deposto da presidência e preso no meio de uma dessas greves, mas nada o fez mudar seu modo de agir, arrostando os perigos e pesando até o fim ganhos ou perdas de cada decisão.

Para quem não é do ramo, como eu, fica difícil entender o que move Lula, contrariando o senso comum de analistas da cena eleitoral, entre os quais me incluo, por restar cada vez menos tempo para operar a transferência de votos dele para Fernando Haddad.

Os mais antigos lembram que Getúlio fez a mesma coisa na eleição de 1945, ao deixar para o último momento o anúncio de que apoiava o marechal Dutra como seu candidato, que acabou vitorioso contra o brigadeiro Eduardo Gomes.

Sabemos todos que a história não necessariamente se repete, mas vejo cada vez mais semelhanças entre Getúlio e Lula, os dois grandes líderes políticos da nossa República, nos momentos decisivos de suas trajetórias, entre a glória e a tragédia.

Mais do que ninguém, Lula sabe que não pode errar, porque nestes dias está decidindo não só o seu destino político e pessoal, mas também o do partido que criou e, principalmente, os rumos do país nos próximos anos, em meio a uma profunda crise de valores e de identidade, entre muitas outras, que se prolongam desde a última eleição.

O fato é que até agora a estratégia de Lula está dando certo, como mostram todas as últimas pesquisas, e posso notar o resultado disso no desespero que está batendo nos seus adversários.

Basta ver que as baterias do Judiciário, do Ministério Público e da mídia voltam-se agora para Fernando Haddad, na tentativa de inviabilizar a campanha do PT, mesmo se o nome de Lula não estiver na urna eletrônica.

Sou obrigado a reconhecer: quem entende de política neste país, se alguém ainda tinha alguma dúvida, é mesmo o velho Lula, a caminho do penta nas eleições presidenciais, algo inédito na nossa História.

Pena que eu não tenha aprendido nada com ele. Mas eu também não sou candidato…

Vida que segue.

Ricardo Kotscho

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