3 de ago de 2018

20 pontos sobre o acordo PT-PSB: feitos e malfeitos


1. A divisão do campo progressista entre quatro candidaturas (Lula, Ciro, Manuela e Boulos) sempre foi o maior problema para garantir a presença competitiva da esquerda no segundo turno ou até mesmo a vitória na primeira volta.

2. A melhor solução, por óbvio, seria o agrupamento dessas quatro forças em uma única chapa. Mas esse cenário não foi possível.

3. Para começo de conversa, a política do PSOL não passa pela questão da unidade eleitoral, mas por conquistar seu próprio espaço. Jamais esteve nas contas de Boulos e seus apoiadores uma coalizão ampla das forças populares, a não ser no segundo turno.

4. A candidatura de Ciro Gomes (PDT) também parte do objetivo fundamental, anunciado pelo próprio candidato, de superar a “hegemonia petista”. O ex-governador jamais escondeu que seu plano não era uma aliança de esquerda, mas de centro-esquerda, para a qual desejava atrair o PSB e o PCdoB, buscando apoio também entre partidos de centro-direita.

5. A indicação do ex-presidente, disparadamente a mais potente, poderia estabelecer a unidade por força gravitacional, mas as ameaças sobre seu direito de concorrer tornam inseguro o cenário para eventuais aliados, que estão estressados pela tática petista de esticar a corda e manter a candidatura de Lula mesmo sob chuvas e trovoadas.

6. O PCdoB, por sua vez, ficou entra a cruz e a caldeirinha, espremido entre Lula e Ciro Gomes. Parcialmente seduzido por uma política que transferisse à centro-esquerda o comando do que denominam de “frente ampla”, esse partido lançou a candidatura de Manuela D’Ávila, se esforçando para construir uma ponte entre as duas táticas do campo progressista, fundamentalmente encarnadas por PT e o PDT.

7. O PSB, comprometido com o golpe contra a presidente Dilma Rousseff e os momentos iniciais do governo Temer, acabou por se transformar em um arquipélago de grupos regionais, depois da fracassada tentativa de transformar Joaquim Barbosa em opção centrista. Cabe-se registrar, a bem da verdade, que frações mais à esquerda dessa agremiação conseguiram tirá-la do governo golpista e fazê-la votar contra as reformas liberais.

8. Tantas pressões centrípetas, portanto, tornaram inviável a unidade desejada. Como o espaço político da esquerda se situa entre 45 e 55% dos votos, bastante natural que o PT de tudo fizesse para garantir a máxima concentração de votos e alianças para seu candidato. O mesmo tratou de fazer Ciro Gomes. A diferença é que, à direita e à esquerda, o pedetista fracassou na empreitada, ao contrário do PT.

9. Nas circunstâncias narradas, não resta dúvidas que o PT colheu importante vitória: a candidatura de Ciro Gomes está potencialmente desidratada, expressivas seções estaduais do PSB marcharão com o PT e o PCdoB deverá fechar rapidamente uma aliança formal. Essa é a complexa dialética da eleição em dois turnos: antes do embate final entre campos antagônicos, tende a ocorrer disputa acirrada para definir quem irá liderar cada campo na rodada decisiva. Isso poderia ser evitado por um pacto unitário prévio, dessa vez impraticável pelos motivos já expostos.

10. O resultado alcançado aparentemente dá mais desenvoltura e musculatura à candidatura Lula ou a qualquer outra do PT, na prática superando parcialmente a divisão do bloco de esquerda. Não por unidade consensual, como seria melhor, é verdade, mas pela preponderância e enraizamento do partido de Lula.

11. Essa solução, contudo, não está livre de graves tensões. Diversas pressões e hesitações provavelmente levaram o PT a pagar caro por algo que caminhava a ter gratuitamente: a neutralidade do PSB, com vários de seus departamentos estaduais apoiando Lula ou qualquer outro candidato petista.

12. Os comandantes da legenda socialista jogaram com inteligência, ameaçando fechar com Ciro Gomes se o PT não abrisse mão da candidatura em Pernambuco, território fundamental da agremiação. Também acenaram com a retirada da candidatura de Márcio Lacerda para governador em Minas Gerais, o que supostamente facilitaria a campanha pela reeleição do petista Fernando Pimentel. Para completar, o comando do PCdoB também exigiu apoio aos socialistas pernambucanos, com os quais possuem tradicional relacionamento, ao ponto da presidente da sigla, Luciana Santos, ser companheira de chapa do governador Paulo Câmara.

13. Se o PT permanecesse na sua resolução anterior, de reivindicar adesão formal do PSB à candidatura de Lula para qualquer pacto nos estados, o que poderia acontecer? Das duas concessões socialistas, uma se perderia: a candidatura de Márcio Lacerda continuaria a competir com Pimentel, abrindo espaço importante para Ciro Gomes no segundo colégio eleitoral do pais. A neutralidade dos socialistas, porém, estava pouco em questão, pois é profunda a divisão do PSB entre defensores de Lula, de Ciro e até de Alckmin.

14. Preocupada com a situação de Minas Gerais e o fator PCdoB, além de oscilante frente ao potencial blefe socialista, a direção petista cedeu na negociação. Trocou a retirada da candidatura de Marilia Arraes em PE pela neutralidade nacional do PSB, a desistência de Márcio Lacerda e, de quebra, o apoio socialista a Márcia Tiburi no Rio de Janeiro, além de outros estados nos quais coalizões já estavam construídas (Paraíba e Amapá, por exemplo).

15. A liderança petista, no entanto, talvez tenha olhado de forma desatenta para suas próprias fileiras. Já furiosa com a resolução do PT cearense, que indiretamente permitiu aliança com o senador golpista Eunício de Oliveira (MDB), grande parte da militância se revoltou contra o sacrifício de Marília, esperança pernambucana que caminhava para o favoritismo eleitoral e que entusiasma, por sua juventude e combatividade, toda a pátria da estrela vermelha. Por outro lado, produz tremendo e justificável mal-estar a sucessão de acordos, diretos ou indiretos, com personalidades envolvidas com o bloco golpista.

16. A situação é bastante preocupante: talvez unido como nunca em sua história, desde a derrubada da presidente Dilma Rousseff, o PT está agora assolado por uma onda de rebelião e divisão que pode levar à paralisia partidária, a poucos dias do registro da candidatura Lula e da batalha mais decisiva que já enfrentou. Como era de se esperar, o Encontro Estadual do PT em Pernambuco manteve candidatura própria, por 230 votos a um, colocando o Diretório Nacional contra a parede, entre a intervenção que somente agravará a crise interna e a ruptura do acordo com o PSB.

17. Também entre os socialistas a encrenca é pesada, com Márcio Lacerda botando banca e anunciando resistência judicial, o que embute o risco de embaralhar o pacto com o PT. Mesmo que fracasse, deverá pular para o lado dos tucanos mineiros ou embarcar na campanha de Ciro.

18. Se essa confusão toda foi criada para ajudar Pimentel em Minas, ainda por cima o tiro pode sair pela culatra: muitos analistas avaliam que a retirada de Márcio Lacerda teria efeito inverso do desejado, pois interpretam que sua postulação funciona como anteparo entre o voto antipetista e a adesão ao tucano Anastasia. Sem Lacerda, o senador tucano poderia crescer e levar a eleição até mesmo no primeiro turno.

19. Mesmo tendo obtido avanço tático relevante, com o deslocamento do PSB e do PCdoB para sua órbita de alianças, o PT atravessa forte tempestade interna, que não era inevitável caso o olhar partidário ultrapassasse a planilha da matemática eleitoral. O tempo urge e esse clima precisa ser imediatamente superado.

20. O cardápio de alternativas, no entanto, é restrito. Acatar a decisão pernambucana e deixá-la ativa, ao menos até que se resolva o imbróglio socialista em Minas, serviria de paliativo. Revogar a resolução do PT cearense, reestabelecendo a candidatura ao Senado de José Pimentel, passaria sinal positivo. Imediatamente consolidar a aliança com o PCdoB, oferecendo a vice-presidência para Manuela D’Ávila, representaria fato animador. Trazer Marilia para a coordenação da campanha de Lula também poderia expressar gesto mais alvissareiro para a militância enfurecida. O que importa, para o bem da candidatura de Lula e o futuro do PT, é que sua direção se movimente com energia para resolver a confusão criada por decisões que contradizem a linha de combate que vem sendo liderada pela senadora Gleisi Hoffmann.

Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.

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