18 de jul de 2018

MANDELA 100 ANOS: Uma vida de luta pela liberdade

Uma trajetória de combate ao racismo e à desigualdade


Em um pequeno vilarejo do sudeste da África do Sul nascia, há 100 anos, uma das maiores lideranças mundiais do século 20. Conhecido como um grande conciliador, Nelson Mandela teve atuação decisiva no processo que deu fim ao sistema de segregação racial da África do Sul e se tornou o primeiro presidente negro do país abrindo caminho para a construção da democracia no continente africano.

Vencedor do Nobel da Paz, em 1993, Mandela deixou um legado que resulta de um processo longo e doloroso de renúncia de sua carreira profissional e da vida familiar. Ao longo dos 95 anos de vida, muitas mudanças, recuos e avanços marcaram o engajamento de Mandela na luta por igualdade.

Na avaliação da especialista Edna Roland, Mandela foi uma figura importante para o continente africano e para o mundo.

“Ele representa uma imagem positiva, um dos maiores representantes de uma posição equilibrada, uma liderança mundial. Acho que é muito importante esse papel de Mandela de projetar para as nações africanas, como de resto para toda a população negra do mundo, esta imagem de integridade, essa capacidade de negociação, de se dirigir para todas as nações do mundo”, avaliou Edna que foi relatora-geral da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, sediada em Durban, África do Sul, em 2001.

A subsecretária geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e diretora executiva da ONU Mulheres, a sul-africana Phumzile Mlambo-Ngcuka, avalia que Mandela conseguiu tornar o movimento contra o apartheid – sistema de separação forçada de negros e brancos que vigorou na África do Sul – uma bandeira mundial.

“Nelson Mandela tornou a luta contra o apartheid uma luta universal pela democracia, igualdade de gênero, fim da pobreza e solidariedade global. Ele articulou para que a questão de um país fosse relevante para várias lutas e várias pessoas em todo o mundo. De maneira peculiar, ele uniu sul-africanos que estavam em posições opostas”, afirmou Phumzile.

Identidade

A trajetória de Nelson Mandela começa em 18 de julho de 1918, ano que marcou o fim da Primeira Guerra Mundial e o surto da pandemia de gripe que matou milhões de pessoas no mundo. Ele nasceu no pequeno vilarejo de Mvezo, em Transkei, no sudeste da África do Sul, uma área rural onde a vida seguia o ritmo de séculos anteriores.

Mandela pertencia ao povo Thembu, da etnia Xhosa. Ele era membro do clã conhecido como Madiba, de onde vem o nome pelo qual ficou conhecido em sinal de respeito às suas origens. O sobrenome Mandela é herança de um de seus avôs.

O primeiro nome de nascimento de Mandela é Rolihlahla, que significa na língua de sua tribo “puxar o galho da árvore”, popularmente traduzido na África como “encrenqueiro” ou “agitador”. O nome inglês Nelson só foi dado a ele no primeiro dia de aula, aos 7 anos de idade.

“Africanos da minha geração – mesmo hoje – geralmente tem um nome ocidental e um africano. Os brancos não eram capazes ou não estavam dispostos a pronunciar um nome africano e consideravam incivilizado ter um”, escreveu Mandela em sua biografia.

A longa caminhada até a liberdade

Quando criança, Mandela viu poucos brancos em Qunu, cidade onde passou a infância. O contato com brancos e membros de outras etnias só aumentou quando Mandela passou por outras cidades para se formar na educação básica e superior.

Aos 23 anos, Mandela rejeitou um casamento arranjado e fugiu para Joanesburgo, a cidade mais rica da África do Sul, onde cursou direito em uma faculdade em que era o único aluno negro.

Junto com Oliver Tambo, outro líder sul-africano antiapartheid, Mandela abriu o primeiro escritório de advogados negros da África do Sul. Os principais clientes eram pobres vítimas do sistema segregacionista. Também em Joanesburgo, teve início o envolvimento de Mandela com a militância política que o consagraria no futuro.

A partir de 1948, quando teve início o apartheid, o comprometimento de Mandela ao movimento pela liberdade se intensificou. De observador, Mandela passou a ser uma referência nas articulações que buscavam mitigar os efeitos da segregação sobre os africanos.

Sua atuação logo chamou a atenção do governo, que o incluiu na lista de líderes banidos e proibidos de circular fora de Joanesburgo e de participar em reuniões políticas. O banimento e a perseguição do governo levaram Mandela a anos de trabalho na clandestinidade. Sua casa e escritório eram constantemente alvos de revista policial. Cada movimentação tinha que ser pensada estrategicamente para fugir da polícia, mas eventualmente Mandela e seus companheiros eram presos em Pretoria, Joanesburgo e na Cidade do Cabo.



Em 1962, Mandela foi condenado a cinco anos de prisão por incitação à greve e por deixar o país ilegalmente, quando pela primeira vez viajou pelo continente africano em busca de apoio de outros países. A viagem também serviu como o início do treinamento militar dos ativistas que queriam uma batalha armada contra o governo de minoria branca.

O plano foi descoberto e Mandela e outras lideranças foram condenados à prisão perpétua por conspiração e sabotagem contra o governo. Em 1963, Mandela entrou na prisão da Ilha Robben de onde só sairia em 1990. Ao todo, Mandela passou 27 anos de sua vida privado de liberdade.

Na prisão, Mandela tentou aproximar e reconciliar integrantes de diferentes organizações políticas. Ele também mediou conflitos entre prisioneiros e guardas e se projetou como negociador com o governo para a abertura democrática.

“Mandela é o exemplo pessoal do que um indivíduo pode fazer em seu meio, na sua sociedade, em seu contexto cultural e, na verdade, ao mundo, porque a influência dele ultrapassa muito as fronteiras da África do Sul”, destacou a professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB) Lourdes Teodoro, psicanalista que atua no movimento negro desde a década de 70.

Conciliador

Em meados da década de 80, ainda preso, Mandela conseguiu abrir diálogo com integrantes do governo sul-africano em busca de anistia para os presos políticos e de garantias de participação dos negros no comando do país.

O processo de negociação resultou na libertação de Mandela, em 1990, quando o governo sul-africano aceitou revogar as leis do apartheid. Liberto, Mandela viajou pelo mundo para buscar recursos para o Congresso Nacional Africano (CNA), principal partido anti-apartheid, e apoio para processo de transição política da África do Sul. Em 1993, recebeu o Prêmio Nobel da Paz junto com o último presidente do regime do apartheid, Frederik Klerk.

Em 1994, Mandela foi eleito presidente nas primeiras eleições democráticas da África do Sul. Na presidência, a gestão de Mandela foi marcada pela aprovação de uma nova Constituição para o país, com a afirmação dos princípios da liberdade, igualdade, respeito, democracia e justiça. Mandela não quis se reeleger e deixou a presidência em 1999.

“Nesse sentido ele também deixa um grande exemplo, que ultrapassa a questão racial. Ele deixa essa capacidade de compreender que o governo deve mudar de mãos, é preciso que novas experiências sejam vividas”, ressaltou a professora Lourdes Teodoro.

Mandela morreu em 5 de dezembro de 2013, aos 95 anos, devido a problemas decorrentes de uma infecção pulmonar. O corpo do ex-presidente foi velado por dez dias em Joanesburgo e Pretoria. As cerimônias de homenagem a Mandela nas duas cidades atraíram milhares de pessoas, militantes e o maior número de chefes de estado da história. Seu corpo foi enterrado em Qunu, cidade de sua infância.

No Porém

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