25 de ago de 2018

Eleição presidencial de 2018: o favoritismo da oposição


O primeiro slide da série abaixo mostra os resultados da pesquisa mais recente do Datafolha. Note-se que há os votos totais e os votos válidos. O que é mais divulgado e que todas as pessoas leem nesse momento da campanha são os votos totais, porém o slide mostra os votos válidos. 

Trata-se de uma vantagem bastante confortável. Faz recordar as eleições de 2002 e 2006 nas quais Lula venceu com facilidade Serra e Alckmin respectivamente. A vantagem final ficou em torno de 60 a 40, isto é, 20 pontos percentuais, foram as maiores vantagens até hoje em segundos turnos.

O que o dado do Datafolha de agora (junho de 2018) mostra é que a eleição está configurada da mesma maneira que 2002 e 2006.


No slide seguinte, na coluna da direita estão os votos totais dos confrontos em 2018: Lula x Alckmin e Lula x Bolsonaro, são os mesmos dados que serviram de base para o cálculo dos votos válidos que estão no primeiro slide dessa sequência.


A primeira coisa que merece destaque é a proporção de eleitores “sem candidato”, são aqueles que declaram que irão votar branco, nulo, os indecisos e os que não responderam à pergunta de intenção de voto. 

Note-se que em junho de 2014 essa proporção era apenas um pouco menor do que em junho de 2018. Assim, derruba-se aqui um primeiro mito dessa eleição: o de que o eleitor está mais descrente e frustrado do que em 2014. O dado mostra que isso não é verdade. É possível notar, inclusive, que na simulação de 2014 entre Dilma e Eduardo Campos havia mais gente sem candidato do que hoje quando são confrontados em segundo turno os nomes de Lula e Bolsonaro.

Outra coisa que merece destaque é – em 2014 – a vantagem de Dilma sobre Aécio. Ela é praticamente a mesma vantagem do resultado final da urna. Veja-se que acima Dilma tem 46% dos votos totais e 54,76% dos válidos. Ela terminou com 51,64%. Ou seja, entre junho de 2014 e o resultado final da urna em outubro a Dilma perdeu 3,12% de votos. 
Primeira conclusão: a pesquisa de junho previu com bastante precisão o resultado final. Segunda conclusão: se acontecer o mesmo agora, e sabendo que a vantagem de Lula sobre os adversários em qualquer simulação de 2º turno é grande, a eleição está encaminhada para uma vitória do candidato do PT. Hoje há mais gordura do que 3,12% de votos para perder e ainda assim vencer a eleição.
Agora veja-se no slide abaixo a série de dados do Datafolha para o segundo turno Lula x Alckmin. Note-se que nada mudou desde novembro de 2017. Note-se também que na medida em que passou o tempo do impeachment de Dilma, o voto em Lula foi aumentando e o voto em Alckmin diminuindo. O motivo é simples: o PT é oposição e o PSDB é governo, o eleitorado quer mudar, daí o favoritismo de quem é oposição.


Imaginando-se o cenário mais provável de que Lula não será candidato, para que o favoritismo do PT se concretize é preciso que Lula seja capaz de “transferir votos”. 
Em primeiro lugar, é preciso registrar que não há transferência de votos para cargos diferentes. 
Pensando na atual força eleitoral de Lula, basta imaginar quantos candidatos a prefeito e governador ele apoiou quando era o presidente mais popular da história do Brasil e que, mesmo assim, tais candidatos não venceram. 

Lula elegeu Dilma presidente em 2010 pedindo para que a população votasse nela. Ainda assim, ouso afirmar – vou mostrar os dados que sustentam isso – que o que ocorreu não foi “transferência de votos” da maneira como a maioria das pessoas entende isso.

A partir de janeiro de 2009 a nossa pesquisa mensal passou a registar os principais determinantes do voto presidencial. Em abril daquele ano decidi fazer uma pergunta na qual os entrevistadores mostravam o cartão abaixo. Eles iam a campo com um cartão plastificado tamanho A4 com as fotos tal como está no slide. 

Aí nós perguntávamos, “Se o segundo turno da eleição presidencial fosse hoje em quem você votaria, Dilma apoiada pelo Lula ou Serra candidato a presidente com Aécio de vice?”.


Feita a simulação de voto dessa maneira, o resultado de abril de 2009 foi absolutamente espantoso. Deu empate técnico, Dilma com apoio do Lula teve 42% dos votos, e Serra a presidente e Aécio de vice teve 44%. Na sequência dos resultados, nos meses seguintes Dilma passou a liderar na pesquisa. Em julho de 2009 ela já batia a chapa do PSDB por 48% a 35. O empate que ocorreu em outubro se deveu à saída de Dilma da campanha por conta do tratamento de saúde. Com a volta ela passou novamente a liderar com folga.


O que ocorreu, porém, não era pura e simples “transferência de votos” em função do prestígio pessoal de Lula, mas sim era algo relacionado com o desempenho de seu governo. No slide abaixo mostro o resultado para a seguinte pergunta:

- Você gostaria que o próximo presidente:

- continuasse tudo que o Lula fez

- continuasse a maior parte das coisas que o Lula fez

- mudasse a maior parte das coisas que o Lula fez

- mudasse tudo que o Lula fez

Note-se nas duas linhas superiores em cores laranja e vermelho o desejo de continuidade. Se somarmos os dois percentuais tínhamos algo em torno de 80% em todo o período. É possível também ver embaixo no gráfico a proporção de quem queria mudança das coisas que o Lula fez, está em verde e em azul escuro, a soma dos dois ficou sempre em torno de 15%. O restante (de 2 a 5%) não sabia responder à pergunta ou não quis responder, o que é uma proporção normal e aceitável.


O passo seguinte foi perguntar ao eleitor quem ele achava que poderia dar continuidade ao que o Lula fez. De novo, demos duas opções, se a Dilma era quem poderia dar continuidade ou se eram Serra presidente e Aécio de vice. Veja que na série algo em torno de 50% diziam que a Dilma era quem mais poderia dar continuidade ao que Lula vinha fazendo, ao passo que torno de 33% achavam que a dupla do PSDB era quem mais poderia dar continuidade ao que Lula vinha fazendo no governo. 

Então temos a seguinte conta: 80% queria continuidade e 50% achava que quem mais poderia fazer isso era a Dilma, ou seja, ela tinha 40% de votos totais (não é voto válido) somente por causa do desejo de continuidade.
Isso é a demonstração de que a “transferência de votos” é um processo mais profundo e complicado do que se diz por aí. Ela não é transferência de prestígio pessoal, mas sim algo mais amplo, conectado com um partido (PT ou PSDB) e com um posicionamento ou de governo ou de oposição.

O que está acontecendo hoje é que a grande maioria quer mudança. Veja-se abaixo os dados da pesquisa BRASILIS. Hoje, nada mais nada menos do que 83% querem um presidente que mude o que o Governo Temer fez, note-se que quase 50% quer que o próximo presidente mude TUDO o que o Temer fez. O resultado da pesquisa é claro: tende a vencer o candidato de oposição, e hoje o PT é visto como oposição.


Analisei a pesquisa que a Ipsos fez para o jornal Estado de SP testando a aprovação/reprovação de cada político. A reprovação do Temer aumenta, e aumenta junto com ela a reprovação de Alckmin, Fernando Henrique, Doria, Meirelles e Rodrigo Maia. Por outro lado, melhora a imagem de Lula. Não são testados outros nomes do PT, mas não é difícil imaginar que todos melhorariam sua aprovação. O motivo é simples, repito, o PT é a oposição. 

Pensando nisso fiz um slide que brinca com o dito popular de que todo político é “farinha do mesmo saco”. Não é verdade, pois há dois sacos, o de governo e o de oposição. Cabe a observação de que Bolsonaro não está em nenhum dos dois, ao menos por enquanto.















Alberto Almeida

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