15 de ago de 2018

A cartada do PT


O Partido dos Trabalhadores começa a executar hoje sua estratégia eleitoral complexa, arriscada, mas não desprovida de chances de êxito. No meio da tarde, a direção do partido e seus governadores, juntamente com o vice de Lula, Fernando Haddad, vão protocolar no TSE o pedido de registro da candidatura do ex-presidente. Na praça defronte ao ondulado prédio do tribunal estará uma multidão composta, no mínimo, pelos três mil militantes que chegaram ontem a Brasília em três colunas, vindas de diferentes pontos do país. Nas últimas horas, o PT deflagrou uma ofensiva de imprensa e de manifestações internacionais em favor de Lula. Ontem à noite, a ministra Rosa Weber, que será figura chave neste processo, tomou posse como presidente do TSE.

A ofensiva incluiu a publicação de um artigo de Lula no jornal global The New York Times, reivindicando o direito de ser candidato: “quero democracia, não impunidade”. Na mesma linha a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, escreveu artigo na Folha de S. Paulo.  Hoje pela manhã haverá lançamento do livro de Lula, “A Verdade Vencerá”.

Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, visitou a presidente do STF, Cármen Lúcia, a quem disse que considera Lula um preso político. Com ele estavam militantes pró-Lula, inclusive um dos sete que estão em greve de fome, e juristas liderados pela professora Carol Proner, que pediram à ministra que paute as ADCs sobre prisão em segunda instância, o que poderia tirar Lula da prisão. Onze pastorais da Igreja Católica protestaram contra a prisão de Lula. Tudo isso para dar mais visibilidade ao jogo que começa hoje.

Perder ou ganhar

Vai dar certo? Há duas formas de dar certo, para o PT. A primeira, seria o deferimento da candidatura, via suspensão da inelegibilidade, após uma batalha jurídica que chegará ao STF. Teoricamente, existe uma chance, pois o artigo 26 da lei da ficha limpa admite a suspensão se o tribunal entender que os recursos do postulante, contra a sentença condenatória, têm chances de ser acolhidos. Isso significaria deixar Lula concorrer, na expectativa de que o STJ reverta sua condenação. Não acontecendo isso antes da posse (e dificilmente aconteceria no curto prazo), os votos por ele recebidos seriam anulados. Sendo ele o vencedor, tomaria posse o segundo mais votado.  Se o pleito fosse hoje, seria Jair Bolsonaro. Desta forma, é improvável que o PT ganhe a parada. O STF, que nunca facilitou a vida de Lula, não tomaria decisão que tornaria o resultado do pleito tão incerto e arriscado. Mas pode dar certo para o PT de outro modo. Se o TSE, e depois o STF, observando os prazos e os ritos, permitirem que Lula siga como candidato sob exame até à segunda semana de setembro, meio caminho estará andado. Enquanto não for impugnado, Lula participará do horário eleitoral, que começa no dia 31. Com sua poderosa capacidade de comunicação com o povo, contará sua versão da história, arrematando: pode ser que me impeçam de ser candidato, e neste caso vocês votarão em Haddad e em Manuela d’Ávila.

Consumada a substituição, PT fará um esforço de guerra, valendo-se de toda sua experiência em campanhas, de todos os aliados e recursos possíveis em busca da transfusão dos votos de Lula para a chapa. Hoje, pelo menos na série de pesquisas Ipespe-XP, quando apontado como candidato de Lula, Haddad chega a 13%. É bastante possível, portanto, que o PT consiga levá-lo ao segundo turno. Depois, são outros quinhentos.

Rosa Weber terá um papel crucial. Se agir com a pressa com que o TRF-4 julgou os recursos de Lula, tornando-o inelegível, a tática petista será fortemente prejudicada. Ela já deu declarações contundentes a favor da lei da ficha limpa. Por outro lado, quando rejeitou o pedido do MBL, para que declarasse antecipadamente a inelegibilidade de Lula, recusou-se: “A Justiça tem seu tempo”, disse ela. O PT depende de que esta máxima seja observada.

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