23 de jul de 2018

Xadrez da maior aposta de Lula

Peça 1 – entendendo a estratégia

A estratégia do PT para as eleições consiste dos seguintes passos:

Passo 1 – a pré-campanha, mantendo a candidatura de Lula até o fim

Objetivo – manter o eleitorado coeso, aumentar a adesão ao candidato permitindo até aumentar sua força eleitoral e fortalecendo o ungido, que deverá substituir Lula.

Passo 2 – a campanha do 1º turno

São feitas duas apostas na cabeça de Lula.

A primeira é que a jurisprudência do STF (Supremo Tribunal Federal) permite a candidatura de candidatos condenados em 2ª instância. Ela será por conta e risco do candidato. Lula imagina que, se eleito não haverá como despojá-lo da presidência.

A segunda convicção é que, quanto mais prorrogar a candidatura, mais a opinião pública entenderá a perseguição de que está sendo alvo, e maior será a transferência de votos para o seu candidato.

Passo 3 – o 2º turno

Passando para o 2º turno, montar o arco de alianças de esquerda para enfrentar o candidato de direita: Bolsonaro ou Geraldo Alckmin.

Passo 4 – o 3º turno

Vencendo as eleições, enfrentar as ameaças de impugnação, confiando no clamor popular.

Peça 2 – a correlação de forças

Como Garrincha já dizia, faltou combinar com os russos.

Eleição não se confunde com Poder. Em países democráticos, todo poder emana do povo. Em situações de estado de exceção, como a atual, o povo, ora, o povo! O sentimento democrático desaparece até de quem deveria defender a Constituição, o STF (Supremo Tribunal Federal) e a Procuradoria Geral da República (PGR)

Grosso modo, a estrutura de Poder é representada pelos seguintes grupos.
  1. Mídia, melhor dizendo, Globo, potencializando a influência do mercado.
  2. Judiciário: a corrente Lava Jato à TRF4 à STJ/TSE à STF, francamente anti-PT e disposta a punir os recalcitrantes internos.
  3. Os empresários, subdivididos em três grupos: as associações empresariais, as grandes corporações e o mercado. As associações aceitam até Bolsonaro; mais informadas, as grandes corporações não chegam a tanto. Mas em todos eles consolidou-se o sentimento anti-PT.
  4. O poder armado: Forças Armadas, Política Federal e Polícia Militar. Estão a reboque do poder central, mas sempre disponíveis para utilizar o poder da borduna contra os inimigos.
  5. O crime organizado e as milícias.
  6. Finalmente, os setores minoritários:
  • Sindicatos de trabalhadores.
  • Movimentos populares
  • Mídia alternativa
  • Setores da sociedade civil
  • Setores minoritários da Justiça
  • Consciências individuais que participam dos poderes anteriores.

Em relação à correlação de forças, há uma frente fechada anti-PT, uma aliança tão intransponível, que tacitamente admite até a alternativa Bolsonaro, se for para evitar a volta de Lula.

Esse é um dado da realidade, que não será removido com o uso da fé. Historiadores já descreveram a marcha da insensatez que acomete nações e civilizações. O Brasil claramente atravessa um desses momentos, sem que uma massa crítica de racionalidade se interponha no caminho do desastre.

Enquanto essa frente tosca não for rompida, não se deve alimentar nenhuma veleidade de se impor em nome do estado de direito e da consciência democrática.

Restam as eleições, como tentativa de freada de arrumação.

Dentro de cada Poder existem as pessoas de bom senso percebendo a loucura. Mas não ousam colocar o pescoço para fora, temendo – com razão – serem alvos de represália. Daí a importância das eleições e de saídas que, se não forem o sonho ideal do eleitor, pelo menos represente uma redução de danos do futuro próximo.

Peça 3 – o que os russos irão fazer

Entendido isso, vamos a uma análise da estratégia de Lula, colocando os russos – o Poder – em campo.

Etapa 1 – a pré campanha


Já se tem os resultados aí.

Houve o absurdo da juíza da execução impedir até entrevistas de Lula, e não haver nenhum poder capaz de revogar o arbítrio.

Conseguiu-se, com isso, afastar Lula de qualquer articulação política. E, pior ainda, nenhuma liderança petista se habilitou a essas negociações.

Por outro lado, fortaleceu a imagem de Lula e a percepção da perseguição política a que está exposto.

Etapa 2 – o 1º turno

Agora se entra na parte mais delicada, de definição da estratégia para o 1º turno.


O que se tem de objetivo:
  • Jair Bolsonaro mantendo seu índice de votação.
  • Geraldo Alckmin fazendo a liga entre o governo Temer, o mercado e a mídia, montando um arco de alianças que o deixará sozinho no campo da direita.
Aí entra o fator transferência de votos de Lula. Não se sabe quem será o ungido, mas em apenas 20 dias, o eleitor terá que saber que ele é o indicado de Lula.

Haverá o seguinte desenho no período:
  • A PGR e a Lava Jato, em parceria com a mídia, soltando denúncias a torto e a direito contra o ungido.
  • A mídia tratando-o como corrupto e recorrendo a toda sorte de factoides, que não será eterno, posto que factoides, mas infinitos enquanto durar o 1º turno.
  • O PT com 90 segundos por dia para informar o eleitor quem é o candidato de Lula. E ainda dividindo votos especialmente com Ciro Gomes.
  • Blogs e portais independentes falando para o público de militantes e para os democratas dispersos.

Etapa 3 – o 2º turno



Na hipótese do ungido passar o 2º turno, haverá uma guerra mundial. A jurisprudência do Supremo, TSE, TRE e o escambau será confrontada com o estado de exceção em vigor.

Etapa 4 – a pós-eleição


E, afianço, nem o algoritmo do Supremo ou do TSE terá muito trabalho, porque a maioria dos Ministros e juízes já faz parte da frente anti-Lula e votará com o que o Poder determinará.

Peça 4 – a revisão da estratégia

Com o auxílio do tapetão, as possibilidades de um 2º turno com Alckmin e Bolsonaro é real. Há que se analisar, então, o segundo tempo da estratégia. Esse é o busílis da questão.

Na luta contra a droga, adota-se a política de redução de danos.

Lula está fazendo a maior aposta da sua vida.

Não se poder dizer que Judiciário, Ministério Público, a própria Polícia Federal, sejam organizações homogêneas. Os abusos antidemocráticos cometidos contra Lula, as negociatas com o serviço público, a incapacidade de recuperação da economia, a volta do país ao mapa da fome, decorrem de uma aliança pontual cimentada pelo antipetismo, com um poder de represália capaz de demover as reações individuais internas em cada setor. Repito: o único fator de coesão desse banquete bárbaro é o anti-petismo.

Só se recuperará o caminho democrático se se romper essa aliança. E, aí, exigirá uma articulação que vai além do PT, que seja multipartidária, e, mais que isso, suprapartidária. O que significa uma revis.

Mais quatro anos do estilo Temer, aprofundado com a eleição de Alckmin, significará jogar definitivamente as forças democráticas no gueto, os movimentos populares na clandestinidade e os direitos sociais no lixo.

Prosseguirá a demolição de qualquer ponto de resistência, o próprio PT, sindicatos, governadores de oposição, imprensa independente, juízes independentes, procuradores que defendam direitos humanos e, especialmente, uma certa convicção democrática que começa a florescer internamente nesses poderes, fruto dos abusos reiterados de Temer e companhia.

O que está em jogo é o legado de Lula e seu próprio futuro político e seu papel na história. Se falhar nessa aposta de tudo-ou-nada, esquerda, centro-esquerda, forças democráticas estarão definitivamente fora do jogo. E Lula se tornará apenas um retrato na parede, lembrando os tempos em que o país parecia ter encontrado o seu destino.

Daí a importância de se analisar a política de redução de danos e compor a frente democrática antes que seja tarde. Mesmo que signifique o PT abdicar de um protagonismo que, por direito, deveria ser seu.

Luís Nassif
No GGN

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