17 de jul de 2018

O caso Crivella e o jogo político do denuncismo


Vamos a uma análise das denúncias contra o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), a partir de uma entrevista dada hoje ao Globo pelo ex-Secretário de Educação, César Benjamin.

O episódio é a comprovação cabal dos prejuízos trazidos ao país pela prática do denuncismo desregrado e pelo “direito penal do inimigo”, praticado pela mídia e pela Justiça.

Genericamente falando, uma administração não é algo homogêneo. A necessidade de apoio político torna inevitável o atendimento às demandas fisiológicas, mesmo aquelas que se pretendem modernas. Há também a corrupção dos contratos ou para enriquecimento pessoal ou para financiamento de campanha.

Mas em muitas existem grupos internos que tentam implementar políticas positivas e duradouras. Um dos papéis centrais da mídia deveria ser o de identificar essas iniciativas positivas e fortalece-las nos embates internos contra os grupos fisiológicos.

Não é o que ocorre. Há a prevalência absoluta do “direito penal do inimigo” na cobertura jornalística. Escondem-se as boas iniciativas, superdimensionam as notícias negativas, dá-se ênfase excessiva a denúncias fundamentadas ou meros factoides. E, quando se recorre ao jornalismo de guerra, não há mais respeito pelos fatos.

Com esse estilo, fragilizam politicamente o Executivo. Fragilizados, ficam à mercê do legislativo. A consequência imediata é o fortalecimento dos setores fisiológicos e o enfraquecimento das políticas públicas.

Foi o que ocorreu com os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula, alvos de denúncias que os obrigaram a cair no colo do PMDB. E, agora, de Crivella e do governador mineiro Fernando Pimentel, obrigados a entregar anéis para não perder os dedos.

O caso Marcelo Crivella é significativo desses malefícios e fica bem explicitado na entrevista do ex-Secretário de Educação ao Globo (aliás, ultimamente o jornal tem brindado seus leitores com alguns respiros de jornalismo, embora a manipulação política continue preponderante).

Peça 1 – a denúncia de O Globo.

A denúncia foi publicada no dia 5 de julho. Houve uma reunião na prefeitura com 250 pastores, batizada de “Café da Comunhão”. Por não constar da agenda oficial da prefeitura, foi tratada como reunião secreta. Só no Brasil reunião com 250 pessoas é tratada como secreta. A única implicação política foi a presença de um pré-candidato a deputado federal pelo PRB – que, pelo teor da reportagem, nada mais fez do que estar presente.

Na reunião, o prefeito teria passado as seguintes informações aos pastores:

·      Informou que a Prefeitura está realizando o “mutirão da catarata”, com 15 mil cirurgias contratadas até o final do ano. E solicita aos “irmãos” que, se tiverem algum fiel nessa condição, informarem à Márcia, que ela encaminhará para cirurgia.

·      Informou também sobre um mutirão para operação de varizes e outro de vasectomia para homens.

·      Falou de pastores com problemas no IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). As igrejas são isentas. Deu o nome do dr. Milton para os processos andarem. “Temos que dar um fim nisso”, declarou, segundo O Globo.

·      Ofereceu também para remanejar pontos de ônibus próximos a igrejas, nos casos em que a posição do ponto seja muito distante ou o passageiro corra o risco de ser atropelado ao atravessar a rua.

·      Passou também o nome de assessores que poderiam informar sobre programas antidrogas. “Se as Igrejas estiverem crescendo, quantas tragédias nós vamos evitar?”.

Não há nenhuma informação sobre recursos da Prefeitura disponibilizados para a Igreja, sobre empregos oferecidos, sobre favores ilícitos.

O caso foi tratado como “escândalo”, alimentando uma CPI e medidas judiciais contra o prefeito. Imediatamente o Ministério Público Estadual se apresentou para investigar o ocorrido. Segundo o jornal, o procurador-geral de Justiça, Eduardo Gussem, informou que o MPE irá apurar se houve improbidade administrativa e abuso de poder político, o que configuraria também crime eleitoral. E a hipótese se transformou em manchete.

O que é verdade, o que é pós-verdade, o que é espuma nesse episódio?

Peça 2 – os argumentos de César Benjamin

Hoje, em O Globo, o ex-secretário de Educação César Benjamin, que foi demitido como decorrência do episódio, dá uma entrevista por escrito. A manchete é enviesada: “O prefeito se omite com frequência, diz César Benjamin, ex-secretário de Crivella”.

Demitido em função do episódio, Benjamin o analisa da seguinte forma:

O senhor recebeu, em algum momento da gestão, qualquer ordem, pressão ou orientação (mesmo que não tenha acatado) para beneficiar grupos evangélicos em sua gestão?

Não, isso não existe. Tenho muitas críticas ao prefeito, mas acho que no episódio da reunião com evangélicos, que O Globo noticiou, ele está sendo crucificado injustamente. O mutirão de cirurgias de cataratas existe há alguns meses, sob controle da Secretaria de Saúde, dirigida por gente séria. Os evangélicos trabalham com pessoas muito pobres e pouco informadas. Imagino que a tal Márcia poderia ajudar no encaminhamento de demandas, mas isso não significa furar fila. Houve, sim, afirmações infelizes na tal reunião, que permitem dupla interpretação. Mas também há má vontade com o prefeito.

Peça 3 – a mídia e o boicote à rede municipal de ensino

Ainda segundo Benjamin, a mídia jogou sempre contra o projeto de educação que se tentava implantar. O jogo político não diferencia bons e maus projetos. Se a mídia é contra o governante, tudo é motivo para desqualificações.

Manipulação 1 – ignorou os indicadores de desempenho

A SME é uma rede heroica e muito injustiçada, principalmente por vocês, jornalistas, sempre ávidos por denúncias.(...) Uma rede privada pode escolher livremente quantas escolas quer ter, quantas vagas quer ofertar e onde quer localizar suas unidades. Além disso, dispõe de um poderoso filtro para fazer uma seleção socioeconômica e cultural de sua clientela: as mensalidades. A oferta que ela quer fazer determina a demanda que ela vai atender, tudo de acordo com um projeto pedagógico e empresarial fixado de antemão. Não é difícil gerenciar um empreendimento com essas características.

A rede pública funciona ao contrário. É a demanda da sociedade que determina a oferta que a rede precisa fazer. Ela não seleciona quantas vagas quer oferecer, não escolhe os locais onde instala suas escolas, que estão em toda a cidade, e não filtra a sua clientela. Oferece um serviço universal e gratuito. Tem diante de si uma demanda crescente, incontrolável, virtualmente infinita.

Há enorme número de famílias desestruturadas, que não podem cuidar minimamente de seus filhos. Regiões inteiras da cidade estão sob controle do crime, sujeitas a violência endêmica. Tudo isso recai pesadamente sobre a rede pública de educação. Se levarmos em conta esse contexto tão desfavorável, podemos dizer que, sim, ela é muito boa. A maioria das 650 mil crianças que abriga só tem a escola como espaço de esperança. Boa parte delas realiza nas escolas suas únicas refeições completas. A SME é, de longe, o mais importante ativo social do povo do Rio de Janeiro. Precisa ser respeitada e preservada.

Manipulação 2 – os avanços não divulgados

Sistemas de avaliação

Com apoio da Universidade de Durham, que é referência na avaliação do sistema inglês, a SME está fazendo a primeira pesquisa longitudinal realizada no Brasil: 2.700 crianças nossas, distribuídas por 46 escolas, foram acompanhadas passo a passo no último ano da pré-escola e serão acompanhadas até o final do segundo ano do ensino fundamental, num total de três anos, período que inclui o desafio crítico da alfabetização na idade certa. Passamos a conhecer assim, em minúcias, o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo de uma amostra representativa de nossas crianças, obtendo resultados que a esta altura – tendo finalizado o primeiro ano da pesquisa – já são muito relevantes. Identificamos um subconjunto de escolas que apresentam resultados muito acima da média da rede, sem que haja diferença de meios, e agora a equipe de pesquisadores está tentando entender o que as torna tão diferentes das outras, para que possamos replicar suas práticas, com as adaptações pertinentes. Este é só um exemplo.

Tecnologia de educação

Um deles são as provas bimestrais. Sofisticamos muito a maneira de lidar com elas. Hoje, graças a um uso intensivo da informática, os resultados dessas provas e dos conselhos de classe, lançados no sistema, são recolhidos, processados e analisados em poucos dias, o que criou uma poderosa ferramenta de trabalho pedagógico. Pois, graças a isso, nos tornamos capazes de identificar, praticamente em tempo real, como está o aprendizado em cada turma e, dentro de cada turma, quais alunos estão se atrasando. Não precisamos esperar o final do ano para decidir se aprovamos ou reprovamos uma criança. Já no final do primeiro bimestre as equipes de supervisão, criadas em 2017, começam a buscar, juntos com as escolas, as correções necessárias. A aplicação desse método no segundo semestre de 2017, ainda em caráter experimental, fez cair a reprovação de alunos no terceiro ano do ensino fundamental, da média histórica superior a 20%, para 14%.

Formação de quadros

Esse time foi formado e treinado no segundo semestre de 2017, tornando-se plenamente operacional no início de 2018. Hoje, 1.956 professores, divididos em 56 esquipes, têm a missão de garantir que algo próximo a 100% dos alunos adquiram proficiência na leitura, na escrita e no manejo dos números até o final do segundo ano do ensino fundamental. Se, trabalhando nas primeiras séries, conseguirmos erradicar o analfabetismo funcional, isso mudará a qualidade de toda a rede em médio prazo.

Revisões curriculares

As revisões curriculares estão bem avançadas em todas as disciplinas, com participação dos professores. Começamos 2018 com 25 escolas bilíngues, oferecendo aos alunos inglês, francês, espanhol e alemão, e o planejamento está pronto para que elas sejam 56 no próximo ano, no caminho de termos uma rede pública bilingue em médio prazo. Acabamos de eleger quase 900 grêmios estudantis, como parte do programa de protagonismo juvenil, que se desdobrará no programa de protagonismo das famílias. O xadrez entrou na grade curricular de 120 escolas, com 43 mil estudantes. Implantamos o maior programa de ensino de música do Brasil contemporâneo, que formará 80 mil instrumentistas até 2020.
Estabelecemos parcerias com as universidades de Stanford, Harvard e Durham, no exterior, com a UFRJ, aqui, com o Museu do Amanhã, com o Jardim Botânico, e por aí afora. Muita coisa está acontecendo. Mas educação, por sua natureza, é um processo lento e silencioso. Por isso, aliás, os políticos não a valorizam.

Peça 4 – o jogo político anacrônico

Benjamin é uma pessoa controvertida. Seu penúltimo grande feito público foi a entrevista que concedeu à Folha acusando Lula de ter estuprado um colega de cela, acusação tão extravagante que o marcou definitivamente. O último foram os conflitos com Paulo Messina, Secretário da Casa Civil de Crivella, espécie de eminência parda da Câmara de Vereadores, defensor das demandas menores junto à administração. Ambos pediram demissão e voltaram atrás no mesmo dia.

Qual o efeito concreto das denúncias de O Globo? O mesmo das denúncias contra o governador mineiro Fernando Pimentel.

Criam-se factoides, explodem as denúncias. O resultado imediato é o enfraquecimento do prefeito ou governador. Enfraquecidos, ficam expostos mais ainda às demandas do legislativo. Consequentemente, há um fortalecimento brutal dos representantes do fisiologismo. E, como a mídia boicotou todas as boas iniciativas da gestão, elas se mantêm invisíveis, não se tornam ativos públicos e, portanto, fica muito mais fácil descarta-las.

As dúvidas que ficam desse episódio são quanto aos resultados efetivos da política educacional implementada por Benjamin. Uma coisa é o planejamento; outra, os resultados efetivos.

1. Se metade do que Benjamin informou for efetivo, estava-se a caminho de uma revolução na educação que foi ignorada pela mídia, por se tratar de um trabalho do “inimigo”. E, ao não lhe dar visibilidade, enfraqueceu-a completamente. Benjamin só se tornou fonte amiga quando foi demitido.

2. Se o que Benjamin informou não bater com a realidade, o jornal passou uma informação falsa.

A mistura de religião com política é um risco e há um conjunto criticável de práticas de Crivella. Mas mau jornalismo não é antídoto contra as mazelas da política. Especialmente quando o grupo jornalístico tem interesses explícitos com a prefeitura.

Peça 5 – Globo e Eduardo Paes


Inclusive, a parte mais substancial de R$ 112,3 milhões que Eduardo Paes desviou de obras de infraestrutura no Morro do Pinto, da Previdência e de revitalização no centro da cidade, para a construção do Museu do Amanhã. R$ 56 milhões foram destinados à Fundação Roberto Marinho, para gestão dos museus da cidade. Hoje em dia, só para complementar os gastos do Museu, a prefeitura gasta de R$ 15 a 20 milhões por ano.

De 2010 a 2016 – 8 anos de gestão Paes e 2 de Crivella – o Sistema Globo de Televisão, mais Globo Online, revista Época, a parte impressa (jornal O Globo, Extra, Expresso, compras da Secretaria de Educação e da Riotur receberam um total de R$ 156,5 milhões. Muito mais do que os R$ 17 milhões do Grupo Bandeirantes, os R$ 20 milhões de O Dia, os R$ 26,6 milhões da Tupi.

Segundo levantamento feito pela equipe de Crivella, sempre que se aproximam períodos eleitorais, a Globo aumenta a fuzilaria contra os adversários.

Candidato ao Senado em 2002, ele foi alvo de 52 matérias negativas em O Globo. Em 2003, o número caiu para 5 matérias negativas. Em 2004, ano de eleições municipais, as matérias negativas saltaram para 151. Caíram para 8 em 2005. O recorde foi batido na candidatura para prefeito, em 2008, com 330 matérias negativas. Nas eleições para governador, em 2014, o número saltou para 114.

Agora, aproximam-se as eleições, Eduardo Paes concorre e repete-se o jogo.

Peça 6 – a importância da diversidade de opinião

A Globo ajuda a fiscalizar o país, com seu apoio à Lava Jato. Mas quem fiscaliza a Globo? Seu poder de coerção é enorme. Ontem mesmo, um juiz federal de Brasil reavivou um inquérito da CGU (Controladoria Geral da República) sobre um contrato de Crivella, enquanto Ministro da Pesca, para troca de janelas no Ministério e ordenou o bloqueio de R$ 3,1 milhões nas contas de Crivella e outros funcionários do Ministério na época. Crivella alega que houve um inquérito na CGU e ele foi absolvido pelo TCU (Tribunal de Contas da União).

Qual o fundamento da decisão do juiz e da iniciativa do Ministério Público? Não se sabe. Pode ser que tenha fundamento, pode ser que não. A partir da politização da cúpula do Judiciário e do MPF, tudo é possível. Ontem mesmo, a Procuradoria Geral da República vazou um inquérito baseado em “indícios” contra o senador Lindbergh Farias, o mais crítico dos parlamentares petistas.

Independentemente das ressalvas que se tenha contra Crivella – e são muitas -, episódios como este, sem transparência, sem clareza, ajudam a demonizar mais ainda a política, o Judiciário e a mídia perante o cidadão comum.

E abrir mais um pouco a porta da jaula da besta que se aproxima vorazmente, aguardando a contagem regressiva para as eleições. Os que celebram o massacre midiático contra Crivella poderão ser as vítimas de amanhã. E sem dispor da Record para se defender.

Luís Nassif
No GGN

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