26 de jul de 2018

Por que o centrão, com tanta bala na agulha, não tem candidato próprio


Acompanhando o noticiário, por meio da mídia ou das redes sociais, o eleitor desavisado tende a fazer interpretações simplistas dos assuntos relacionados à política.

O namoro entre Geraldo Alckmin e os partidos do Centrão (PRB, SD, PSD, DEM, PR e PP), por exemplo: salvo as críticas, comuns e legítimas num período eleitoral, os adeptos da ideia não vão muito além de citar as vantagens relacionadas ao tempo de TV.

Sozinho, o presidenciável do PSDB terá X tempo na propaganda eleitoral gratuíta. Com os novos aliados, passa a X mais um tanto. O cálculo é valido, sem dúvidas, mas é preciso saber que há muito mais em jogo.

Se você já fez ou participou de uma campanha eleitoral certamente ouviu falar dos conceitos de artilharia e infantaria.

O primeiro consiste em mensagens destinadas a atingir diretamente os eleitores, sensibilizando para as propostas e os ideais políticos dos candidatos. É aí que reside a importância de meios de comunicação de massa como a televisão.

A infantaria é tão ou mais importante, só que relegada a segundo plano por intelectuais encarregados de comentar sobre política que nunca entregaram um santinho na vida. Sua missão é conquistar o terreno, fazer o corpo-a-corpo e garantir agendas e encontros dos candidatos com eleitores e simpatizantes.

Nisso, as “feras” do Centrão são imbatíveis.

Vejamos o caso do PSD do ministro Gilberto Kassab e seu sócio Guilherme Afif Domingos. O que são os minutinhos de TV do partido perto das milhares de sedes de Associações Comerciais espalhadas pelo país?

E que dizer das igrejas evangélicas comandadas por PRB e PR ou das sub-sedes sindicais cujos líderes comem miudinho na mão de Paulinho da Força?

Em 2014, no pleito em que Dilma bateu Aécio no segundo turno, os modernos que andam com Marina Silva tiveram a brilhante ideia dos comitês residencias colaborativos.

Ganharam dois ou três abre de página nos jornais (olha a artilharia aí), mas pergunta se deu certo. Obvio que não. A correria de campanha é coisa para profissionais, não para amadores bem intencionados.

O pavor de Ciro Gomes é desmilinguir como a colega da Rede. Por isso tão logo naufragou  sua aventura com Rodrigo Maia correu para defender a libertação de Lula e fazer agrados ao PT. Sabe que, na condição de grilo falante da Nação, sem gente para andar nos bairros e agendar encontros com o povo, suas chances ficam reduzidas a quase zero.

Outra coisa que o noticiário tradicional não leva em conta é informar o público sobre algumas intenções por trás dos gestos.

É o caso de perguntar: se o Centrão tem tanta bala como se diz, com bases espalhadas nos estados, um exército de prefeitos e vereadores, por que não vai pra cima e banca logo uma candidatura própria à presidência?

Porque esse não é o objetivo dos caciques. O que eles buscam é formar grandes bancadas – a meta para 2018 são 200 deputados federais – para com isso controlar o Executivo fedaral.

Outro cálculo estratégico que fazem é financeiro: sem os dispendiosos gastos com campanhas majoritárias, sobra mais do fundo partidário para investir em grandes bancadas de parlametares.

Ninguém duvida que ao fechar acordo com a cacicada Geraldo deu uma bola dentro. Deu fôlego a uma pré-campanha que talvez nem dona Lu estivesse acreditando mais.

A questão é saber até que ponto Kassab, Paulinho, Waldemar da Costa Neto e cia vão aguentar o estilo autista de fazer política do tucano.

No Roda Viva desta segunda, dois detalhes chamaram a atenção: o vai e volta na polêmica do imposto sindical (Geraldo defendeu a extinção do ministério do Trabalho) e o grupo de convidados que levou para assistir ao passeio, composto de velhos amigos de Pindamonhangaba, Santa Rita do Passa Quatro, São João da Boa Vista e adjacências.  

O jogo nem começou direito e ainda falta debater aqui o impacto da web e das redes sociais no processo – um ambiente inóspito e sem controle em que se pode excercer ao mesmo as funções de artilharia e infantaria pesada.

No caso de Geraldo e Centrão a dúvida é saber se têm vocação para a coisa, do mesmo modo que sabemos que se garantem na igreja e nos encontros de pequenos comerciantes e locais.

José Cássio
No DCM

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