4 de ago de 2018

A direita, o PT-PSB, os abusos da PF e a "ponte sem futuro"

(1) A indicação da senadora Ana Amélia como vice de Alckmin. Para quem não a conhece, ela é uma espécie de Bolsonaro dos pampas, pelo despreparo político, truculência e desprezo pelos direitos. Ao escolhê-la, o PSDB sacramenta sua opção pela extrema-direita. Alckmin entende que o espaço do centro permanecerá vazio, dá como favas contadas que Lula ou seu indicado estarão no segundo turno e tenta garantir sua própria vaga disputando o eleitorado de Bolsonaro.

(2) A declaração de Alckmin sobre cobrança de mensalidades nas universidade públicas. É no mínimo inusual que um candidato a presidente que se queira competitivo faça um movimento tão explícito na direção da privatização do ensino superior. Mostra que o PSDB escolheu com quem quer falar - e não é com o povo.

(3) Juntos, os dois movimentos revelam, mais uma vez, que a direita não pensa em pacificar o país a partir das eleições. Ao contrário, continua radicalizando suas posições, negando espaço para negociação e almejando o esmagamento completo do campo popular e democrático.

(4) O acordo PT-PSB. Genial do ponto de vista do jogo eleitoral, emparedando Ciro Gomes e consagrando o nome petista, qualquer que seja, como única opção competitiva à esquerda, o acordo é lastimável do ponto de vista da luta popular, agravando ressentimentos e esfumando uma vez mais a linha divisória entre apoiadores do golpe e defensores da democracia. A radicalidade demonstrada pela teimosia na candidatura de Lula, denúncia viva da ilegitimidade do poder no Brasil de hoje, não corresponde a nenhum passo na direção da superação do eleitoralismo mais estreito e a nenhuma tomada de posição coerente com as necessidades da resistência do golpe.

(5) A reação da base petista ao acordo com o PSB. Partindo sobretudo de Pernambuco, que resiste à retirada da candidatura favorita de Marília Arraes para facilitar a reeleição de um golpista profundamente impopular, Paulo Câmara, mas se espraiando por todo o Brasil, há uma forte rejeição ao acerto definido pela cúpula do PT. A direção petista está claramente aquém do momento histórico, mas muito da base mostra maior clareza sobre o que estamos enfrentando.

(6) Cabe perguntar como a liderança petista reagirá ao desconforto de sua base. O golpe e a perseguição ao ex-presidente Lula deram ao partido uma sobrevida de apoio popular e entusiasmo militante, em grande medida congelando o processo de crítica aos limites de suas políticas. Estará o PT disposto a queimar tão rapidamente este capital que ganhou?

(7) A nova perseguição a um professor da UFSC por criticar a ação arbitrária da Polícia Federal, que levou à morte do reitor Luiz Carlos Cancellier. Desta vez, foi o professor Mario de Souza Almeida, intimado a "prestar esclarecimentos" pelo discurso que fez numa formatura. Completamente desmoralizada como investigação, a operação na UFSC está desnudada como ação arbitrária e injustificável, que, caso vigorassem os direitos, deveria levar à severa punição dos responsáveis. No entanto, obedecendo à melhor cartilha dos Estados policiais, a PF criminaliza as denúncias de suas violências, tentando silenciar à força as vozes críticas. O fato de que a corporação permanece alimentando impunemente esta espiral de abusos mostra a que ponto chegamos.

(8) Por fim, a exposição - pela própria direção da CAPES - do estado terminal do financiamento à pesquisa no Brasil. A "Ponte para o futuro" de Temer era só mais uma expressão do cinismo dos arquitetos do golpe. Se depender deles, não há futuro possível para o Brasil.

Luis Felipe Miguel

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