6 de ago de 2018

De seu cárcere minúsculo, Lula construiu o impossível


Na história da humanidade existem décadas que não valem dias e dias que valem por décadas. Se assim é, esse domingo (5) pode ter valido por pelo menos quatro anos.

Confrontado com a manobra política provocada por técnicos do TSE ao antecipar o prazo legal para a apresentação dos vices nas respectivas candidaturas partidárias, o PT costurou uma aliança inédita no mundo: uma chapa tripla.

Como se não bastasse o inusitado, o movimento representou o que alguém poderia descrever como uma sofisticada solução que obedeceu a rigorosas necessidades estratégicas da atual situação política não só do partido, mas, sobretudo, do país.

Foi algo tão refinado que para a compreensão plena do conjunto da obra faz-se necessário uma análise mais minuciosa de cada aspecto envolvido na sua individualidade.

O primeiro movimento se deu com o sacrifício de uma peça importante do tabuleiro. A retirada da candidatura de Marília Arraes para governadora em Pernambuco não só garantiu a neutralidade do PSB como abriu as portas para a tão alardeada unidade da esquerda.

Superado o trauma inicial e num gesto de extrema grandeza e desapego a interesses pessoais, Arraes divulgou já na noite de domingo nota oficial em que confirma que sairá candidata à deputada federal.

Além de selar o acordo com o PSB, garante um reforço imprescindível para a governabilidade do país a partir de 2019.

Noutra arena, uma batalha mais difícil estava sendo travada: o apoio do PCdoB sob condições especialíssimas.

O partido comunista já havia demonstrado especial interesse na coligação, mas exigia a vaga de vice logo de entrada, algo inteiramente compreensível.

Aqui o problema se complicava, seguindo a corretíssima estratégia de manter Lula candidato até as últimas consequências, o PT precisava que o seu eventual substituto tivesse imediatamente sua imagem ligada ao ex-presidente.

Para isso era premente que Haddad, o escolhido, configurasse como o vice oficial da chapa. Com isso, será ele a voz de Lula a percorrer o Brasil.

Como apontado em todas as pesquisas de intenções de votos, o candidato apontado como sendo o sucessor direto do ex-presidente tem o seu percentual elevado vertiginosamente.

Era de extrema importância que Haddad se mantivesse em evidência.

Não foi fácil, mas minutos antes da meia noite, O PCdoB e Manuela D´Ávila mostraram maturidade e compreensão política a favor de um bem maior.

Ficou acordado assim que a chapa será registrada com Lula presidente, Haddad vice. Confirmando-se a inelegibilidade de Lula, Haddad ascende à cabeça de chapa e Manuela é imediatamente chamada a ocupar o posto de vice.

Somados PT e PCdoB, engrossam o caldo o PROS e o PCO, além de alguns palanques estaduais do PSB, eis o milagre possível da união da esquerda. Com essa coligação o PT só não terá mais tempo de televisão do que a candidatura do santo com a megera do relho.

Pintado o quadro político nacional, é dado como certo que essa coligação estará indubitavelmente no segundo turno. Candidaturas como a de Guilherme Boulus, por mais interessante que seja, mostra-se completamente inviável do ponto de vista prático. Em muitas sondagens o candidato não chega sequer a 1% das intenções de votos.

Da mesma forma, o isolado Ciro Gomes, novamente em função de sua inabilidade política, já não enxerga a mínima possibilidade de êxito na contenda nem mesmo em suas mais profundas viagens “lisérgicas”.

Definido o cenário eleitoral de 2018, ficou evidente que a única chance de revertermos o escandaloso golpe de 2016 atende por um deslumbrante triunvirato formado por Lula, Haddad e Manuela D´Ávila.

É preciso reconhecermos, foi grandioso. De seu cárcere minúsculo, Lula construiu o impossível.

Carlos Fernandes
No Esquerda Caviar

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