22 de jul de 2018

O novo quadro


O candidato tucano Geraldo Alckmin volta a ser peça do jogo com o apoio do Centrão. Ganha um tempo de TV colossal, capilaridade e máquina, mas vincula-se também ao que há de mais atrasado e melhor representa a “velha política”. A bola agora rola no campo da esquerda, em resposta à jogada do adversário da centro-direita. E a resposta, por ora, não foi a busca da unidade, como fez a direita, mas o acirramento da disputa entre PT e PDT pelo apoio do PSB e do PC do B. 

No dia em que o mercado e o empresariado só não soltaram fogos de artifício para festejar o feito do candidato preferido, com a Bolsa subindo e o Real se valorizando, o PDT sagrou Ciro candidato em situação de isolamento, sem vice e sem alianças. Em seu discurso, ele voltou a defender Lula, acenou aos possíveis aliados da esquerda e até ao empresariado produtivo. Dever de ofício: o capital agora voltou a apostar tudo no tucano, depois de ensaiar até a assimilação de Bolsonaro, na busca de candidato capaz de evitar a vitória da esquerda. Vale dizer, de Ciro ou do candidato de Lula.

Na disputa pelo apoio do PSB e do PC do B, ambos divididos entre apoiar Ciro ou o PT, Lula autorizou o ex-prefeito Fernando Haddad a divulgar ontem os cinco eixos básicos de seu programa de governo. Buscou assim o contraste com Ciro, que andou fazendo concessões programáticas ao Centrão, inutilmente. O flerte com o bloco só lhe trouxe desgaste em seu próprio campo, onde tenta agora se recuperar. 

No PSB a divisão interna é tão dramática que levou o governador de São Paulo, Marcio França (que antes defendia o apoio a Alckmin) a sugerir o lançamento da senadora Lídice da Mata (BA) como candidata própria do partido para evitar a difícil escolha. Lídice acaba de ter sua candidatura ao Senado sacrificada numa aliança com o PT da Bahia, que preferiu um aliado conservador do PSD. Ingratidão do PT. Ela aparou o golpe, em nome da aliança local e vai concorrer à Câmara. Lançar-se candidata a presidente só para dar conforto ao partido seria um segundo e maior sacrifício, que deixaria fora do Congresso um dos melhores quadros do PSB. Ela recusou o cálice. 

A profundidade da divisão sugere que não haverá decisão antes da convenção/congresso do dia 5 de agosto. O fracasso das negociações de Ciro com o Centrão pode ter favorecido o grupo pró-PT, mas pode ser também que o PSB opte pela solteirice. Cada estado ficaria livre para fazer seu jogo “e seríamos mais um partido sem projeto nacional”, lamenta o líder Júlio Delgado. O Comitê Central do PC está reunido desde ontem, debruçado sobre o mesmo dilema. O forte boato de que Lula teria convidado a candidata Manoela D’Ávila para ser sua vice não se confirmou. Antes disso, o PT vai insistir no apoio do PSB, ou mesmo em sua neutralidade, para que não apoie Ciro. O tempo é mais curto para o PC do B. Sua convenção será na quarta-feira. 

A esquerda subestima o novo quadro agora criado. A união conservadora com Alckmin não ficará só no apoio do Centrão. Irá muito além, formando uma coalizão poderosa, decidida a levar Bolsonaro e Alckmin ao segundo turno. O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) arriscou propor a chapa Lula-Ciro mas o campo está minado.

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