30 de ago de 2018

Debates são bons para emissoras, não para eleitor

Os debates de candidatos são muito bons para as emissoras. Para os eleitores, não. Na forma que têm, agravada pelo ambiente ácido da política primária, o que está chamado de debate difere pouco das discussões de botequim.

A utilidade dessas exibições estaria na oferta de informações, sobre os propósitos de cada candidato, para a comparação do eleitor entre as várias possibilidades do seu voto. Na modalidade que adotaram, para o eleitor os debates não passam de diversão. É o que suas exibições preliminares nos advertem para os que vêm.

Todo candidato sabe que seu preparo não está na organização das propostas e argumentos, mas na pesquisa e memorização do que sirva para ferir cada adversário. Como complemento, treina sua linha de defesa aos ataques que receberá nos seus pontos tidos como vulneráveis. Ideias, se as tiver, guardam-se para momentos improváveis ou, na melhor hipótese, para frases fugidias.

O que a televisão transmite não é debate, é uma rinha com transmissão ao vivo, tão útil para os eleitores quanto briga de galos.

Os enfrentamentos na campanha de 2014 consagraram uma palavra para o que os principais candidatos fariam na TV: desconstruir. Seu lançamento foi do candidato midiático, Aécio Neves, destacado em O Globo: “Vou desconstruir a Dilma”.

Foi uma expressão em que Marina Silva veio a caber muito bem, sob fogo do PT, e seu autor se encaixou melhor ainda, no famoso tiro pela culatra.

Desconstrução é finalidade comum aos debates já exibidos. E determinadas entrevistas também, com a inclusão de apresentadores e jornalistas na tarefa primordial de desconstruir.

Nesses casos, há ainda o problema do tempo consumido pelo entrevistador. Medições muito recentes, citadas no informativo Drive Premium, de Fernando Rodrigues, e no blog de Mauricio Stycer, constataram a ocupação, por dois entrevistadores, de 40% e 30% do tempo de duas entrevistas.

Ao surgirem aqui, para a primeira eleição direta de governadores na ditadura, os debates tiveram muita utilidade. Não só como informação sobre os candidatos e seus propósitos, mas também na reativação de um certo civismo, à época esmagado já por 18 anos pelos governos militares. Brizola, Montoro e Tancredo, que fariam grandes governos no Rio, em São Paulo e em Minas, estiveram entre os beneficiados por seus desempenhos programáticos nos debates, então em formato mais racional.

A era do debate para exterminar adversários foi trazida por Collor, em um debate na Globo, cuja retransmissão transformista foi um dos determinantes do resultado eleitoral. E, portanto, do que sobreveio com o governo Collor.

Perguntas de um candidato a outro facilitam o rebaixamento do debate a briga de palavras. É forma imprópria até se não há briga, pela diferença de dificuldade, ou de ajuda, entre as perguntas para diferentes candidatos. O eleitor fica sempre sem o que precisa. E as emissoras ganham em qualquer caso.

Janio de Freitas
No fAlha

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