23 de ago de 2018

Capitão covarde

A fuga de Bolsonaro aos debates deixa a dúvida: incapaz ou covarde?


A anunciada ausência de Jair Bolsonaro dos próximos debates entre candidatos a presidência não deriva apenas de uma estratégia, comum entre candidatos que lideram as pesquisas, de evitar confrontações desgastantes com adversários que farão de tudo para abatê-lo.

É quase uma confissão – e ao que tudo indica, verdadeira – de que ele não tem preparo ou capacidade para articular pensamentos e para administrar fala e gestos quando confrontado.

E olhe que a ironia e presença de espírito, entre os que participam daquele clube amável, onde todos querem ser “o mais simpático”, são artigos em falta, se comparado a disputas mais antigas.

Até porque a “marquetagem” os tornou algo semelhante a atores, e atores limitados, onde são raros os “cacos” e improvisos, todos acorrentados pelo tempo ridículo, sempre em torno de um minuto, no qual só se pode fingir que se interpretam os problemas nacionais.

Bolsonaro, numa palavra, percebeu que lhe saem asneiras da boca que só não são mais usadas contra ele por falta de informação e verve de seus competidores.

Por exemplo: no último debate, o da Rede TV, sugeriu colocar um militar para dirigir cada escola.

E ninguém lhe disse que ele era um imbecil, porque presidente da República não “coloca” diretores de escolas municipais e estaduais – que são 99% do total – e ainda que colocasse, não haveria milagre da multiplicação dos quepes que desse conta de colocar um oficial (supondo que não se  vá por cabos e recrutas em tais funções pedagógicas) à testa de cada estabelecimento escolar, pois eles são 33 mil e as escolas, em número de 145 mil.

Se confirmada, claro que a decisão o preserva destes  riscos, mas o expõe a outro: a de ser visto como covarde, o inverso da imagem que pretende projetar.

A ver se o ex-capitão bate mesmo em retirada.

Fernando Brito
No Tijolaço



O maior adversário de Bolsonaro se chama Bolsonaro, e é por isso que ele quer fugir do debate
Marina enquadra Bolsonaro
O presidente do partido que abriga Bolsonaro, o PSL, confirmou que ele não quer mais participar dos debates na TV.

“Ele está de saco cheio desses debates inócuos, que não levam a nada. Não sabemos se ele vai aos outros. Tem 40, 50% de chance de não ir”, afirmou Gustavo Bebianno, segundo reportagem da Folha de S. Paulo.

“Tem uma fórmula milagrosa para tudo. Ganha quem mente mais”, acrescentou.

No último debate, na Rede TV, ele foi confrontado pela candidata Marina Silva (Rede) pelas declarações discriminatórias que profere contra as mulheres.

Bolsonaro diz que, como presidente, nada pode fazer a respeito da diferença salarial entre homens e mulheres.

Seria uma questão do mercado.

Diante de Marina, o capitão reformado do Exército balbuciou algo como “Leia Paulo”.

Na verdade, ele estava se referindo ao apóstolo a quem é atribuída a autoria de uma série de cartas publicadas na Bíblia, consideradas a base da doutrina cristã.

Paulo diz muitas coisas, algumas até contraditórias, entre uma carta e outra, mas, no que diz respeito a mulheres, Bolsonaro talvez tenha se referido ao capítulo 14 de I Coríntios:

Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos.

As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei.

E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja.

Conhecendo Bolsonaro, é muito provável que tenha querido dizer isso mesmo: as mulheres não devem falar em público.

Por que citaria Paulo, no contexto de um debate sobre igualdade de gênero?

Paulo também fala sobre as mulheres em outra carta, I Timóteo:

A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição.

Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.

Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva.

E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.

Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, no amor e na santificação.

Para quem não conhece a Bíblia, estas palavras, tomadas isoladamente, fora de contexto, causam justificadamente repugnância.

Nem na maioria das igrejas estas palavras são interpretadas ao pé da letra, já que são muitas as mulheres que dirigem reuniões e pregam.

Mas, para pessoas como Bolsonaro, justificam a supremacia do homem sobre a mulher.

Bolsonaro, penso, quis dizer a Marina:

“Fique no seu lugar. Você é mulher, eu homem. Você não tem nada a me ensinar”.

Mas ele não teve coragem de dizer o que muitos que frequentam igrejas pensam.

Como havia muita gente vendo — a audiência da Rede TV —, balbuciou:

“Leia Paulo”.

Para ele, que tem uma visão estreita do mundo, debater é muito perigoso.

Se disser exatamente o que pensa, só adquire mais rejeição.

Não perde voto, porque estes 15% da população brasileira que o apoiam pensam exatamente como ele.

Não ganham eleição majoritária.

Mas dividir o mesmo território com eles é o preço que se paga na democracia.

Joaquim de Carvalho
No DCM



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