19 de ago de 2018

Como conversar e entender os eleitores de Bolsonaro?

Para especialistas, o ódio disseminado nas redes tem como pano de fundo o uso político de um afeto comum a todos: o medo

Maria do Rosário e Jair Bolsonaro discutindo em audiência que tratava sobre a cultura do estupro
Um discurso não é apenas a fala de uma pessoa, mas o que essa fala cria em um contexto. É comum, em especial na discussão feita dentro das redes sociais, encontrar comentários que dizem respeito ao contexto político carregados de ofensas, palavrões e intimidações. É o discurso de ódio emergindo na crista de uma onda conservadora que avança em todo o mundo.

Em tempos de eleições, é oportuno falar, como pondera o professor da USP e psicanalista Cristhian Dunker, sobre a função política dos afetos. É verdade que a agressividade e o conservadorismo não são prerrogativas de apenas um ou outro político, ou do seu respectivo discurso político. Este ano, no entanto, o candidato à presidência pelo Partido Social Liberal, Jair Bolsonaro, possui a maior fatia do sermão reacionário.

A cientista política e professora da PUC-SP Rose Segurado, acredita que assim como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Bolsonaro responde ao fenômeno do homem comum que se viu contemplado nos espaços das novas mídias, em especial nas redes sociais, por questões que de modo geral o “politicamente correto” não permite.

É verdade que eleição após eleição cresce o debate político feito dentro das mídias digitais. Na mesma medida o candidato e seu respectivo discurso têm força nas redes sociais. Segundo o DataFolha, entre os eleitores do deputado federal com acesso à internet, 87% têm conta no Facebook, e 40% deles dizem compartilhar noticiário político-eleitoral na plataforma; 93% têm conta no WhatsApp, e 43% declaram disseminar o conteúdo.

Também segundo o DataFolha, 60% dos eleitores de Bolsonaro têm entre 16 e 34 anos. Desses, 30% têm menos de 24 anos. Justamente os mais novos são o que estão entrando pela primeira vez no debate sobre política.

“No final, é uma fala cheia de desinformação e preconceito, e extremamente perigosa para uma democracia. Não se fala hoje que o Holocausto foi uma coisa boa, mas nas redes tem gente propagando isso. Isso é feito para ancorar o ódio e a dominação contra determinados sujeitos da sociedade.”

O salvador da pátria

Ainda segundo Rose Segurado, em uma eleição marcada pela aversão da população sobre casos de corrupção, que atingem políticos de direita e esquerda, pelo medo da violência crescente, e sem recursos adequados para uma vida boa e íntegra - como saúde, educação, emprego e boas condições de trabalho -, a figura do salvador da pátria é tentadora. Não por acaso muitos dos apoiadores de Jair Bolsonaro o chamam por ‘mito’.

“O candidato já reconheceu que de alguns assuntos, como economia, ele não entende, mas que ele sabe escolher quem entende. Para outras questões ele dá respostas simplistas. Parece que ele vai resolver os problemas quase que de maneira sobrenatural, e convence que vai”, afirma a professora.

Para Dunker, a sociedade brasileira vive, em função da crise econômica e política, um momento de inversão de expectativas, e nesse momento Bolsonaro parece encarnar a figura que ele chama de “pai maior”, que seria como “um outro capaz de resolver os problemas por mim”.

Para dialogar com esse sintoma é preciso que o eleitor não seja infantilizado, e consiga compreender que não está fora do mundo, olhando os problemas de cima, mas é alguém que está nele e de uma maneira ou de outra influi para que as coisas estejam como estão. Na psicanálise é caso clássico de como os indivíduos saem da minoridade e vão para a maioridade.

“As pessoas precisam ser estimuladas a ter o arbítrio nas mãos, ter voz própria. Reforçar seus laços comunitários e sentir solidariedade é um dos caminhos para reverter o medo em uma ação positiva.”

Você tem medo de quê?

Uma das primeiras bolas levantadas pelo candidato que quicou para todo lado é a defesa de “que o cidadão de bem tenha porte de armas para poder se defender e defender sua família da violência”, assim como uma espécie de “licença para matar” para policiais que se envolverem em tiroteios.

O eco desse discurso radical pode provocar efeitos diversos, como aumentar a sensação de insegurança e por consequência gerar medo. “O ódio é um afeto complementar do medo. Ele ataca uma população que está desvalida e desamparada, e que pelo ódio sai da impotência, da incapacidade e age demasiadamente.”, afirma o psicanalista.

Uma das maneiras mais simples de entender e conversar com que está sendo dirigido pelo medo é perguntar objetivamente: você tem medo de quê?

“As pessoas temem a violência, mas mais ainda a repercussão dessa violência. O Bolsonaro aglutina todos os medos da população na criminalidade como um argumento monovalente, e isso não corresponde tão bem aos fatos. É importante tratar o medo diversificando ele. A gente não tem medo só da criminalidade, mas da falta de futuro previsível, das dificuldades em pagar a faculdade, em fazer frente às contadas da casa. E então questionar, como vamos resolver esses outros medos?”, explica Dunker.

Carol Scorce
No CartaCapital

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